O livro do deslembramento

Resenha de O livro do deslembramento, de Ondjaki. Editora Caminho (Portugal), 2020.


por Cristina Gemmino


"às vezes aqui quando te dizem uma coisa, é mais fácil só acreditar, duvidar dá muito trabalho e ainda traz discussões que não levam a lado nenhum [...]"


Pois é. Decidi acreditar em tudo aquilo que está contido nas 229 páginas do último romance do escritor angolano Ondjaki.


O livro do deslembramento (Caminho, 2020) é um hino à liberdade. O romance desenrola-se no período histórico onde, em Angola, depois do acordo de bicesse, houve as primeiras eleições democráticas e o armistício temporário na guerra civil. Uma "pausa" que deixou a liberdade para que hoje, daquelas lembranças de outrora, germinassem coisas belas. Coisas que fazem barulho num coração de águas da beira-mar e de piscina, de andorinhas, de chinelos pela areia de uma ilha perto de Luanda, de caixinhas de chocolate ...


"mas a lembrança é assim uma coisa que já aconteceu e que volta

volta na nossa cabeça, com força, fica lá, traz mesmo sons e cheiros [...]".


Quantas vezes, lendo e abrindo as páginas desse livro à toa, me identifiquei naquelas estórias e fui convidada a viajar e investigar as lembranças da minha de infância. Até senti o cheiro das três cafeteiras preparadas para as minhas tias naquela madrugada de final de agosto na casa dos meus pais, depois de uma noite passada todos juntos inventando camas espalhadas até nos corredores da casa. O vínculo da lembrança à de uns rostos femininos é inevitável. Tal como o escritor fez, evocando a imagem de todas as mulheres que rodearam a infância dele: as figuras femininas são as que mais se prestam a narrar ou recontar. Talvez porque tenham mais do que contar, ou porque – quando o menino passa mal de noite – "quem fica a noite toda sem dormir?" é sempre ela, "a mulher; uma mulher, todas as mulheres". As que (re)contam estórias para acalmar a alma, o ânimo ou a barriguinha do pequenino.


É um livro feito de resquícios puros e inocentes colados pelas paredes falantes de uma Luanda de antigamente.


Deslembro ... Desvio ...


"A vida é um emaranhado de nós". Pelas ruelas de Lisboa, uma vez, debaixo de um pequeno arco lá ao lado da fonte luminosa, li um cartaz que dizia assim. Esse emaranhado compõe a moldura perfeita desse romance onde o Nduduma, o Doutor Gasparinho, o tio Chico, a tia Rosa, a Tchi junto com a Yala, a avó Agnette, o Senhor Osório, o Lobo e a Onça (e muitos outros) nos entregam pinceladas de uma Luanda em estado de antigamente. Onde o medo que cresce por dentro e se instala nos pequenos espaços, pode ser minimizado ao ser compartilhado.


São páginas, portanto, de partilha de tardes onde o tempo nunca passa depressa, mas está em estado de intervalo.


"saudade só; de pura [...]"


Nunca é tarde para ouvir o barulho que faz o nosso coração ao ler esses recortes da infância de um escritor que, desde criança, nasceu com o dom da palavra. Uma palavra pequenina, ingênua. Uma palavra minúscula, como as letras dessa carta em formato de romance, que esconde a grandiosidade das Estórias que bagunçam a infância de cada um de nós.


CRISTINA GEMMINO, mestre em Traduzione e Letterature Interculturale pela Università degli Studi Roma Tre (2014), é doutoranda no Centro de Estudos Internacionais do Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE – IUL), dedicando-se aos estudos africanos, particularmente à literatura angolana e moçambicana.


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