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Um gole de café

Foto do escritor: {voz da literatura}
{voz da literatura}
há 14 minutos
3 min de leitura
{} Rafael Voigt
Editor da Voz da Literatura
Doutor em Literatura (UnB)


A fragrância matutina do café deixa mais vivo o meu amanhecer.

 

Café tomo apenas pela manhã. Troquei a xícara da tarde por uma de chá. De preferência, capim-santo. É a minha fragrância vespertina que não deixa meu dia morrer antes do anoitecer.

 

Das marcas de café mais comuns nos mercados, já experimentei quase todas. Ultimamente, prefiro um de torra forte, sem quase nada de açúcar. Pouco a pouco, sinto que avançarei para os chamados “gourmet”.

 

Alguns amigos trocaram o café brasileiro pelo colombiano. Outros que mantiveram o café nacional, mas preferem moer o grão em casa. E não duvido que logo algum amigo esteja plantando café, mesmo que seja dentro de um apartamento.

 

Lembro, na minha infância, como um flash da memória, um dia que meu pai, em sua Chevrolet Marajó, nos levou para visitar um tio seu, cearense como ele, em Sobradinho (DF). O delicioso cheiro do café da tarde daquele dia nunca mais deixou de habitar minhas narinas. Não sei por quê, outra lembrança associada a esse dia são músicas dos Beatles rolando no toca-fitas do carro.

 

Quem se sobrepôs a essas minhas memórias sobre o café, foi Jú Lopes de Almeida. Não porque ela tenha preparado um bom bule de café para mim. Teria sido adorável tomar um cafezinho em sua companhia. Com certeza, não faltariam perguntas e bons ouvidos para sorver todas as suas histórias de vida e de trajetória literária.

 

Júlia Lopes eleva à décima potência a sinestesia do café. Abra o livro A falência (1901). Já no primeiro capítulo surge, em sutilezas literárias, uma atmosfera sufocante de café:

 

“Toda a rua de São Bento, atravancada por veículos pesadões e estrepitosos, cheirava a café cru.”

 

“Ao cheiro do café misturava-se o do suor daqueles corpos agitados, cujo sangue se via palpitar nas veias entumescidas do pescoço e dos braços.”

 

“A não serem as africanas do café e uma ou outra italiana que se atrevia a sair de alguma fábrica de sacos com dúzias deles à cabeça, nenhuma outra mulher pisava aquelas pedras, só afeitas ao peso bruto.”

 

Impossível não ser enebriado por essa nuvem de café que recobre toda a cidade do Rio de Janeiro. O cheiro, a consistência, o peso, a cor do produto adentram nossos olhos, bocas, narinas e poros.

 

E é justamente isso que Júlia pretendia como efeito estético de recriação da realidade: o exagero. Havia um exagero na produção de café, para uma demanda interna e externa não correspondente a esses excessos. A especulação financeira estava em meio a isso, podendo provocar falências, com consequências para além das econômicas Viriam acompanhadas de reveses de ordem moral e familiar, como ilustrado pela escritora.

 

Esse café oferecido por Júlia extravasa minha xícara costumeira e não se restringe ao sabor afetivo. Vai muito além. Na cortina de fumaça formada pela poeira das sacas de café, revela uma perspectiva histórica e econômica do Brasil, desse país que continua o maior produtor de café do mundo até os dias de hoje.

 

Tomar um gole do café de Júlia Lopes de Almeida ultrapassa o tempo da narrativa e me alcança nas minhas xícaras matutinas, de quando, por brincadeira, minha caçula Júlia brinca de balançar a mesa e ri quando meu café escorre pelo tampo de vidro.

 
 
 

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