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O jardim e a noite

Foto do escritor: {voz da literatura}
{voz da literatura}
13 de set.
2 min de leitura
{} Rafael Voigt
Editor da Voz da Literatura
Doutor em Literatura (UnB)


— Após a leitura, temos a sensação de que a releitura se mostra mais que necessária. Uma releitura pausada de cada verso, para apreensão dos sentidos possíveis do poema. — sorriu para a turma o professor.

 

 — Mesmo que eu leia mil vezes esse poema, não vou entender nada. Não vai adiantar. — emendou uma aluna.

 

 — Para que lê isso? Não seria melhor ler alguma coisa mais fácil de entender? — questionou o aluno da primeira carteira.

 

O professor, pacientemente, ouviu muitas outras indagações em tom de reclamação com a leitura. Dali por diante, a aula estaria travada pela indisposição dos alunos.

 

 —Micael, leia, por favor, a primeira estrofe do poema.

 

 —De novo, professor?

 

 —Sim, por gentileza.

 

Micael começou, contrariado, a releitura:

 

 — O jardim e a noite. Atravessei o jardim solitário e sem lua,/Correndo ao vento pelos caminhos fora,/Para tentar como outrora/ Unir a minha alma à tua,/Ó grande noite solitária e sonhadora.

 

 —Excelente entonação em sua leitura, Micael! Fiquei pensando como você se tornou o intérprete desse eu-lírico, que é essa voz criada pela poeta.

 

 —Como assim, professor? — Micael perguntou com cara de quem não estava entendendo aonde o professor queria chegar.

 

 — Você, Micael, reconstruiu com o som da sua voz a imagem constituída pela poeta: um jardim solitário, sem lua, você correndo ao vento…

 

 — Sim, professor. Só que continua estranho pra mim o significado disso tudo. — Micael voltou a refletir.

 

 —Micael, a linguagem literária, especialmente a de muitos poemas, multiplica sentidos, lança como em uma tela várias imagens, com ligações não muito evidentes na primeira leitura.

 

 —Como assim?

 

 —O poeta brinca com a linguagem. Experimenta suas possibilidades. Um jardim pode não ser apenas um jardim repleto de flores. No lugar das flores, podem ser plantadas palavras ou sepultados sonhos. A escuridão da noite pode representar estados da alma e não exatamente uma noite em que a lua não apareceu. Ao poeta, é dado segurar o silêncio nos braços, como um sonho ao estilo surrealista…

Micael e todos aqueles que prestavam atenção continuaram sem entender nada. Permaneceram em dúvida e pensativos sobre as razões do poema. Em algum lugar do tempo, Sophia de Mello Breyner Andresen estava em silêncio, em sonho, em sombra, numa noite escura.

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