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Por um novo direito à leitura

  • Foto do escritor: {voz da literatura}
    {voz da literatura}
  • há 22 horas
  • 3 min de leitura

Durante dez anos, entre 2010 e 2020, me dediquei a um trabalho de assistência social desenvolvido pelo centro espírita que frequento.  A atividade ocorre no espaço cedido por uma escola pública em Samambaia (DF), nas tardes de sábado.

 

Lidava com crianças de diferentes idades, de religiões diversas - com predominância de evangélicos -, de formação educacionais e configurações familiares distintas. Por longo período, estive ao lado de crianças e jovens na faixa de 8 a 12 anos.

 

No convívio semanal, conhecíamos melhor os arranjos familiares e as histórias de vida. Havia predominância de crianças com pais e mães ausentes, por conta da drogadição ou da criminalidade. Não era incomum conhecer crianças com pais presos, por exemplo. 

 

Como não poderia deixar de ser, muitas das atividades que desenvolvi estavam relacionadas, de uma forma ou de outra, à leitura de livros infantojuvenis (entre eles, títulos da literatura espírita), mesclada com atividades lúdicas e de habilidade manuais e pequenas encenações teatrais coletivas.

 

Uma das constatações dessa rica experiência está ligada à baixa adesão das crianças e dos jovens ao hábito da leitura.

 

Uma coisa era certa. A escola por si só não se mostrava capaz de sensibilizar esse público para a leitura. Um dado bem concreto dessa realidade era fácil de observar: não havia a cultura do livro e da leitura dentro da própria família. Aliás, não havia ambiente viável de leitura diante de tantas vulnerabilidades da vida dentro e fora de casa.

 

Em dada ocasião, perguntei a um menino de dez anos, um dos poucos que demonstrava gosto pela leitura:

 

-G., você tem livros para ler em casa?

-Não. Tem os livros da escola.

-Além dos livros didáticos, não tem nenhum livro lá?

-Só a Bíblia, professor.

 

Desde então, volta e meia, fico meditando a respeito da ausência dos livros nas casas dos mais vulneráveis socialmente, da ausência de uma cultura da leitura em suas vidas, da negação ao direito à leitura que atravessa gerações e não é reparado a curto prazo.

 

Leitura pode significar emancipação, liberdade e consciência. E também fruição estética.

 

Leitura permite um olhar não apenas para os textos escritos, mas os diversos textos que circulam socialmente em discursos praticados em diferentes contextos, sujeitos sociais e modalidades (escrita, oral, multimídia, multissemiótica), para se chegar, como previsto na BNCC, a um grau de leitura crítica para apreensão e valoração estética, ética, política, ideológica.

 

O Política Nacional de Leitura e Escrita existe. O Plano Nacional do Livro e Leitura existe. E o direito à leitura, existe de verdade?

 

Penso no direito à leitura como um direito transmitido de geração a geração, sem falha, sem interrupção, sem omissão. Um direito que nos acompanha desde o nascimento e o qual legaremos aos que hão de vir. Um direito emancipatório não se constrói da noite para o dia, nem mesmo sem atribuição de valor social e como parte de uma forte tradição histórico-cultural. É acima de tudo uma das dimensões da nacionalidade e da construção civilizatória que temos escolhido. Direito imbricado no direito à educação.

 

Em suma, a leitura não é simplesmente uma prática social ordinária. Leitura, em uma visada ampla, é um bom índice das transformações e dos avanços sociais de um país.

 

Quem sabe, ainda nesta vida, possa eu travar outros tantos diálogos com crianças e jovens e perceber a presença da leitura e dos livros em suas vidas, como um índice da emancipação social pela leitura e educação. 

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