Um artista mineiro {crônica de Arthur Azevedo}
- {voz da literatura}
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{} A crônica “Um artista mineiro” apresenta uma faceta pouco explorada da bibliografia de Arthur Azevedo. Sua figura bastante vinculada ao teatro, especialmente ao gênero comédia e ao teatro de revista, ofusca em parte sua verve de cronista e de jornalista, com contribuições em diversos periódicos e com abordagem de ampla gama de temáticas.
Na crônica que ora publicamos, em edição crítica, realça-se a viagem do cronista à região de São João del-Rei, em Minas Gerais. Sabe-se, inclusive, que, pouco tempo depois da inauguração de Belo Horizonte (1897), Arthur Azevedo visitou a capital mineira, entre 2 e 12 de novembro de 1901. Logo em seguida, produziu a série de crônicas “Um passeio por Minas”, publicada no jornal O Paiz. Em linhagem semelhante, pode-se incluir a crônica “Um artista mineiro”, recolhida da revista Kosmos, de fevereiro de 1904. {}
UM ARTISTA MINEIRO

QUEM vai a Minas, e visita a suas velhas igrejas e as suas casas velhas, é continuamente surpreendido pelas manifestações da arte indígena, que não poderia, em que pesasse à estreiteza do meio, deixar de expandir-se naquela terra maravilhosa de cor e de luz.
Que de vocações perdidas, de talentos ignorados, de geniais anônimos na misteriosa plêiade que tem como o seu mais ilustre representante, iluminado pela crítica moderna, aquele inverossímil Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, artista sem dedos, poeta imortal da pedra azul!
O obsequioso sacristão do Carmo, em São João del-Rei, não quis que eu deixasse de ver os ex-votos que em profusão se encontram pendurados numa dependência lateral daquela igreja.
Antigamente ninguém escapava de qualquer enfermidade ou perigo a não ser por obra e graça do santo ou santa de sua particular devoção, ao qual - ou á qual - fazia uma promessa, - e o primeiro cuidado do devoto, passada a crise, era mandar pintar um pequeno quadro comemorativo, e colocá-lo na Igreja onde se venerava o santo ou santa que o atendera.
Esse costume persiste ainda hoje mas não tanto como no tempo em que havia, se não mais[1] crença, ao menos mais credulidade.
A coleção dos ex-votos do Carmo e curiosíssima, e entre todos, os do século XVIII me pareceram os mais interessantes.
Um destes, por exemplo, representa um moleque agasalhado na cama, e Nossa Senhora aparecendo sobre uma nuvem.
Esse ex-voto tem o seguinte letreiro, que copio sem lhe alterar a gramática:
-Mce, q. fez N. Sr.a: do Carmo a Ilias criouto escravo de Bartolomea de Sousa Soares q. estando mto. mal já deixado de Serugioniz (sic) recorreu a May de Ds. logo se achou Milhor. 1763 ans.[2]
Fica a gente na dúvida se o que moveu a Dona Bartholomea foi a piedade ou o interesse pecuniário: o moleque valia um bom par de cruzados.
Essas pinturas são todas de uma ingenuidade teratológica, - alguma coisa que lembra ao mesmo tempo as iluminuras dos manuscritos persas do século XVI e os calungas dos anúncios que a Municipalidade complacente deixa escandalizarem o bom gosto nas ruas desta capital.
Dir-se-ia que esses ex-votos, pintados em épocas diversas, com distância de muitos anos, e até de um século, uns dos outros, saíram todos do mesmo pincel: têm o mesmo desenho, o mesmo colorido, o mesmo estilo, a mesma intuição de arte. Raro é aquele que não faz sorrir; alguns são mais divertido que a melhor caricatura de Léandre.
Saibam, porém, que, percorrendo atentamente, e com espírito sacrílego, os ex-votos do Carmo, caíram-me os olhos surpresos sobre um, que se distinguia singularmente de todos os outros pela incontestável habilidade do artista.
O quadro tinha a seguinte explicação que transcrevo jpsis-verbis:
“Merce, que fes a Virgem S. S. N. Sa. do Monte do Carmo, por sua infenita Mizericordia, e piedade, ao Barão de Entre Rios, que achando-se dezenganado por quatro Medicos, que o acistião, em huã grave enfermidade, e declarada huã grangrena, apegandos com a mesma Sa. de Coração, emmediatamente recobrou o uso de rezão, e adquirio melhoras, e depois a saude acontecido em julho de 1855.”
Representa o ex-voto um homem doente, na cama, com um lenço amarrado na cabeça, os olhos cerrados, a fisionomia dolorida. Por trás do leito, uma senhora muito triste aponta para o enfermo, a cuja cabeceira outra senhora, sentada, tem cara de que já não conta que ele se restabeleça. Do outro lado quatro médicos discutem o caso, e um deles mostrando um estojo aberto, parece propor aos colegas uma intervenção cirúrgica. A alguns dos leitores parecerá, talvez, que ele oferece charutos, o que seria o cúmulo da extravagância. Por cima desses médicos, numa auréola formada por nuvens, aparece Nossa Senhora do Carmo com o Menino Jesus ao colo e dois escapulários na mão.

Pensei comigo que provavelmente esse ex-voto fora pintado por algum artista estrangeiro que os acasos da vida levassem a São João del-Rei, artista irônico e pince sans rire, que pusera certa malícia em fazer aquele contra-anúncio a quatro doutores da terra; conversando, porém, com o Sr. Modesto Paiva, distinto sanjoanense, poeta e cavalheiro, de quem trouxe a mais agradável impressão, este disse-me que o ex-voto do barão de Entre-Rios era obra de um artista mineiro, falecido há muitos anos, o capitão Venâncio José do Espirito Santo[3]. Capitão, entende-se, porque, na província, nem mesmo os artistas escapam à guarda-nacional.
Esclarecido por essa informação, voltei a examinar a pintura com outros olhos, e me convenci então de que era sinceridade o que me parecera malícia. O ex-voto é ingênuo como todos os outros, com a diferença, porém, de ter sido pintado por um home que nasceu artista, que não teve mestres, e que seria - quem sabe? - uma notabilidade, se não tivesse nascido no interior do Brasil.
Obtida a necessária licença, mandei fotografar o quadro, que o Kósmos reproduz, com muita pena de não poder reproduzir igualmente o colorido, que é, talvez, o que há nele de mais apreciável. O original pintado À cola, apresenta, a alguma distância, o gracioso aspecto de uma água-tinta de Debucourt ou Jaminet.
Venâncio, que nasceu em 1783, era filho, não de São João del-Rei, mas de uma localidade próxima. Foi para ali criança, ali cresceu, ali se fez homem e adquiriu grande fama, não como pintor de quadros, mas como encarnador de imagens, profissão em que se mostrou exímio, e que lhe dava fartamente para viver numa terra de tantos oratórios, e tão guarnecidos, que, pode-se dizer, as casas particulares são ali outros tantos prolongamentos das igrejas.

Só pintava por desfastio e durante os lazeres que lhe deixavam as imagens. Foi assim pintou, para o saguão da Santa Casa da Misericórdia, o retrato, idealizado com muita inteligência, de Francisco Moreira da Rocha, que durante cinquenta anos foi irmão pedinte daquele pio estabelecimento, e é um dos tipos mais populares na tradição da cidade. Não há em São João del-Rei quem não conheça a história do "irmão Moreira", que reviveu na palheta do capitão Venâncio.
Tive ocasião de apreciar outros vários trabalhos do artista mineiro, principalmente em casa de seu filho, o Sr. Sebastião José do Espírito-Santo, que me forneceu alguns apontamentos para esta ligeira notícia, e me emprestou o retrato acima reproduzido.
Oito filhos deixou Venâncio quando faleceu, aos 86 anos, em 1879. Só existem dois.
O Sr. Sebastião do Espírito-Santo não abraçou a profissão paterna; é um modesto alfaiate, homem simples e virtuoso, chefe de numerosa família.
O velho Venâncio não trabalhou durante os últimos onze anos da sua longa existência por ter sido atacado de uma enfermidade que infelizmente lhe inutilizou o cérebro.
O seu último trabalho, e o mais importante, dizem, é uma Ceia de Cristo, que pintou para a igreja matriz de São José do Rio Preto, onde ainda se acha, e é muito gabada por todos; não a vi: nada posso dizer.
Sobre o ex-voto da igreja do Carmo acrescentarei as seguintes informações: a senhora que está sentada à cabeceira do barão de Entre-Rios é, naturalmente, a baronesa; os médicos são os Drs. Guilherme Lee, Cassiano Bernardo de Noronha Gonzaga, e os dois irmãos José Policarpo e Francisco de Oliveira, isto é, os facultativos mais acreditados que em 1855 havia em S. João del-Rei.
É de crer que nenhum dos quatro, e com especialidade o Dr. Lee, que era inglês e protestante, gostasse que o barão atribuísse a Nossa Senhora do Carmo o ter ficado bom, e ainda por cima os mandasse retratar daquele modo...
Todos quantos figuram no quadro são falecidos, à exceção de Cristo que, como é sabido, ressuscitou.
Arthur Azevedo.
Da Academia Brasileira.
Notas
[1] Pequena mutilação no original.
[2] Para conservar o efeito de estilo, mantivemos na presente edição a mesma ortografia utilizada no original.
[3] Venâncio José do Espírito Santo (São João del-Rei, MG, 1783-1879), pintor.
Fonte
KÓSMOS [RJ, 1904-1909]. Ano 1904, Edição 002, p. 28-30. Disponível na Hemeroteca Digital Brasileira, Fundação Biblioteca Nacional.

Projeto Memorial da Literatura. Revista Voz da Literatura. Abril de 2026. Notas, transcrição e revisão: Rafael Voigt Leandro.




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