Pixinguinha e as crianças
- {voz da literatura}
- há 11 minutos
- 2 min de leitura
{} Rafael Voigt
Editor da Voz da Literatura
Doutor em Literatura (UnB)
Dia desses, voltando de carro para casa depois da aula de ginástica de Laura e Júlia, liguei o modo aleatório das inúmeras músicas do streaming, sem qualquer playlist pré-montada. É um exercício que sempre nos surpreende. Podemos ouvir trecho de uma sinfonia de Bach, passando por boas canções pop do a-ha, a uma boa música popular na voz marcante de Daniela Mercury.
De repente, começa um chorinho rápido e animado, com apelo infantil. As crianças se divertem. Olho para o painel do carro: “O gato e o canário” (Pixinguinha). São cantos e contracantos como uma brincadeira de gato correndo e canário cantando, ou de canário voando e gato miando. Laura e Júlia não sabiam o tema da música, mas quando a música de menos de dois minutos acabou, logo emendaram: “De novo! De novo!”
Os sete anos de Laura e os três anos de Júlia identificaram-se naturalmente com a alegria musical embutida em “O gato e o canário”, como se estivessem assistindo a um desenho animado. Pelos ouvidos, pareciam desenhar na imaginação com aquelas notas musicais algo que só a expressão das crianças pode conceber.
Não sei se a intenção primordial de Pixinguinha e do flautista Benedito Lacerda, parceiros nessa composição, tinha algum componente de música infantil. Não há dúvida que, desde 1949 {1}, esse fonograma diverte muitos ouvintes. Fico imaginando se a performance ao vivo não fosse ainda mais extasiante.

“O gato e o canário” me remeteu, em alguma medida, ao Carnaval dos Animais, de Claude Saint-Säens. Considero magnífica a representação musical de tantos animais e de um aquário na obra de Saint-Säens. É uma comparação simplória entre Saint-Säens e Pixinguinha, mas ambos nas diferentes criações são movidos de um mesmo ânimo. É o tipo de criação musical que pode arrebatar, mesmo quem não curte tanto assim música instrumental. “O cisne”, de Saint-Säens, tem a capacidade de me levar a uma experiência transcendental. “Aquário” me mostra claramente os peixes se movimentando de maneira mágica dentro do recipiente transparente de água.
O espírito musical de Pixinguinha e Saint-Säens, nessas obras, lembra o espírito de brincadeiras infantis, em que a invencionice, a ludicidade e a criatividade das crianças são componentes inescapáveis. São exatamente assim Júlia e Laura em suas brincadeiras diárias.
De uma coisa estou certo. Laura e Júlia adoraram a música de Pixinguinha e Lacerda. Prova disso, como registrei acima, foi o imediato pedido de “bis”, o que para qualquer artista constitui alto reconhecimento artístico. E eu gostei de descobrir essa polca ligeira: com entusiasmo um pouco mais contido de início, mas que logo se distendeu, em meio à alegria das crianças.
A vida vai se encarregar de apresentar, na hora certa, a ternura de “Carinhoso”, para que Laura e Júlia talhem outras fibras de sua musicalidade.
NOTA
{1} O Instituto Moreira Salles (IMS) celebra e conserva a genialidade de Pixinguinha, disponibilizando em seu site um acervo riquíssimo, com fonogramas originais, regravações, vídeos, fotos, partituras. Vale conferir: https://ims.com.br/titular-colecao/pixinguinha/




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