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Parque dos ipês

Foto do escritor: {voz da literatura}
{voz da literatura}
há 10 minutos
3 min de leitura
{} Rafael Voigt
Editor da Voz da Literatura
Doutor em Literatura (UnB)


 

Ao lado do viaduto entre a Rua do Jóquei rumo à Colônia Agrícola Águas Claras. Quem segue pela EPTG presencia, no início da primavera, a última florada alvirrosada dos ipês do canteiro central e do lado direito da pista alguns flamboyants com suas flores de um vermelho inalcançável pela paleta de qualquer pintor.  

 

Em período eleitoral, muitas propostas se misturam na paleta política. Aproveitando essa carreata de promessas para tornar nos próximos quatro anos um paraíso o Distrito Federal, proponho a criação do Parque dos Ipês, em área a ser avaliada pelos técnicos do nosso governo. Por enquanto, só temos homenagens aos ipês ou aos flamboyants em Condomínios, Edifícios, Towers, Business.

 

A ideia em si de um Parque dos Ipês não é das mais inovadoras, mas o DF carece de mais um parque público de preservação, contemplação e vivência do bioma Cerrado, com destaque para o ciclo e as florações do ipê. Não digo que o Parque Nacional (Água Mineral) já não seja uma boa experiência dentro do Cerrado, assim como o Jardim Botânico.

 

O Parque dos Ipês tem alguns irmãos pelo mundo. O Keukenhof, em Lisse (bem próximo de Amsterdam), com suas mil e uma espécie de tulipas. O Hitachi (Japão) com suas nemophilas azuis por ondulosas colinas. O Dubai Miracle Garden (Emirados Árabes): um imenso jardim no meio do deserto.

 

Exemplos brasileiros não podem ficar de fora. O Parque das Flores de Holambra (SP). E o Parque Amantikir (Campos do Jordao, SP), com dezenas de jardins temáticos.

 

O Parque dos Ipês seguiria essa linha. O carro-chefe: o ciclo de floração dos ipês. Acompanhado, é claro, da rica flora do Cerrado. Flamboyant não é originalmente daqui. Foi transplantado da Ilha de Madagascar. Só sei que se aclimatou muito bem à realidade brasiliense e mereceria um lugar de destaque no nosso futuro Parque.

 

Esse conjunto botânico estimularia o sentimento plantado em um dos versos de Caetano: “Mas da próxima vez que eu for a Brasília/Trago uma flor do cerrado pra você”. Na retina e nas mãos do poeta, dos visitantes e dos turistas de todas as partes do mundo, uma muda de canela-de-ema, a flor da lobeira, sempre-vivas, chuveirinho, rosa-do-cerrado, flor-do-pequi.

 

Conheço quem seria uma das primeiras visitantes desse grande jardim da flora do Centro-Oeste: minha mãe. 

 

Vinda de Santa Catarina para Brasília no início dos anos 1980, trouxe consigo o gosto de cultivar jardins e hortas. Nas casas em que moramos, na QNL (anos 80 e 90) ou na QSB (nos anos seguintes), um canteiro percorria a casa de fora a fora. Não podiam e não podem faltar vasos - inúmeros e de todos os tamanhos - com plantas e flores diversas.

 

Vida afora, jardim adentro, convivi com muitas espécies. Orquídeas e mais orquídeas. Espadas de São Jorge. Rosas. Margaridas. Antúrios. Bromélias. Camélias. Hortênsias. Malvas. Violetas. Damas-da-noite. E um bom pé de laranja-lima para nos dar sombra e servir de ninho a alguma andorinha. Nos períodos de seca do planalto central, aguar as plantas ao final do dia significa uma sobrevida para a flora e para nós. Deixa suspenso um cheiro de natureza no ar.

 

No jardim da vovó, Laura e Júlia, de vez em quando, brincam de arrancar uma ou outra pétala das flores, para uma sopa imaginária ou para outra brincadeira qualquer. No Parque dos Ipês, as crianças brincariam com a natureza, colheriam flores e sairiam de lá com maior consciência ambiental. Quem sabe nessa experiência, pelos jardins baixos e suspensos, alamedas, bosques, poderiam ser afixados versos de poetas pelas trilhas do parque, como o verso de Nicolas Behr: “Brasília é cercada de cerrado por todos os lados”.

 

 
 
 

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