TEATRO | Tabladiando


por Andreia Fernandes



{Maria Clara Machado na porta da frente do Tablado. Acervo de O Tablado}


O Teatro O Tablado comemora em outubro 67 anos de existência. Impossível negar sua importância para o teatro do Rio de Janeiro e do Brasil. Mas não venho aqui falar de importâncias. Venho, antes de mais nada, falar de desimportâncias. Coisas de tabladiana.


Maria Clara Machado é o denominador comum dessa longa trajetória. Vestida quase sempre de jeans e camiseta, com sua desimportância, escreveu para crianças quando o teatro era considerado arte para adulto. Mas suas peças infantis encantaram plateias de todas as idades. Seu Cavalinho Azul saiu do teatrinho da Lagoa e voou pelo mundo todo, deixando na imaginação de crianças de várias cores seu brilho azulado. Já o fantasminha Pluft aplacou medos de gente grande e de gente pequena.


No entanto, o Tablado vai além de Maria Clara. No teatrinho desimportante da Lagoa surgiram, entre Rubens Correa e Mateus Solano, vários atores, cenógrafos, figurinistas, iluminadores e críticos de teatro. Talvez porque no Tablado segue-se à risca a ideia de que a pessoa de teatro se faz no palco.


O palco é um lugar perigoso, onde o sagrado e o profano se confundem. Está-se sempre entre o dia e a noite, a verdade e a mentira, o certo e o errado. Entre sonhos, sombras e tumultos, tudo é mistério, duvidoso e possível. Há sempre algo de podre no ar.


Entretanto, é ali que o teatro se manifesta inteiro. Porque o teatro é a arte do encontro com o outro, com o público. Mas para que esse encontro em cena aconteça, é preciso deixar de lado vaidades e certezas. O que vale é o jogo, o olho no olho, o coletivo. Por isso, afirmo que o Brasil de hoje carece de teatro. Carece desse encontro entre plateia e artista. Desse momento breve e único, mas que pode gerar uma centelha capaz de iluminar o fundo das almas e virar a realidade de ponta a cabeça.


Foi por isso que, no palco do teatrinho da Lagoa, Maria Clara Machado criou sua escola de teatro, mesmo para aqueles que não pretendiam seguir essa carreira. Ela e sua equipe sempre acreditaram que exercitar o poder do coletivo, do olho no olho, é um caminho na direção de um país mais ético, onde a arte se torna instrumento de transformação da sociedade, uma vez que exige o esforço de desprender-se de si e ir de encontro ao outro. É lamentável que o Brasil seja um país cada vez mais esvaziado no ensino e na valorização da arte.



{Sombra do desfiladeiro. Rubens Correa e Germano Filho. 1956. Acervo de O Tablado}


Clara se foi, mas o espírito do Tablado permanece o mesmo. Há anos faço parte dessa equipe. Dou aulas para adolescentes no palco do teatrinho da Lagoa. No início do ano, rostos de todos os jeitos: tímidos e extrovertidos, mas todos ansiosos, com medo de pisar no palco. Medo da vida que se transforma rapidamente, das decisões a tomar. As aulas seguem, eles aprendem a conviver com o medo. Aprendem o jogo, o olho no olho, a disciplina. No fim do ano, uma peça. A pessoa de teatro se faz no palco.


No entanto, cada turma tem cerca de 25 a 30 adolescentes e a dramaturgia se mostra escassa para tantos atores. Resolvi escrever peças para eles, pois considero importante que cada um interprete um personagem, mesmo que seja um pequeno papel. É nesse momento que aprendem a entrega, a empatia, que descobrem o poder do coletivo. E eu tenho sempre a esperança de que possam sair do palco melhores do que entraram.


Minha experiência com os alunos me levou a me aventurar como autora de teatro. Escrevi e montei peças profissionais, mas minha paixão é a desimportância de escrever e montar uma peça com meus alunos no final de cada ano. Uma temporada que dura dois dias.



{Pluft. Claudia Abreu, Maria Clara Gueiros e José Lavigne. Foto Guga Melgar. 2013}


Foi assim que surgiu Paz sem rosto. Escrita a partir das angústias dos adolescentes frente a tanta desigualdade e violência no Brasil, foi montada no fim de 2015 e convidada a se apresentar num festival, na Alemanha.



{Cena de Paz sem rosto, Hellerau Theater, Dresden, Alemanha. 2015. Foto Peter Fiebig.}

Então, lá fui eu com 20 adolescentes para Dresden. Foram dias intensos. Avião, translado, ensaios, conversas, brincadeiras e o medo de encarar um público desconhecido, rigoroso. Na apresentação, emoção, superação e a exigente plateia aplaudindo de pé. No fim, o prêmio de melhor espetáculo do festival.


Continuo dando aulas. A cada ano, novos alunos, novas peças, novos desafios. Ensiná-los a magia do palco, o encontro com o personagem e com o outro, que em última instância, só é possível quando a pessoa se defronta consigo mesma.


Da plateia, entre nervosa e emocionada, eu vejo o amadurecimento daqueles jovens e o prazer de estarem inteiros diante de uma plateia que os escuta. Por um instante. Uma centelha, apenas. Desimportante. Depois, tudo se apaga.


{n. 3 | julho | 2018}


Andreia Fernandes, formada em Física pela PUC/RJ, é escritora, dramaturga, diretora e professora de teatro. Iniciou sua carreira no Tablado, com Maria Clara Machado. Foi indicada para o Prêmio Mambembe, pela autoria do infantil “Uma história de circo”. Escreveu e dirigiu vários espetáculos entre eles o musical “Noel, Feitiço da Vila”, sucesso tanto no Rio como em São Paulo. Recebeu um prêmio do RioArte com o musical sobre Ismael Silva. Sua última peça, “Paz sem rosto” foi convidada a participar do Festival “Kids on Stage”, em Dresden, Alemanha, em 2016 e recebeu o prêmio de melhor espetáculo. Venceu o Prêmio Saraiva de Literatura e Música de 2014, com o romance “Olhos de Cobra”, publicado pela Benvirá em 2015. Tem vários contos premiados: “A Borboleta azul”: 1º lugar do Concurso de Contos de Araçatuba, 2013. “Lonjuras”: 2º lugar do Prêmio Machado de Assis do SESC-DF, 2013. “A Moça do Rio”: 2º lugar no Concurso de Contos de Campos dos Goytacazes e “No Elevador”: 3º lugar no Concurso de Contos Cidade de Lins, 2014.

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