ENTREVISTA | Ricardo Adolfo



A {voz da literatura} entrevista o escritor português RICARDO ADOLFO, autor do romance Maria dos Canos Serrados, lançado em março deste ano pela editora Dublinense.

Nessa conversa, Ricardo revela aspectos do processo de composição do romance e de seus trabalhos voltados para o cinema e a televisão.

Como nasceu sua vontade de ser escritor?

Mais do que uma vontade foi uma necessidade de contar histórias, de questionar a linguagem. Uma necessidade de poder criar problemas e descobrir as suas respostas. Uma necessidade de levar o texto até ruas novas.


Maria dos Canos Serrados é seu primeiro romance publicado no Brasil, lançado em março deste ano pela editora Dublinense. Já é possível sentir como tem sido a recepção do público brasileiro?

As reações que têm sido partilhadas e publicadas têm sido todas entusiastas. Se calhar tímidas no volume, mas algo que me parece comum quando se fala de um primeiro livro de um escritor que se estreia com leitores novos.



Maria dos Canos Serrados | Ricardo Adolfo | Dublinense | 2018 | 218 p.


Maria dos Canos Serrados apresenta uma realidade pouco conhecida dos subúrbios e dos arredores de Lisboa, especialmente para o público brasileiro. Você viveu em ambientes semelhantes? Como nasceu o romance? É fruto de alguma pesquisa?

Eu cresci nos arrabaldes de Lisboa numa época em que o dia-a-dia não era fácil. Os subúrbios eram, e muitos ainda são, povoados pela classe trabalhadora de Lisboa, retornados e emigrantes.


Com quase tudo a funcionar contra nós, era fantástico como acreditávamos sempre que um dia iria ser melhor. Uma negação essencial da evidência que quando transportada para o texto enriquece-o com drama.


O início do romance foi delineado com o desejo de escrever uma personagem desbocada na forma de ser, que desse voz à crise que Portugal sofreu e por último fosse um palco para uma série de encontros memoráveis que tive nos arredores de Lisboa e nos arredores do legal em Amesterdão.


Uma das características que salta aos olhos do leitor de Maria dos Canos Serrados é a fragmentação da história em capítulos curtos, sem numeração. O gênero romanesco praticado aproxima-se de uma forma epistolar, mas que na contemporaneidade poderia se vincular a algo telegráfico, telefônico, ou das mensagens instantâneas de celular (telemóvel). Por que essa escolha?

Maria dos Canos Serrados teve muitas maneiras de se expressar até chegar à que foi impressa. O formato final foi o que deixou o texto ser mais instintivo com espaço para fugir para locais onde ele não deveria ir.


Aliada a essa fragmentação, há o uso de uma linguagem forte, com várias gírias e palavrões. Isso, evidentemente, reforça a construção do lugar de fala e o perfil dos personagens do romance. Quais os desafios de trabalhar com essa linguagem?

O meu trabalho tem quase sempre um desafio de linguagem inerente ao texto. Neste caso, em que a ambição era deixar a personagem principal expressar-se sem condicionantes, os maiores desafios foram não deixar que se tornasse gratuita e em que cada curva menos correcta do texto não fosse um truque colorido, mas sim mais um elemento essencial à narrativa.


Maria é a protagonista da história e mantém como interlocutor, na maior parte do tempo, um certo “Velhinho”, pelo qual nutre uma paixão pouco usual e bastante perturbadora. Velhinho é de Angola. Trabalha como garoto de programa ou gigolô. O espaço ocupado pelos africanos em Portugal constitui um ponto crucial do debate levantado pelo romance? (Por quê?)

Num local onde vivem pessoas que parecem diferentes, o medo da diferença está sempre presente e manifesta-se de diversas formas. Para ser fiel à realidade dos subúrbios de Lisboa o racismo não poderia ficar mudo numa história que se queria desbocada.


Ainda em relação a “Velhinho”, parece que ele serve como contraponto para a discussão sobre as discrepâncias entre o universo masculino e o feminino. Maria faz algumas reflexões sobre o lugar da mulher dentro da sociedade dominada pelo homem. O feminismo é uma das bandeiras levantadas pelo romance?

A nova forma de ser no feminino implica também uma nova maneira de existir no masculino também. Não foi minha intenção levantar uma bandeira pelo feminismo mas alimentar uma discussão essencial dos nossos dias.


A empresa onde Maria trabalha chama-se Tempus, o que imprime uma metáfora viva sobre o ditado popular “tempo é dinheiro”. A crise pela qual a empresa passa representa as crises cíclicas do modelo econômico capitalista. Há pouco anos, Portugal, assim como outros países da Europa, foi vítima de um período de forte crise e recessão econômica. Nesse contexto, Maria se vê motivada a tomar parte na luta dos trabalhadores por meio de greves e da resistência. Esse cenário construído pelo romance espelha, realmente, fatos recentes da história portuguesa?

Sim, como já mencionado noutra resposta, a crise e os seus protagonistas foram chamados ao palco. A situação peculiar em que a Maria se encontra no local de trabalho é resultado de pesquisa feita sobre a forma como algumas empresas decidiram enfrentar a crise optando por vias até então impensáveis.


Em meio ao movimento grevista, Maria se conscientiza de como estava sendo explorada. Em parte, é daí que seu desejo de vingança vai se avolumando para reverter tal injustiça social. Sua relação com o clube de tiros dirigido por Nandos promove uma confluência entre os vários núcleos da narrativa. A “Baikal de canos serrados”, a luta armada, a violência, são soluções para os desmazelos e as incongruências de um mundo como o nosso, como o de Maria...?

Espero que não. Não partilho a crença pela luta armada. No caso de Maria dos Canos Serrados a intenção foi inserir na narrativa um enquadramento mais pulp/noir que gerasse tensão com lado neo realista, de forma a não ficar refém de nenhum lugar comum.


Ricardo, alguma leitura lhe motivou a escrever Maria dos Canos Serrados? Há outros romances ou autores que influenciaram o processo de criação?

Enquanto escrevo são muitos os escritores que vou lendo para me distrair ou para absorver inconscientemente outras vozes. Lembro-me de ler na altura Cornell Woolrich, Reinaldo Moraes ou Diniz Machado.


Qual sua relação com a literatura em língua portuguesa dos países africanos e do Brasil?

Sou um grande fã de tudo o que se escreve em língua portuguesa em todos as páginas do mundo. Só tenho pena que a divulgação e o intercâmbio seja tão tímido.


Atualmente você vive em Tóquio. Conhece a literatura japonesa? Quais são os autores que recomendaria para o público?

Ainda estou a adoptar a minha família no Japão. Ando de volta de Shuji Terayama, Sakunosuke Oda, Osamu Dazai ou Ango Sakaguchi. Escritores que deambularam pela vidinha de Tóquio ou Osaka e se dedicaram às franjas do texto.


Está escrevendo um novo romance? Quais são seus projetos literários atuais?

A escrever estou sempre, mas um novo romance só existe depois de impresso. Até lá é só uma ilusão.


Além da literatura, você se dedica ao cinema. O longa-metragem São Jorge (2016) recebeu importantes prêmios, como o do Festival de Cinema de Veneza. Como sua relação com o cinema alimenta seu fazer literário? Pensa em levar Maria dos Canos Serrados para as telas?

Sem planear, comecei a escrever cada vez mais para cinema e televisão. Em Outubro estreia em Portugal uma nova série de oito episódios chamada “Sara”, realizada por Marco Martins.

Escrever para dar vida a imagens é um desafio muito diferente e aliciante, mas rescrever os meus romances não faz parte das minhas ambições. Cada leitor merece o espaço mental para imaginar a sua própria Maria. { }



Outros romances de Ricardo Adolfo lançados apenas em Portugal:


{} Depois de morrer aconteceram-me muitas coisas

Alfaguara

2009

200 p.


















{} Mizé - antes galdéria do que normal e remediada

Alfaguara

2010

336 p.

















{n. 5 | setembro | 2018}


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