Sophie Blanchard
- {voz da literatura}
- 14 de ago.
- 2 min de leitura
{} Rafael Voigt
Editor da Voz da Literatura
Doutor em Literatura (UnB)
Mal me levanto da cama, ainda bocejando, não consigo proferir palavra. Cultivo um silêncio raro. Laila costuma dizer que minha alma ainda não voltou para o corpo. Concordo com algum grunhido afirmativo e prossigo com meu silêncio.
Ir dormir alguns dias mais tarde pode acentuar essa característica de minha personalidade. Por vezes, a causa advém de um livro, de um boa entrevista nos meios digitais, de um filme, de um documentário… Nesse dia, se minha memória não está me traindo, o motivo foi o filme “Os aeronautas” (2019).
Pisco os olhos, estou na cozinha, cuidando do café da manhã. Observo pela janela o andamento das obras na fachada do edifício H. Baeta, prédio vizinho ao nosso. Admiro a engenhosidade humana, no sobe e desce do andaime elétrico, para retirar as pastilhas antigas - que eu admirava -, passar nova massa e finalizar a pintura amarelada.
Nessas olhadelas, vejo uma trabalhadora realizar, com força e destreza, os golpes de martelo na talhadeira para descolar as pastilhas e essas se precipitarem na garagem isolada do edifício. Com roupa apropriada e todos os equipamentos de segurança, passa despercebida em meio aos demais trabalhadores.
Influenciado em parte pelo filme “Os aeronautas”, minha imaginação reconstitui alguma cena de Sophie Blanchard (1778-1819) sobrevoando o céu de Paris no início do século 19.

Casada com o pioneiro balonista Jean-Pierre Blanchard, Sophie tornou-se parceira dele nas experiências com o balonismo. Admirada por Napoleão Bonaparte e Luís XVII, os voos de Sophie faziam parte de festividades oficiais desses governantes.
Em uma das ocasiões, por motivo do nascimento do filho de Napoleão, sobrevoou Paris, lançando folhetos para comunicar o ocorrido. Mais que o nascimento do imperador, Sophie indicava as possibilidades vindouras dos avanços da aeronáutica para o transporte e as comunicações.
Sophie Blanchard não foi a primeira a aeronauta, mas uma das pioneiras mais destacadas, pela quantidade de voos e pela ousadia. Pena que uma tragédia interrompeu sua trajetória e pôs um ponto final em sua vida, quando seu balão pegou fogo e ela sofreu grave queda do cesto.
Olhando pela minha janela, com o cheiro do café subindo pelo coador, fiquei pensando na existência de um fio histórico invisível que liga Blanchard e a trabalhadora no andaime elétrico...




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