Raul Pompeia: "Durante a noite... (conto do Natal)"

Atualizado: 17 de Dez de 2020

Às vésperas do Natal de 2020, a revista {voz da literatura} publicará o e-book Natal brasileiro em prosa: 1854-1932, antologia que reúne 20 autores, entre eles: Raul Pompeia. A seguir, reproduzimos o capítulo desse e-book correspondente ao autor do romance O Ateneu (1888).

1883


Raul Pompeia (RJ,1863-1895) escreveu “Durante a noite... (conto do Natal)” para a Gazeta Literária (RJ), em sua edição de 24 de dezembro de 1883. Era um pequeno jornal literário quinzenal, para o qual colaboraram, entre outros, Machado de Assis, Capistrano de Abreu, Araripe Jr. Essa gazeta circulou entre os anos de 1883 e 1884. Em sua narrativa natalina, Pompeia experimenta mergulhar na perspectiva onírica do garoto Carlito, em suas expectativas, revelações, frustrações e alegrias com a noite de Natal.


Durante a noite...

(conto do Natal)


Não foi sem motivos que o bom Carlito não quis deitar-se, naquela noite.


As noites de Natal sempre lhe entraram pela imaginação como um punhado de horas fantásticas, em que os bons espíritos mansos e adoráveis dos céus baixavam lá daquela cúpula azul flutuante que as estrelas prendem como alfinetes de prata, baixavam a conversar, na terra, com os loiros pequeninos que têm a estatura e o semblante do Menino Jesus.


Contavam-lhe tão lindas coisas dos meninos do céu, as etéreas criancinhas aladas, que vão pelo espaço adiante, adiante, leves como plumas, leves como flocos finíssimos de nuvem...


Carlito quisera vê-los... tocar-lhes o corpo com o dedinho irreverente e curioso, apertar-lhes a planta polpuda e delicada dos pés; pedir-lhes, depois, aqueles brinquedos que eles dão pelo Natal aos bons companheiros da terra.


No ano passado, bem tentara esperar pelos anjos. E os anjos tinham vindo, e lhe haviam deposto à cabeceira um grande Polichinelo de robusta corcova e pontudo ventre, nariz adunco e afogueado, olhar embirrante e feroz, chapéu de bicos enorme, espalmado para cima, audaz, napoleônico!... Tinham vindo, e Carlito os perdera; sofrerá a mais vergonhosa derrota, batido pelo sono!


Os maiores desgostos da sua vida eram a esse inimigo que ele os devia... Naquela noite, porém, jurara vencer o demônio do sono!


Haviam-lhe dado, de presente, uma bela árvore de Natal muito verde, habitada por uma legião de fantasia que lhe fugiam por entre as ramas, como um enxame deslumbrante de passarinhos de ouro, ou desabrochavam nos galhos, como incomparáveis corimbos de maravilhosas flores.


Deviam ser assim os brinquedos distribuídos pelos noturnos mensageiros do Natal.


Os elefantes, pendurados aos galhos pelo lombo, os moinhos de vento, os pastores, balançando à brisa das janelas, os boizinhos, as estrelas de papel, os bonecos, os soldados, amarrados rolo penacho das barretinas, tudo aquilo parecia um mundo imaginário, a viver vida sui generis; no bosque suspenso. Além dos brinquedos, havia doces, presos por lacinhos de fita... Um paraíso!


Três amigos de Carlito, da mesma idade, ajudavam-no a fazer a corte à prodigiosa árvore.


Quando escureceu, trouxeram os pacotes de velas, as pequeninas velas de cera, de todas as cores, que deviam iluminar a árvore do Natal.


Carlito pediu que diminuíssem a luz do gás. A claridade do grande lustre da sala de jantar esmoreceu, e entrou na sala à meia sombra da belíssima noite de luar que reinava sobre os gramados do jardim. Esplêndido! Carlito supunha-se em plena floresta! Os armários, no escuro, apresentavam pontas bruscas e ângulos, que parodiavam asperezas de rocha; as trepadeiras que se agarravam ao peitoril das janelas parcial passar sob as vidraças e subir a enroscar-se nas volutas do estuque do teto. A luz amortecida do gás derramava-se, esbatia-se pela grande mesa de jantar, clareando o pano da coberta, como um crepúsculo estranho sobre a superfície sem reflexos de um lago fantástico.


Dentro desta rica paisagem, achava-se perfeitamente a árvore do Natal; dir-se-ia que as selvas rodeavam-na! Adornada pelas maravilhosas coisas que lhe brilhavam confusamente no escuro dos galhos, dominava, soberana, todas as exuberâncias de vegetação da floresta circunvizinha!...


Acenderam-se as velas...


Carlito foi à sala de visitas chamar gente, para admirar o efeito da árvore iluminada.


Voltou desapontado.


Ninguém quisera dar ouvido ao seu entusiasmo!


Depois de haver, por momentos, ruminado o seu despeito, o menino pôs-se a refletir...


Todos viviam, havia dias, preocupados em casa...


Era a doença da mamãe...


Ele, entretanto, que via a mamãe cada vez mais gorda, espantava-se com a súbita enfermidade... Também só ele.


A pobrezinha caíra de cama.


Carlito tinha ímpetos de chorar, mas não descobria tristeza nas preocupações da família e guardava as lágrimas...


Causava-lhe impressão, todavia, aquela lufa-lufa... Entra visita, sai visita, vem médico, vai médico... Ninguém lhe dizia mais: vá estudar o a b c, menino! Notava-se um abandono em todo a casa...


A doença da mamãe era o motivo daquela desorganização.


O menino não podia imitar a preocupação dos outros. As tentações arrastavam-no à folgança. Carlito pescava nas águas turvas. Finalmente, a árvore do Natal o absorvera inteiramente e banira-lhe de todo da cabecinha o efeito do sobressalto da casa.


Chegou a ponto de esquecer a enfermidade da mamãe...


O fiasco do seu entusiasmo viera recordar-lhe a realidade.


Refletiu. Em última conjetura era muito justo que ninguém fizesse caso da sua árvore iluminada... Mas Carlito ficou aborrecido.


Voltando à sala de jantar, não achou mais o encantamento que aí deixara. A luz das velas de cera desacreditava completamente a sua paisagem, desnudando a ilusão do escuro. Reapareciam as banais étagères, com as fruteiras estupidamente achatadas em cima; viam-se os disformes florões e as ramagens pardas do pano da mesa; um torpor irresistível parecia escorrer pelas cortinas, pendentes em bambolina da verga das portas; dos ângulos mais sombrios das portas; dos ângulos mais sombrios das paredes e de trás dos armários, projetavam-se, alongavam-se para fora dúbias figuras, que faziam medo na sala vazia...


Os companheiros de Carlito tinham ido brincar em outro lugar ou dormir talvez. A árvore do Natal, abandonada, parecia olhar pela chama das velinhas, como por muitos olhos injetados de sangue, arregalados, à procura dos meninos que os haviam feito brilhar. Parecia um espectro de olhos de fogo!


Carlito amedrontou-se.


Foi novamente à sala de visitas. Aí havia diversas senhoras cochichando: eram as tias, que tinham vindo para as festas do Natal, e uma vizinha, que frequentava assiduamente a casa; um homem alto, bem vestido conversava com o papai, no vão de uma janela, atirando de tempos a tempos olhares distraídos para o jardim. Era o doutor... Carlito achou aquilo tudo tão enfadonho, tão triste...


Perguntaram-lhe se ele não tinha sono...


O menino respondeu com um longo bocejo. Principiava a sentir, pesando-lhe sobre os olhos, toda aquela dormência que reinava em casa, na sombra dos armários, nas dobras das cortinas, que a brisa noturna fazia oscilar timidamente, na luz parada do gás, nos pingentes imóveis a caírem das arandelas como dragonas de cristal, naquele mortiço luar que, de espaço a espaço, junto das janelas, abria-se em alvíssimos tapetes pelo soalho...


Dois dedos de chumbo começavam, com insistência, a apertar-lhe as pálpebras. Eram os dedos do demônio do sono, que persegue os meninos.


Depois, fazia frio. Pelas janelas abertas penetravam lufadas gélidas, que vinham com o hálito mortífero dos fantasmas acocorados lá fora, sob o arvoredo negro, embrulhados em lençóis brancos, flutuantes!...


Carlito procurava, no céu, o bando risonho dos anjinhos do Natal... O céu deserto!... Apenas, as estrelas, veladas pela gaze de luar que lhes passava por baixo, cravavam todas sobre o menino aquele olhar trêmulo que ele não compreendia e que parecia ameaçá-lo como a luz das velas da árvore... Na terra, alternando com os perfis do negro arvoredo, via-se a lua, a forrar de neve os telhados e o chão, uma neve tenuíssima, fosforescente que transpirava exalações azuis...


Dentro em pouco, porém, começou a notar que vagas imagens se desenhavam sobre a tela do céu, destacavam-se, depois, descolavam-se, e vinham para ele, em cortejo, animadas!... Era o elefante da sua árvore, eram os mesmos pastores, eram os mesmos pássaros!...


Vinham todos para ele e vinham também os preciosos anjinhos, a turbamulta ruidosa e inquieta das crianças do céu. Estes enxotavam do espaço para a terra toda a legião de fantasias que ele deixara pendentes da frondosa ramagem da sua árvore.


Eram os anjos do Natal que desciam...


***************

Quando se extinguiu esta bela visão, Carlito verificou que adormecera e que o haviam carregado para o leito, sem que ele sentisse...


Era já dia. Brilhante claridade de sol açoitava as venezianas da alcova e vivos reflexos passavam por entre as tabuinhas, dispersavam-se pelo aposento, afugentando as últimas sombras.


Carlito não pôde resistir à luz; fechou os olhos.


Quando os abriu de novo, estavam diante dele muitas pessoas: as tias, que haviam chegado para o Natal, a vizinha que frequentava muito a casa, as criadas... Um rumor extraordinário de alegria debruçava-se-lhe sobre o leito. Carlito, atordoado, não percebia aquilo...


Oh! traziam-lhe a beijar o maninho que nascera durante a noite!


O menino pulou da cama. Cobriu de beijos a carinha pasmada que lhe apresentavam, quase invisível, no meio das faixas... Pobrezinho. Era o único que haviam agarrado, do bando de anjos que o visitara à noite. O único!


Tenra, fraquíssima, não pudera, pobre criaturinha do luar! fugir com os outros, quando chegara a violência da aurora!


E, por cúmulo de maldade, haviam-lhe em casa arrancado as pequeninas asas!


Como havia a mamãe consentido?!


Carlito bem quisera tomar-lhe contas; mas lembrava-se que ela estava doente...


Não podia culpá-la.


Também, agora, só restava ao anjo desgarrado a consolação do seu amor...


E Carlito avaliava já como não amaria o delicioso maninho que lhe viera do céu, durante a noite do Natal, exatamente como o presente do ano passado, lembram-se? o feroz Polichinelo de olhar embirrante e nariz adunco...


Dezembro. 1883.


Raul Pompeia.



- Natal brasileiro em prosa: 1854-1932. - Organização, notas e apresentação: Rafael Voigt Leandro.

- Edições Voz da Literatura, 2020.

- ISBN: 978-65-00-14098-9.

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