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Um poeta que nos sobreviva: Eugeniusz Tkaczyszyn-Dycki

  • Foto do escritor: {voz da literatura}
    {voz da literatura}
  • há 11 horas
  • 3 min de leitura


Imagine um aeroporto bastante movimentado. Vários são os portões de embarque e desembarque. Entre chegadas e partidas de passageiros, há muitos anônimos e outros nem tanto. Alguns não conseguem se disfarçar e são logo reconhecidos. Outros passam despercebidos, embora merecessem maior atenção… Assim foi o movimentado ano literário de 2025 no meio editorial brasileiro.


No saguão desse aeroporto, nas grandes vidraças em que se observam pousos e decolagens literárias, não pode passar despercebida a chegada de mais um poeta polonês traduzido para o português do Brasil.


Seu nome é Eugeniusz Tkaczyszyn-Dycki (1962-), destaque da poesia polonesa contemporânea, que já recebeu uma das mais prestigiadas premiações literárias da Polônia: o Prêmio Literário Nike (2009).


Aterriza no Brasil com a coletânea bilíngue Algo que nos sobreviva (7Letras, 2025), com generosa seleção de 52 poemas de diferentes fases de sua poesia. Conta, para tal, com o anfitrião, tradutor e intérprete ninguém mais ninguém menos que um dos precursores da tradução direta da literatura polonesa para o português do Brasil: Henryk Siewierski, professor titular na Universidade de Brasília. Há mais de 40 anos, Siewierski ajuda a estreitar as relações literárias entre Polônia e Brasil.



Por seu passaporte, observa-se que Tkaczyszyn-Dycki é um polono-ucraniano (ou ucrano-polonês?), nascido na aldeia de Wólka Krowicka, no sudeste da Polônia. Desse lugar, seu fazer poético se alimenta, por carregar as marcas de uma região caracterizada por guerras, invasões e deportações:


V

cheguei de novo na região de Przemyśl

cheia dos deuses poloneses e ucranianos

a família está encolhendo cada vez mais

e eu aumentando na solidão


sou como um pagão que não tem

casa entre seus mortos

começo o dia com um grito

filho fiel dos que morreram

(Nenia i inne wiersze [Nenia e outros poemas], 1990)


Um outro traço personalíssimo atravessa sua poesia: a esquizofrenia e o uso de medicamentos. É um eu-lírico indissociável de seu estado psiquiátrico:


XXX

Falhas

o poema apodrece pela cabeça

e não fazer nada

embora inventassem quetros e pernazine

portanto o poema apodrece em nossas


mãos e aos nossos olhos

quando tudo nele

falha embora inventassem fluanxol

e zolafren engole este belo


comprimido revestido e encontrarás

um menino que fazia

poemas em meu e em teu nome e era

bom neste ofício apesar das falhas

(Ciało wiersza [O corpo do poema], 2021)


As dobras da poética de Tkaczyszyn-Dycki figuram entre o desterro, o corpo, as lembranças familiares associadas à mãe e a “terra prometida” simbolizada pela poesia – a poesia como seu lugar para além do seu local de nascimento. Um dos temas mais sensíveis de Tkaczyszyn-Dycki é justamente esse: o da poesia como lugar para quem vive na utopia (não-lugar):


XXIII

chegar numa cicatriz do corpo

é abrir-se ao pecado

que sem me vangloriar carrego em mim

desde nascença dizem até bem


bonito e vagamente escondido

coberto com qualquer coisa (diante

dos curiosos olhos e mãos

humanos) coberto também do vento


não sei quando última vez

me tinha confessado renunciando tudo

e escolhendo a poesia como um lugar na terra

um lugar na terra dado por Deus

(Dzieje rodzin polskich [História das famílias polonesas], 2005)


No aspecto formal, uma poesia marcada por três ou duas estrofes de quatro versos. Com rara e escassa pontuação, que torna, por vezes, o fragmentário ou as frases truncadas, mais um desafio para o leitor. Mesmo nessa forma curta, sua poética é cheia de expressividade, com flertes com a poesia neobarroca, em ritmo e sonoridade.


Em sua natural metapoética, o poeta se reconhece no contemporâneo, com linguagem própria: “com a dificuldade é que uso a língua (sou um poeta contemporâneo) [...]” (XIII). A consciência sobre seu fazer poético aparece em estado latente, sem qualquer compromisso por uma poesia em seu viés utilitarista, isto é, de uma poesia que serve para algo a priori: “pois foi dito e comprovado/que a poesia deve resistir/e sobretudo deve esquivar-se/à compreensão e à captação [...]” (XVI).


Por tudo isso, Eugeniusz Tkaczyszyn-Dycki demonstra como a poesia ainda pode ser “algo que nos sobreviva”.





 
 
 

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