Atenção para a leitura
- {voz da literatura}
- há 11 minutos
- 2 min de leitura
{} Rafael Voigt
Editor da Voz da Literatura
Doutor em Literatura (UnB)
Quantos minutos você consegue dedicar à leitura sem ser interrompido pelo seu celular?
A resposta a essa pergunta é um bom termômetro de como a economia da atenção atravessa sua vida.
Uma simples notificação de uma rede social pode assaltar a atenção, desviando o nosso olhar.
Quando se trata de leitor que abandonou de vez a leitura de livros físicos e pretende ler em algum app no próprio smartphone, parece que o contrabando da atenção é mais fácil.
Leitura exige dois movimentos. Primeiro, sutil desconexão do mundo e das preocupações ao redor. Segundo, conexão com o objeto de leitura. Sem essas ações, o processo de leitura não se completa. Ocorre com olhar desatento, sem foco, sem aproveitamento, sem experiência e vivência real do livro.
Por um tempo, com o advento dos livros digitais, supus que haveria uma drástica redução dos livros em papel. Ainda bem que minha previsão estava errada. Sinto cada vez mais necessidade do livro à moda antiga, em bom papel, em boa edição. É como a escolher um refúgio, para refazimento mental e espiritual, para melhor intervenção no mundo.

Com a sorrateira e sedutora chegada da IA generativa nas atividades do dia a dia, a tendência para a desatenção cresce.
Aqui, abro aspas para aproveitar uma reflexão do professor Luiz Cláudio Costa (Universidade Federal de Viçosa):
“Essa presença constante da IA tem efeitos profundos sobre nossos hábitos cognitivos, emocionais e sociais. Ao delegarmos decisões – desde qual caminho seguir até qual conteúdo consumir –, passamos, muitas vezes sem perceber, a externalizar processos mentais antes realizados com esforço, intuição ou reflexão. Isso pode gerar conforto e agilidade, mas também redução da atenção, perda da autonomia decisória e empobrecimento da curiosidade” [1]
São constatações atuais, mas que veremos reverberar com maior força num futuro próximo, quando, provavelmente, muitos leitores ou supostos leitores vão colher os frutos podres de delegar para a IA a leitura ativa e humana, recolhendo apenas o sumo ultraprocessado de “leitura (literalmente) maquinal”, sem qualquer esforço do olhar, do refletir e do pensar mais profundo.
Curiosamente, não faz muito tempo, a Suécia, uma das maiores entusiastas da distribuição de tablets para substituir livros físicos em sala de aula, reverteu essa política e realizou um altíssimo investimento para a aquisição de livros físicos, observando como são perniciosos para a aprendizagem os impactos da desatenção e da falta de foco dos estudantes com objetos digitais, especialmente quando o assunto é o desenvolvimento de competências relacionadas à leitura. [2]
Os minutos de desatenção provocados pelos meios digitais evidenciam em que direção caminha nossa capacidade leitora.
NOTAS
[1] COSTA, Luiz Cláudio. Inteligência artificial: Funcionamento e desafios à ética, às crenças e à existência humana. Petrópolis, RJ: Vozes, 2026.
[2] SAVAGE, Maddy. De volta ao lápis e papel: por que as escolas da Suécia estão reduzindo o ensino digital. In: BBC. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c05d2jpmnypo.amp




Comentários