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Gol de letras

Foto do escritor: {voz da literatura}
{voz da literatura}
há 12 minutos
3 min de leitura
{} Rafael Voigt
Editor da Voz da Literatura
Doutor em Literatura (UnB)


 

Desde 1996, quando despontava a domesticação da internet entre nós, leio notícias no portal Universo Online. Naquele ano, o garoto Rafael devia ler notícias futebolísticas.

 

Na semana que passou, lá estou eu em mais uma visita a o UOL e paro em uma matéria sobre o jogador de futebol Gustavo Scarpa. Nada sobre alguma façanha futebolística no Atlético Mineiro. E, sim, sobre seus hábitos de leitura de clássicos da literatura.

 

Há uns trinta anos, o Globo Esporte produziu uma reportagem sobre o ex-zagueiro Ronaldão, que na época jogava no São Paulo. Para mim, era um tanto inusual, mas pra lá de interessante, saber que um jogador de futebol adorava, em suas horas vagas, se desligar do mundo da bola e pegar William Shakespeare para ler.

 

Se há mais mistérios entre o céu a terra, mais do que sonha nossa vã filosofia, só Hamlet para dizer. O certo é que a tabelinha entre futebol e literatura pode ser vista em diferentes ângulos e de vários lados da arquibancada. E não tem tantos mistérios assim.

 

Do lado da torcida adversária, Lima Barreto criticava o futebol. Engrossava o coro de vaias para esse esporte que era alienante, um empréstimo cultura dos ingleses, além de estar imerso em questões políticas, inclusive associadas à eugenia e ao racismo nos times de futebol. A birra era tanta que Lima chegou a criar a Liga Brasileira contra o futebol.

 

Pena que Lima Barreto não viveu o bastante para alcançar os tempos do “futbet”, em que não há mais futebol sem o empurrãozinho dos milhões investidos pelas casas de apostas bets.

 

Não sei se Scarpa e Ronaldão são leitores do autor de Triste fim de Policarpo Quaresma. Talvez sejam, mas não se preocuparam muito com essas críticas démodés sobre suas profissões. Afinal, os tempos são outros e o futebol não foi abolido do Brasil por Lima Barreto.

 

Do outro lado do estádio, em uma cabine de transmissão, Nelson Rodrigues veste o uniforme de cronista passional do futebol. Refletia que “o intelectual brasileiro que ignora o futebol é um alienado de babar na gravata”. Ao lado disso, dizia que “a mais sórdida pelada é de uma complexidade shakespeariana”. (1)

 

Exageros à parte, há lançamentos de longa distância entre literatura e futebol. Não digo apenas do futebol comercial.

 

De shakespeariano, no palco da vida, me chama mais atenção o futebol da minha Laura (7) junto com seus primos Gael (6) e Samuel (8) na quadra do nosso prédio. Laura tem chute forte e certeiro. Gael conhece tudo de dribles. Samuel se inspira em goleiro Dibu Martínez (Argentina), para produzir defesas milagrosas. Assim como a dominical pelada da Laurinha com o vovô Raimundo no quintal da casa dos avós. Podem acreditar: um futebol mais divertido e dramático que um jogo de Copa do Mundo. Gols imaginários, traves inexistentes, chutes sem direção certa, caneladas, sem tempo cronometrado, com muitos gols e risadas.

 

Fico na torcida para que essa criançada se inspire nos craques do futebol que enxergam o mundo pelas lentes da literatura e não como uma simples bola. Não é mesmo, Scarpa? Concorda, Ronaldão?

 

No cenário da vida real, Lima Barreto proporia uma Liga do Futebol como Brincadeira de Criança. Não faltaria matéria para as crônicas futebolísticas de Nelson Rodrigues.


Nota

RODRIGUES, Nelson. À sombra das chuteiras imortais: crônicas de futebol. Seleção e notas: Ruy Castro. São Paulo: Cia. das Letras, 1993.

 
 
 

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