Os animais humanos
{} Rafael Voigt
Editor da Voz da Literatura
Doutor em Literatura (UnB)
Que Tolstói cultivava uma considerável estima por animais não é uma surpresa.
Sempre que li o autor de Guerra e paz, vira e mexe aparecia um cachorrinho, um bichano ou, não raro, um cavalo. Seu conto “Kholstomier” dá vida -literalmente- a um velho cavalo castrado, de uma velhice “majestosa e repugnante”. Pela quinta parte do conto, ganha voz. Por algumas noites, em conversa com outros cavalos, Kholstomier desfila seus feitos e as peripécias de sua existência, sem esquecer do seu abandono e sua decadência.
Os animais domésticos, de passeio, de caça ou até mesmo os de guerra, servem, no meu modo de ver, como um elemento capaz de refletir traços da nossa humanidade (ou desumanidade).
Esopo é prova inconteste disso. Da fábula do “Lobo e do cão doméstico”, ressoa a moral de que tudo na vida tem seu preço. Em “O Lobo na pele de cordeiro”, a lei de ação e reação não perdoa a intenção malina do lobo disfarçado de cordeiro. Em “A raposa e o bode”, aparecem as consequências de atos impensados. E por aí vai.
Em todas as fábulas, os animais caracterizam-se por traços bem humanos.
Para arrastar um pouco esse assunto pelas paragens brasileiras, Machado de Assis, em crônica no para a Gazeta de Notícias (16/10/1892), põe um par de burros dialogando sobre a chegada dos bondes elétricos no Rio de Janeiro e qual destino estaria reservado a eles quando fossem substituídos pela novidade. Há consciência de classe, análise social e política da questão, além de uma boa dose de filosofia e humor.
Dos alfarrábios machadianos, posso esticar mais um pouco essa conversa. Em “Ideias do canário” (Gazeta de Notícias, 15/11/1895), um estudioso da ornitologia que atendia pelo nome de Macedo adentra o fantástico mundo de uma loja de “belchior” (alfarrabista), onde todo tipo de quinquilharia, velharia e antiguidades, tal qual um antiquário, brechó ou algo que o valha. Preso em uma gaiola, um canário com poderes de falar, não como um papagaio, mas de raciocinar e empreender um diálogo sobre várias questões existenciais. Aos ouvidos do ornitólogo, que o levou para casa para mais estudos e observações, a conversa do canário poderia modificar completamente muitas verdades científicas.
Olhando pelo lado de trás do espelho, em A metamorfose, de Kafka, há George Samsa que se transforma numa espécie de inseto monstruoso, sem perder a consciência de sua vida de caixeiro-viajante. Em A revolução dos bichos, de Orwell, os animais fazem uma revolução em uma fazenda, destituindo os humanos de seu poder e de sua propriedade. Porém, a revolução descamba para uma ditadura. Qualquer semelhança com a história humana, não é mera coincidência.
Que os animais conhecem os humanos e, de tanta convivência com eles, acabam se humanizando - alguma vez até mais que os humanos -, ninguém duvida. A literatura está aí para rugir essa verdade…




Comentários