PROSA | Egonia: 9mm de prosa

Fernando Ramos | Editora Patuá | 2018 {romance}



SILÊNCIO

Sem escutar o praguejo do vento, ofertava ao mundo a cara descarada, alma lavada, riso transgressor de doces arpejos, amarelando os dentes dos que a invejavam por despeito. Não se entorpecia com joguetes, só usava torniquetes; não emulava algoz, só cantava em falsete. E por certo nunca foi tiete de quem não fosse à sua altura par, jorrava fúria serena de Arvo Part; ao mar, ao fim, ao surdo: lembrava um cometa a ponto de estourar a estratosfera terrestre. Nasceu, dizem, da cruza do cipreste de Hera com a concha de Hades e assim, meus confrades, tudo às avessas, nasce um milagre andrógino, um arcanjo selvagem, uma valente que ruge, tão sereno que ela arde. Sinto na pele da crença o sangue torpe das vespas vestidas em Roma, com referendo popular ao crucificar o Amor, Dioniso, Sodoma; digo ébrio na testa deste edifício, Jesus Cristo ressuscitou bilhões de vezes, nos ossos de tantos Josés, Marias, Franciscos, na carne negra, surrada e baleada; na carne amarela, napalmizada e desatomizada; na carne vermelha, degolada e estuprada; na carne da mulher, violentada e acorrentada. E o mar se abriu em raiva e se jogou contra a cidade, por engolir o esgoto de tanta crueldade, mas homens não são peixes, não haverá piedade. Quando o pai do mar, Oceano, enfim acordar, com sede e com fome, onde restarão os nomes, no abismo abissal redundantemente profundo do mar? E serão necessários mil vulcões, furacões, tsunamis, terremotos, pandemias, alergias, bombas, sementes estéreis desertificando o mundo, usando capas pretas e o logotipo da Monsanto? Inda não caiu a ficha? Nossos dias estão contados. Seremos auto aniquilados. A praga humana será exterminada por alienígenas glóbulos brancos. Quão tolos somos nós, nem entendemos que o Universo é um só corpo e nossas bactérias duram apenas uma febre terçã. Estamos no dia três. Aliás, já são onze e meia da noite. Façam as contas. Quanto custa para eu tomar banho, quanto vale esse copo de água, quanto pago para andar nessa rua, posso estacionar minha alma nessa vaga por apenas duas horas? O que será que aconteceu conosco, somos múmias, farrapos toscos; nós somos o mundo, não existem outros culpados. Mas que porra de beco sem saída é esse, ódio telurizou nos homens, só há uma grande empresa, um único caminho a seguir. A gentrificação dos seres, escárnio dos prazeres e dos sonhos; tudo que supomos, cai por terra num deslize diplomático fatal, uma dose de vodca a mais e o dono do botão explode o mundo. Não seria melhor agendar logo a data cabal, encerrar de vez e sem ressentimento esse mal entendido? Direto e reto. Abrupto ponto final? Se alguém souber de algo que deslegitime esse pandemônio, fale agora ou se cale para sempre. Silêncio. Sendo assim, eu vos declaro: ponto final. Carbono: pode beijar o Caos.


{voz da literatura: n. 2 | junho | 2018}



Fernando Ramos é escritor, cineasta, artista plástico e compositor.

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