top of page

Um certo Paul de Kock

  • Foto do escritor: {voz da literatura}
    {voz da literatura}
  • há 6 dias
  • 2 min de leitura

{} Rafael Voigt
Editor da Voz da Literatura
Doutor em Literatura (UnB)


Roletas. Dinheiro. Cores. Números. Crupiês. Roletemburgo. Dívidas. Vício. Heranças. Jogo da vida mesclado ao jogo de interesses. São marcas do clássico romance O jogador (1867), de Dostoiévski.

 

Em meio à leitura de O jogador, encontro o narrador Aleksei Ivanovitch, em suas jogadas literárias, testemunhar em que contexto se desenvolve seu processo narrativo ou de escrita.

 

Como quem diz: “Em meio à derrocada financeira, a literatura pode ser uma tábua de salvação.”

 

As contradições desse narrador no campo da criação literária se aproxima de um certo Charles Paul de Kock (1793-1871), escritor francês que hoje ocupa os porões da história literária.

 

Ao tempo de Dostoiévski, contudo, o folhetinista Paul de Kock gozava de bastante popularidade, traduzido para outras línguas. A citação de Aleksei Ivanovtchi aparece no capítulo 13:

 

“(…) Algo me atrai novamente para o papel; além disso, às vezes, não há nada absolutamente a fazer de noite. Coisa estranha, para matar de algum modo o tempo, apanho na ordinária biblioteca local uns romances de Paul de Kock (em tradução alemã!), que eu quase não suporto; todavia leio-os e admiro-me de mim mesmo: é como se eu temesse destruir, com um livro ou ocupação séria, o encanto do passado próximo.(…)” [1]

 

Paul de Kock tornou-se um romancista muito popular em seu tempo, com folhetins publicados em jornais franceses. A crítica da época lhe escorraçava pelas imoralidades em seus romances. Até mesmo no Brasil, sua fama se propagou. Em 1834, o Jornal do Commercio (RJ), percursor do folhetim em terras tupiniquins, publicou Edmundo e sua prima.

 

A mim não me parece inocente ou acidental a menção de Paul de Kock no livro de Dostoiévski.

 

No mar de possibilidades interpretativas que um grande romance como O jogador nos oferece, a ligação inusitada entre Aleksei Ivanovitch e Paul de Kock força a leitura na direção do jogo e da economia literária, num cenário em que a literatura se torna negócio propício para investimento, lucro e aposta, com possibilidades de bom ganho financeiro.

 

A vida literária de Paul de Kock encontra paralelo com Ivanovitch. O personagem dostoievskiano, mesmo com moeda de pouco valor, se lançava à sorte no cassino e, algumas vezes, multiplicava seus ganhos, como na cena final, sugerindo um eterno retorno e um “loop” infinito do personagem no abismo do jogo de aposta. Kock com suas “moedas” (livros) de pouco valor para a história da literatura, transformou essas “moedas literárias” em mina de onde extraía o ouro do seu tempo, conquistando a atenção de seus leitores.

 

Ivanovitch e Kock: duas faces de duas moedas distintas.


NOTA

[1] DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Um jogador. Trad. Boris Schnaiderman. 4 ed.  São Paulo: Ed.34,  2019.


1 comentário


soniamarques51
há 6 dias

Que maravilha seu texto, Voigt que através do Jogador de Dostoiévski nos faz descobrir Paul de Kock. O jogador é uma figura sempre revisitada e atraente como em Zweig e em Perez Reverte.

Vou correr atrás de Kock, obrigada.

Curtir

© 2023 Revista Voz da Literatura

  • Youtube | Voz da Literatura
  • Facebook | Voz da Literatura
  • Instagram | Voz da Literatura
  • Twitter | Voz da Literatura
  • Linkedin | Voz da Literatura
  • Pinterest | Voz da Literatura
  • Spotify | Voz da Literatura
  • Soundcloud | Voz da Literatura
  • Apple Music | Voz da Literatura
bottom of page