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Gamão

Foto do escritor: {voz da literatura}
{voz da literatura}
há 10 minutos
3 min de leitura
{} Rafael Voigt
Editor da Voz da Literatura
Doutor em Literatura (UnB)


 

Tapete de atividades gasto. Rasgado em algumas dobraduras. De um lado uma cidade, pistas e lugares comuns a todo centro urbano (hospital, delegacia, escola). De outro, animais da floresta. Ambos os lados só chamam atenção de crianças até dois anos. Depois disso, não. Fica sendo apenas um tapete, para acolchoar o chão.

 

Entre o sofá e a televisão pendurada na parede, na sala de estar. Lá estendemos o tapete para Laura e Júlia. Por cima, elementos começam a se dispersar. Laura se envolve com um jogo da velha chamado “Ligue 4”. Júlia pouco entende do jogo. Apenas quer colocar as fichas sem ordem certa, o que tira Laura do sério. O jogo começa a azedar.

 

No calor de setembro, em meio ao El Niño, os ventiladores ajudam a refrescar um pouco a manhã de muito calor. Laila busca no quarto outras opções de jogo para Júlia. Na caixa, um conjunto composto por dama, xadrez, ludo e gamão.

 

O que menos chama atenção é o verso do tabuleiro do ludo. Cadeia de montanhas triangulares, ziguezagueando como uma estampa de roupa. O gamão fica esquecido. Laura prossegue para um jogo da memória do qual não me interesso tanto, mas que lhe faço companhia.

 

O gamão está em suas costas, meio amassado. O machadiano Tio Cosme não deixaria, em Dom Casmurro, um gamão sufocado e engolido pelo sofá. Fico com vontade de puxar o tabuleiro para perto de Laura, que poderia se interessar. Só que uma distância secular me impedia, por alguma razão.

 

Antes do gamão, as crianças de hoje se interessam pelos games e videogames. É uma vitória deixar que brinquem mais com baralhos de jogos da memória, construir castelo de pedras de dominó, ensaiar as primeiras jogas do xadrez e coroar uma rainha nas damas.

 

Charles Dickens embaralharia o whist. Jane Austin puxaria mais cartas, para um voltarete. Lewis Carroll preferia gamão. Gostava tanto, que criava variações para o jogo.

 

Rapidamente, fui tomar uma água na cozinha. Fui num pé e voltei noutro. Ao atravessar a porta da cozinha, quase desmaiei ao ver um homem sentado na cabeceira de minha mesa jantar. Estava compenetrado.

 

Preferi não falar nada, para não espantar Laura e Júlia que continuavam brincando. Fixei por mais um tempo meu olhar para ele. Quem me visse consideraria que eu estava de olho em um ponto fixo do horizonte, como algumas vezes nos ocorre, numa atitude pensativa.

 

Num piscar de olhos, a figura foi se desmaterializando pouco a pouco. Dei alguns passos, cheguei próximo de onde ele estava sentado, vi um livro aberto. E ao lado dele, magicamente estava o tabuleiro de gamão, o mesmo que tinha ficado espremido entre o sofá e o tapete de atividades.

 

Marquei com os dedos as páginas do livro, antes de fechar para ver a capa e o título: Alice no país das maravilhas. Sim, o exemplar que há muito me espreita da estante do escritório. Um volume adquirido por meu irmão Gabriel, que antes de partir para Lisboa, me encarregou de ser fiel depositário de seus livros.

 

O homem que aqui esteve sentado tinha um cabelo bem repartido da esquerda para a direita. Brilhante e liso, como se tivesse acabado de tomar banho ou passado uma brilhantina. De lado por sobre as orelhas, o cabelo crescia e se encaracolava, dando um certo volume lateral. Ele não me encarou e não me era nítida a sua tez. Mas a desconfiança ficou gravada dentro de mim…

 

Reabri o livro para as páginas em que estavam marcadas. Antes de ler, olhei para Júlia e Laura que estavam em seus mundos particulares:

 

“Continuou sentada, de olhos fechados, e meio que acreditou estar no País das Maravilhas, embora soubesse que bastava abrir os olhos para que tudo se transformasse  na realidade monótona...”

 

Percebi que Laura observava de seu canto a irmã, para quem poderia ser reservado o trecho que vinha logo em seguida no livro, com o perdão da licença e do contexto:

 

“Por fim, ela imaginou que esta mesma irmãzinha seria no futuro uma mulher adulta, que ela conservaria nos anos mais maduros o coração simples e amoroso da sua infância, que ela reuniria ao redor de si outras crianças, fazendo os olhinhos brilharem desejosos de mais uma história estranha, talvez até com o sonho do País das Maravilhas do passado, e que ela se compadeceria de suas tristezas simples e encontraria prazer em todas as suas alegrias simples, lembrando-se da sua própria infância e dos dias felizes de verão.”

 

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