Programa Conecta Biblioteca


por Andrea Rangel


O último levantamento da pesquisa “Retratos da leitura” aponta que 66% dos brasileiros simplesmente não frequentam bibliotecas. Levando em conta esse cenário, o programa Conecta Biblioteca, iniciativa da Recode e da Caravan Studios, visa transformar a biblioteca em pólo de transformação social, atribuindo novos significados a um equipamento cultural tão democrático quanto subversivo, já que também é um espaço de profusão de ideias. O piloto do programa teve início em 2015, quando 50 bibliotecas de todo o país foram contempladas em uma convocatória. O desafio dos profissionais seria, com o suporte de 10 computadores cedidos pelo programa, desenvolver um projeto que relacionasse alguma questão social a uma solução tecnológica, com foco no público jovem. Projetos envolvendo capacitações para o mercado de trabalho, cursos de informática e até mesmo grafite foram desenvolvidos, aproximando assim a biblioteca do ideal de um espaço polifônico, destinado também à convivência e produção de conhecimento.


Em 2017, foi lançado oficialmente o programa Conecta Biblioteca, depois do aprendizado de uma primeira etapa. Após um ano de construção de proposta com a Fundação Bill&Melinda Gates, abrimos uma seleção para 92 bibliotecas. Com exceção do Macapá e Tocantins, todos os estados foram contemplados, o que representou uma vitória para a equipe, já que há regiões do Brasil que são isoladas devido a fatores ligados, sobretudo, à infraestrutura. Essas bibliotecas ficam de fora da rede, o que é muito prejudicial, já que ficam à margem do processo de ressignificação iniciado por muitas bibliotecas do país.


O Conecta Biblioteca atua em três eixos de formação, que foram desenvolvidos através de trilhas formativas que conduzem o participante até o fechamento do ciclo, pontuado pela realização de uma programação de atividades alinhada aos ODS 4 e 8 da agenda 2030 da ONU. Através de um encontro presencial, de reuniões online e tutoria a distância, profissionais de biblioteca são capacitados em tópicos como pesquisa da comunidade, articulação de parcerias, gestão participativa e estratégias de comunicação.


Não se pode pensar em uma programação sem antes, por exemplo, identificar os desejos e necessidades locais. De que adianta ministrar oficinas sobre grandes pensadores da filosofia alemã em uma comunidade de agricultores, ávidas por conhecimento ligados ao manejo de terra (sim, uma biblioteca do programa oferece uma programação com foco em práticas agrícolas!)? Já tive que consolar profissionais de bibliotecas frustrados diante da ausência de público em determinadas atividades, desenvolvidas com muito esmero e divulgadas massivamente.


É preciso ser pragmático e, principalmente, estar atento à voz da comunidade. Quem sabe, em um segundo momento do processo de ressignificação, não poderíamos novamente recorrer aos filósofos alemães? Mas é hora de quebrar paradigmas (por mais batida que seja essa expressão), impactando indicadores ligados à educação e desemprego. E por meio da gestão participativa, envolver a comunidade em decisões ligadas à gestão do espaço, uma prática bastante comum em bibliotecas comunitárias.



As 92 bibliotecas do Conecta Biblioteca estão desenvolvendo suas programações. E já registram 32% de aumento no número de usuários em um ano de programa – a meta é de 60%. O caminho é longo, mas com o apoio e participação da comunidade, as bibliotecas ganharão novamente destaque, reassumindo com plenitude o seu papel de pólo de desenvolvimento local.


Para apoiar o potencial das bibliotecas também como pólos locais de empoderamento digital da comunidade – especialmente entre os jovens – o próximo passo da Recode é o convite à adesão de outras centenas de bibliotecas públicas e comunitárias ao Movimento Recode. O desafio comum será formar uma nova geração que possa fazer um uso ético, consciente e cidadão da tecnologia para ampliar suas oportunidades de desenvolvimento pessoal e profissional.


{n. 5 | setembro | 2018}


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ANDREA RANGEL é jornalista formada pela PUC-RJ. Trabalhou na TV Brasil, Canal Futura e Jornal O Globo. Durante quatro temporadas produziu o programa Globo Ciência. Atua como Especialista de Relacionamento na ONG Recode, responsável pelo Programa Conecta Biblioteca. É autora do romance Parasito (2018, Imã Editorial).


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