William Blake ganha edição brasileira histórica
- {voz da literatura}
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A Editora Iluminuras lança no Brasil uma das mais importantes iniciativas dedicadas à obra de William Blake (1757–1827): a publicação, em três volumes, dos Livros Iluminados, conjunto que reúne onze obras produzidas pelo poeta e gravurista inglês entre 1789 e 1795. Pela primeira vez, o leitor brasileiro tem acesso, em edição integral, às 183 estampas iluminadas que compõem esse núcleo essencial da criação blakeana.
Embora hoje reconhecido como um dos nomes centrais da literatura e das artes britânicas, Blake viveu quase toda a vida afastado do grande público, conhecido apenas por “um círculo de amigos, patronos e colecionadores”. Redescoberto a partir da metade do século XX, tornou-se influência para escritores e músicos como Allen Ginsberg, Aldous Huxley, Philip Pullman, Bob Dylan e Patti Smith, ampliando sua presença na cultura contemporânea.
Nascido em Londres, em 1757, William Blake foi poeta, pintor, gravurista e um dos artistas mais singulares do período romântico. Desde a infância demonstrou forte imaginação visual, relatando visões de anjos e figuras bíblicas — experiências que moldariam sua obra poética e pictórica. Formou-se como gravador e trabalhou com ilustrações, mas desenvolveu um estilo próprio que unia palavra e imagem de maneira inédita.
Ao longo da vida, Blake produziu poemas, pinturas, profecias poéticas e livros iluminados, sempre guiado por uma visão espiritual e simbólica do mundo. Suas ideias, muitas vezes incompreendidas, contribuíram para que fosse visto como excêntrico por contemporâneos. Morreu em 1827, praticamente desconhecido, mas deixou uma obra que seria reconhecida, décadas depois, como uma das mais originais da literatura e das artes visuais britânicas.

A arte singular dos livros iluminados
Os livros iluminados de Blake são descritos pela edição como uma “engenhosa recriação da iluminura medieval”. O autor desenvolveu uma técnica própria: gravava texto e imagem em alto-relevo em chapa de cobre, imprimia em cores e finalizava cada exemplar com aquarelas. O resultado são livros que combinam poesia, pintura e artesania, cada um com identidade visual única — variações de cor, detalhes de figura e até diferenças na ordem das estampas.
Essa fusão entre palavra e imagem é parte fundamental da visão estética e espiritual de Blake, que via a criação artística como expressão direta da imaginação e da experiência visionária.
Volume I: Inocência e Experiência
O primeiro volume da coleção reúne Canções de Inocência (1789) e Canções de Experiência (1794), obras que Blake concebeu como complementares. Em Inocência, o poeta retrata “uma vida quase paradisíaca, a espontaneidade da criança, a sensação de proteção e segurança, o bem e o Céu”. Já em Experiência, aborda a perda dessa inocência, a queda do homem, a mortalidade, o sofrimento social e o mal.
Ao reunir os dois livros, Blake acrescentou o subtítulo “Mostrando os Dois Estados Contrários da Alma Humana”, explicitando a dialética que estrutura o conjunto. São 54 estampas que revelam a tensão entre infância e maturidade, luz e sombra, pureza e conflito — temas centrais de sua obra poética e visual.
Um projeto editorial de fôlego
A edição brasileira é traduzida, organizada e anotada por José Antonio Arantes, que também assina a introdução e as notas. O volume inclui:
reprodução das gravuras originais do exemplar R (c. 1795, impressão c. 1808), do Fitzwilliam Museum, Cambridge;
cronologia da vida de Blake.
Com 176 páginas, o livro inaugura uma coleção que se completa com:
Volume II: O Livro de Thel, Visões das Filhas de Álbion e O Matrimônio do Céu e do Inferno;
Volume III: América, uma Profecia, Europa, uma Profecia, A Canção de Los, O Primeiro Livro de Urizen, O Livro de Ahania e O Livro de Los.
Por que esta edição importa
A publicação dos Livros Iluminados em edição integral brasileira é um acontecimento editorial raro. Blake, que uniu poesia, pintura, gravura e misticismo numa obra de difícil classificação, ganha aqui uma edição que respeita sua complexidade e oferece ao leitor acesso direto ao coração de sua criação.
Mais que um lançamento, trata-se de uma restituição histórica: a oportunidade de ver Blake como ele queria ser lido — em livros que são, ao mesmo tempo, poemas, imagens e visões.




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