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Revisteiros

Foto do escritor: {voz da literatura}
{voz da literatura}
há 7 horas
3 min de leitura
{} Rafael Voigt
Editor da Voz da Literatura
Doutor em Literatura (UnB)


 

Chego à clínica cardiológica no décimo segundo andar da torre B do Taguatinga Shopping. A recepção está tomada de pacientes. Cada qual com seu celular em mãos e o peso do seu mundo informacional em punhos. Ali, eu não era exceção, mas carregava comigo um exemplar de Viagem ao redor do meu quarto (Xavier de Maistre). Fiquei constrangido de ser uma exceção, embora furtivamente interrompesse a leitura para olhadelas no grupo do trabalho.

 

Pelo menos até a primeira década do atual milênio, os revisteiros faziam parte da decoração dos consultórios médicos, mesmo que fossem apenas alimentados por revistas de fofocas ou de novelas. Outros levavam mais a sério os revisteiros, acomodando neles as revistas semanais de grande circulação, materiais educativos e jornais.

 

Nesse quadro de escassez, sinto falta dos exemplares da revista Caras, para saber o que vestem e como vivem os famosos. Da Boa Forma, para algumas dicas sobre dieta e musculação. Da Quatro rodas, para entender o fenômeno dos carros chineses no Brasil. Porém, nos meus sonhos e viagem pelo túnel do tempo, vejo nos revisteiros de outros tempos: Manchete, Senhor, A Cigarra, O Cruzeiro, Fon-Fon!.

 

Hoje, os médicos e seus consultórios poupam alguns recursos sem precisar renovar assinaturas ou comprar exemplares nas bancas de revistas (se que ainda existem essas bancas). A senha do Wi-Fi grudada em alguma parede substituiu o revisteiro. Não vejo ninguém reclamando pelo revisteiro, mas experimente não disponibilizar de forma bem visível o acesso ao Wi-Fi. É um Deus nos acuda!

 

Há algum tempo mantenho a assinatura da Revista Pesquisa FAPESP. Um periódico de divulgação científica que me mantém bastante informado sobre notícias do meio científico que muitas vezes aparecem ao largo da grande mídia. Dando azo ao meu espírito enciclopédico de curioso, aproveitei uma superpromoção e assinei a Superinteressante este ano.

 

Tem sido terapêutico me desligar do celular em alguns horários do dia. Perceber que o mundo pode girar em outra voltagem me devolve ao lugar de equilíbrio entre o analógico e o digital. A mente agradece, os olhos se renovam, as mãos voltam a sentir o leve peso das folhas. Outra experiência tátil e sensorial.

 

Transmito à Laura e à Júlia a presença do impresso. Além dos livros de um clube de assinatura infantil, compramos livros e incentivamos suas incursões pela biblioteca da escola. Laila, embora não seja uma leitora voraz, participa e incentiva de todo esse processo.

 

Pais leitores, filhos leitores. Não quero cravar um determinismo nesse aforismo, mas tem mais chance de vingar do que perecer. Um empurrãozinho dos pais ou de alguém próximo ajuda bastante.

 

Em nossa árvore genealógica, podemos ascender um pouco. Vovô Tuíre e Vovó Ceiça são leitores. Vovô Raimundo e vovó Cili, idem. São leitores de literatura espírita em boa parte. Os livros sempre estiveram por perto, na estante e nos cômodos da casa, tanto para mim quanto para Laila.

 

Nossas filhas prosseguem convivendo com esse ambiente de livros e revistas pela casa. Me divirto quando Laura e Júlia saem pelo apartamento com um livro debaixo do braço, tirando o marcador de página do lugar e desafiando minha memória na retomada da leitura. Tocar os livros ou brincar com eles faz parte da nossa formação como leitores.

 

Não sei se Laura e Júlia sentirão a ausência de revisteiros nos consultórios que frequentarem pela vida. Talvez levem de casa um bom livro para o tempo de espera. Quem sabe, nos próximos anos, ocorra uma milagrosa conversão de vários setores da vida para os recursos analógicos e os revisteiros ressuscitem.

 

 
 
 

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