Ignez Sabino: "Mimo de Natal"

Faltam poucos dias para o lançamento do nosso e-book Natal brasileiro em prosa: 1854-1932, antologia que reúne 20 autores, entre eles: Ignez Sabino. A seguir, publicamos na íntegra o capítulo com seu conto "Mimo de Natal".

1892


A escritora Ignez Sabino (BA, 1853 - RJ, 1911) contribuiu regularmente com o periódico A família (RJ, 1888-1898). Foi nessa publicação que começou a divulgar textos que viriam a compor sua obra Mulheres ilustres do Brasil (1899). Em 30 de janeiro de 1892, publicou o conto “Mimo de Natal” a respeito de um presente que um casal de noivos recebe de forma inesperada na véspera do Natal.


Mimo de Natal


(ao professor Augusto Amazonas)


É a véspera do tradicional dia. As brisas tépidas de formosas tardes do norte ondulam brandamente os cortinados leves de um quartinho esteirado, claro, alumiado por uma grande janela rasgada sobre o jardim, perfumado por arbustos floridos e inúmeros craveiros brancos que erguem ao ar as hastes pejadas de flores.


Toda inundada em luz já sem calor, ainda que provocante, os reflexos multicores do sol que se espalham nos vidros, vinham estender-se sobre as lanternas que ornavam uma cômoda de jacarandá e um espelho oval que lhe ficava fronteiro.


Sobre o móvel acima, coberto por uma rica toalha de crivo, está armado um presepe de folhas de pitangueira, tendo ao fundo uma vista de cidade oriental, fazendo lembrar Belém, no arremedo das casas com cúpulas à guisa de mesquitas, outras estreitas e esguias, acolá, templos, mais ao longe, muros, ruas estreitas, e algumas palmeiras a cuja sombra senta-se o beduíno de barba negra, albornoz, o cachimbo ao queixo, enquanto o paciente camelo, em passiva obediência, aguarda o momento de marchar através dos inóspitos desertos e areais.


Num berço dourado e bonito acha-se deitada a imagem do Deus menino, corado, risonho, gordinho, com negros e expressivos olhos, cabelos crespos e louros, respirando tranquila beatitude, com os braços erguidos e as mãozinhas papudas e curvas, na grácil atitude da criança que brinca, já esperta, festejando a quem se lhe aproxime, sacudindo as pernas, que ele na sua imobilidade de madeira, tem-nas estendidas, tocando com os pés o véu o voo de salpicos d’ouro, que, à guisa de lençol, cobre-lhe o gentil corpinho.


***


Um silêncio morno aí reina, enquanto que em festa acha-se a casa toda, nessa lida que se nota no dia de qualquer acontecimento fora do comum.


Junto à sala de visitas, num gabinete bem preparado, duas moças ocupam-se em acabar de vestir uma noiva.


Toda de branco, sob as ondulações do voo nupcial, Alexina, de pé junto ao peitoril da janela, fitava o horizonte que avistava-se dali, enquanto que as duas companheiras punham sobre o rosto o último toque de pó de arroz.


A noiva, ao apelo das duas amigas, voltou e dirigiu-se à sala de visitas onde a aguardavam para partir os convidados e amigos.


Ouviu-se o rodar das carruagens, depois mais nada, senão o falatório da criadagem, dando os últimos reparos a uma mesa luxuosa, fazendo comentários sobre o assunto do dia.


***

Com efeito, aquela que partira tinha tido os seus primeiros anos bem cheios de pesares, vendo-se até àquele dia sujeita ao pão do trabalho.


Quanta vez, ao lembrar-se do passado, ela via o pai, vindo da repartição, cansado, mas feliz, sentar-se junto a si, ao piano, ensinando-lhe a lição que devia dar no dia seguinte; depois, ir deitar-se no sofá, lendo os jornais do dia, na tranquilidade do homem que vive contente com a pobreza honesta, sem outra ambição mais do que podia gozar conforme os meios parcos que, sem dívidas, chegavam para passar sem arrelias. Uma vez, porém, a moléstia entrou-lhe em casa, entrevando-lhe a esposa, aumentando as despesas, obrigando-o a endividar-se, ele que, a custo de muito sacrifício, havia comprado ultimamente uma casinha que, alugada, aumentava as rendas parcas dos seus honorários mensais.


Por fim, já desanimado, hipotecou o prédio a um velho amigo, sob a condição de resgatá-lo dentro de três anos. Mas o prazo fatal se aproximava, ele sentou-se doente e morre-lhe em seguida a esposa, cujo passamento produziu-lhe tão choque que o prostrou também.


Sobre o leito mortuário, Alexina via o cadáver daquele ente querido, e nada mais, do que a pobreza fria e crua.


Abrigada ao teto de uma parente materna, pagou as dívidas que pode com os móveis que ficaram. Triste partilha: — horroroso dividendo.


Não sendo bem acolhida, trabalhava para vestir-se, restando apenas o consolo de uma amiga de infância, filha do homem a quem seu pai fizera a hipoteca. Maus dias continuaram a sobrevir, quando, amando e sendo amada, a amiga paterna quis e obteve que de sua casa ela saísse para a igreja, e de lá voltasse amparada por um moço, cujo patrimônio era a honradez e um bom emprego.


— Meu pai, murmurou a jovem ao progenitor dos seus dias, quero fazer um benefício, quero por ele dar uma prova de amizade e de dedicação a Alexina.


— Em que sentido?


— Restituindo-lhe a hipoteca que vence-se por esses dias.


— Mas não vai casar?


— Que importa? O que vale a mim um prédio de mais?

O velho negociante olhou para a filha estupefato.

Nas feições dela a alma resplendia em toda a sua pureza, a caridade orvalhava de prantos o olhar; a boca, num sorriso de anjo, traduzia mais do que a palavra mesmo poderia proferir.


***

Passados dias, na véspera de Natal, no maior dia de Alexina, a amiga abraçava-a como uma louca, numa alegria sem nome. Pela manhã o comendador Tourinho entregara a Emma a doação do prédio hipotecado, passada em nome dela em proveito da noiva. E era por isso que ela a abraçava e estava tão contente, porque, cabendo-lhe a missão de ir arrumar a casinha da futura esposa, na mesa onde se achavam os presentes de núpcias, ela colocou o papel pautado, selado e rubricado por conhecido tabelião.


Depois do jantar servido em casa do negociante, os noivos foram para a sua residência, onde, surpresos, viram o estranho presente, que só os sentimentos educados de Emma davam, no desprendimento de uma boa ação, e exemplo mais tocante do pouco que lhe valia uma importância monetária.


— Ainda existem amigos, exclamou Alexina emocionada, fitando o rapaz.


— Sim, respondeu o marido, são bem raros, é exato, mas ainda os há, e estes deve-se-os guardar como joia de preço inestimável.


— Felizmente, para a nossa pervertida sociedade, respondeu ela colocando o papel no primitivo lugar, e pondo a mão no ombro do marido, que enlaçou-a pela cintura.


Os dois, num amplexo de amor, viram o futuro descortinar-lhe a poética fase da lua.


Ignez Sabino


- Natal brasileiro em prosa: 1854-1932 [e-book]

- Organização, notas e apresentação: Rafael Voigt Leandro.

- Edições Voz da Literatura, 2020.

- ISBN: 978-65-00-14098-9.

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