Galho torto

por Aleksandro N. da Costa*


Um palmo de tecido e a menina faz uma saia. Teu avô, caduco que era, um dia até ofereceu mais pano pra ela cobrir direito as pernas: Se você se abrigar nos meus joelhos, minha filha, prometo um metro de chita pra você fazer uma roupinha mais comprida. Descarado, o velho. E ela não fica atrás, ficava era na frente, de deboche, se exibindo aqui e além. Três dedos acima, e a polpa da bunda dava as caras. Sabia que não era boa bisca, várias vezes repeti que má influência é igual cobreiro. Formiga, arde, se não cuidar abraça a gente de ponta a ponta. É a morte, o fracasso de qualquer reputação. Os pais dela, coitados, um coro contínuo de machos no portão e nem desconfiam da rede de arrasto que é a filha. O dia inteiro, às vezes tarde da noite, bicicletas, motos, carros e cavalos, tudo viçando; eis essa brecha de janela que não me deixa mentir. Daqui se vê tudo, olha lá, não para de coçar o celular. Com quem será que fala, é contigo, Isabella? O messias guarde o que resta da tua honra e te afaste de vez das más companhias.


Por um tempo, achei que teu pai, fiel de conveniência, gênio apodrecido, tinha sido minha última grande decepção. Quem imaginava que um homem consagrado fosse se avariar assim? Caiu bonito no laço do inimigo, quero ver arredar esse espinho da carne agora. Será que ele também se enxeriu pro lado da catraia aí da frente? Acho bem possível, porque quem rouba do crente é capaz de toda imundície. Eu, comigo mesma, calculei que depois dessa ninguém me enganaria outra vez. Essa criatura, por exemplo, decifrei num estalo, proibi inclusive de andar aqui, mas tu, sem embargo, continuaste de irmandade com ela. Deu no que deu: um tormento extra pra minha lista de desgostos.


No começo do ano, na feira, quando a vizinha cochichou em meu ouvido que a gente precisava orar por ti, por conta das tuas amizades e partilhas nas redes sociais, dei de ombros. Nem fiz questão de saber o que de tão inquietante provocou esse fuxico de arraia. Das amizades ruins, eu sabia e cansei de alertar; quanto a vigiar na internet não previ necessidade. Aí vieram as fofocas, notícias tuas em festas seculares, altas horas, e sempre na companhia da oferecida. Também não dei crédito, porque o povo, como ouvi várias vezes da tua boca, adora uma crônica. Quem se fiou numa ficção fui eu. E viveria assim por tempo vago, não tivesse reparado em teu retiro mês passado, no fluxo irregular de modess na lixeira. Ah, Isabella, se eu não compreendesse tuas dores, câimbras e espasmos; se por distração demorasse mais cinco minutos pra te levar ao hospital, a gente estaria agora, as duas, num campo-santo: você tesa, de pés juntos, e eu de joelhos pela tua alma. Até hoje não fiz sequer um comentário, embora me importe saber quem foi o criminoso que te arranjou aquilo.


Diz que quem sai aos seus não degenera. Pois a prova desse rifão está sentadinha no meu sofá. Também com o pai que Deus deu! Abotoa esse decote. Uma carreira inteira de botões fora da casa, e a menina nem liga. Se ajeita, que é daqui a pouco, melhor se apressar; garra o maço de chaves na banqueta e me acompanha.


Pois se não havia de ser na tua amiga esse alvoroço, hilaridade sem-fim, mais parece um cabaré. Essa vizinhança já foi melhor, hoje está uma ruína. A gente sai de casa, tarde clara, e a devassidão salta à vista logo na porta. Feche bem a nossa, dois giros. Não precisa acenar pra ela, vamos, caminhando, que o sol não chega lá com a gente. E olha pro chão! Em calçada infestada, não se afronta o horizonte, sabia não? Pois aprenda. Acabou de chafurdar na lama e agora quer enfiar o pé na merda de cachorro. Conselho de mãe não faltou, sempre tive um verseto eleito pra qualquer emergência na ponta da língua. Me ouvisse e a saída seria cautelar, não clandestina.


Presta atenção: quando chegar tua vez, primeiro te apresenta, claro, e dana-te a falar de arrependimento, diz que passou por um momento de confusão e que esse isolamento serviu pra renovar e fortalecer tua fé. Esquece a verdade, nem sempre ela é útil. Nossa intenção é teu livramento. Explica a história do hospital, diz que foi uma semana terrível, de grave infecção urinária, mas compensadora porque proveu de reflexão sobre vontade divina e correção de rota. Realça o sofrimento, foi ele que te trouxe ideias potáveis, de rejeição aos excessos do mundo. Dissimular é contigo, não é? Então pareça um vaso que se quer moldar. Entramos por aqui, pelas laterais mesmo, fica mais pertinho do púlpito. Sento na primeira fileira pra te apoiar. Apesar de consentirem tempo vasto pras revelações, não vá se demorar. Que o todo-poderoso releve, mas se um dia sonhasse com esse desgosto, Isabella, tinha talqualmente gorado teu nascimento. Em vez disso fiz o quê? Abençoei teu nome. Glorifica meu sacrifício, hoje ao menos, e não arruma mais pra minha cabeça. Mereço um pouco de paz. Combinei com o ministro que tua fala seguiria a dele. Em cima da hora, ele já vai acabar o sermão, sobe, é tua vez de enriquecer o rito, espera só ele te apresentar.


— Boa noite a todos. Não vou tomar muito tempo de vocês. Meu nome é Isabella, por chacota do destino, dos Anjos Reis. Vinte e quatro anos, dezoito deles vividos sob a severidade da igreja e o rigor materno. Venho hoje confessar meus anos de afastamento, que chegam a seis esses dias. Mesmo tempo de cadeia do meu pai, preso por desviar o dízimo da galera, como geral aqui está sabendo. Nesse período de ausência, experimentei muitas possibilidades, todas que o mundo apontou, nem mais nem menos. Fui a festas que nem um de vocês aprovaria; por descrença, várias vezes maldisse a Providência; caloteei o quanto pude a confiança da minha mãe e não só uma vez pulei janela, muro e todas as noites de carnaval. Usei saias que pareciam tiras de pano, ninguém se importou, pelo contrário. Nem meu avô, morto há dois anos e único que me via sair nessas ocasiões, se continha. Em troca de silêncio, só pedia pra roçar as mãos nas minhas coxas. Com a ajuda da vizinha que virou cúmplice, fiz muitos amigos, parceiros de planos e noitadas. Namorei meses com alguns, com outros, passei horas encobertas. Caí no vício e na gandaia, e como bebi! Não quero um véu falso cobrindo minha história, irmãos, como também não pretendo continuar nesta assembleia. Tampouco me arrependo de ter resolvido meu embaraço da forma como fiz no último mês. Por causa da escolha desesperada, enfrentei semana e meia de internação — apesar de tudo, valeu pelos cuidados, mãe. Em agradecimento por isso, vou falar quem me vendeu a pílula que botou a senhora tão aflita. Foi um sujeito que conhece como poucos seus tempos de juventude. Lembra dele, Dona Odete, do Finório? Soube coisas de cair o queixo sobre a senhora. E escutem, eu nunca imaginei que por trás de tanta retidão existisse tanto galho torto! O testemunho não está indo como você riscou, não é, mãe? Calma, antes de dar à sola, espere pra ver a reação dos presentes quando contar a eles seu apelido oitentista: Odete Fetal, senhoras e senhores! Imaginem quantos ela tirou pra ficar conhecida assim... Ainda cedo, usando um dito popular e se excluindo cinicamente da nossa laia, ela insinuou que saí a meu pai. Mas deixei claro nesta resenha que meu caráter está bem equilibrado entre as partes, não acham? Senão vejam: sou neta do falecido Pedro Ninfa, filha do difamado Pastor Lapim e mundana como um dia foi D. Odete, essa senhora fingida que ora às pressas se retira.


Aleksandro da Costa é cearense de Itapipoca. Desde o início da década de 1990 vive em São Paulo, onde passou a escrever. É publicitário de formação, especializou-se em Língua Portuguesa e Literatura e é revisor de textos por acidente; um acaso que continua dando certo. Participou de algumas antologias, publicando contos em sites e revistas por aqui e além. Nas horas livres, gosta de ler e de não fazer nada vendo TV; às vezes desenha.


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