POESIA | Alexandre Pilati

Atualizado: 17 de Ago de 2018



Autofonia | Alexandre Pilati | Ed. Penalux | 2017



No meio do caminho


That monster, custom, who all sense doth eat

Hamlet


minha cidade, encaro outra vez em delírio,

louco e velho príncipe, tua carranca; para ti arrasto

estes quarenta anos e tento encantar-te debalde.


balbucio em tuas tesourinhas um protesto errado

ou o nome mãe. (minha mãe bonita morreu triste

entre teus corredores de engolir estrelas e passarinhos).


minha cidade, envelheci e vejo tuas curvas rijas

que já não são de utopia, que são agora as curvas

de um boxer que duro canta uma ária de Turandot.


eu sangro enquanto choras asfalto, cal e carros

e te desejo monumental, tortamente Diadorim –

macho na chuva, fêmea nas manhãs: ninguém durma!


estou velho no sertão, na maloca, estou velho

na rosácea estéril da pequena burguesia, num circo

cheio de pústulas e dívidas, de nódulos e de relatórios.


pouca luz vem, minha cidade, de teus entardeceres,

e apalpo-me às dezenove horas de Brasília: reconheço

rugas; não tenho mais a mesma idade de David Beckham.


te aceito como um pederasta, te aceito como um comunista,

te aceito como Charles Chaplin, te aceito como uma super

bactéria, como um surto, um golpe de cotovelo: te aceito.


nas feiras de falsidades, vendi as quinquilharias de

meus sonhos, entreguei os vinténs dos meus sorrisos e

o dinheiro comeu aquele cavalo que me levava de ti através.


encaixei-me em teus eixos, caixeiro incurioso que sou;

de lasso papel que sou, aceito o verão que oprime,

anseio a seca que sempre derroga as águas do Paranoá.


mas ainda há algumas garças e trabalhos de Oscar, ainda

há a paixão de Lúcio no crucifixo; mas ainda há

um chope com Chico e Nicola à espera no Beirute.


então, não te mando embora pois sei mais de mim

sei amar mais, sei beijar melhor, sei melhor

reconhecer os companheiros que ao meu lado brigam.


entre hábitos, fantasmas e demônios, escrevo ainda

nesta vereda cerrada da vida, escrevo-te ainda, minha

cidade, para dar veias de verdade ao meu descontrole;

e te juro: não deixarei o monstro me devorar os sentidos.



Alexandre Pilati é poeta e professor de literatura brasileira na Universidade de Brasília (UnB). Entre outras obras, é autor de A nação drummondiana (7Letras, 2009), e outros nem tanto assim (7Letras, 2015) e Poesia na sala de aula (Pontes, 2017).


{n. 3 | julho | 2018}


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