ENTREVISTA | Cilza Bignotto e sua pesquisa sobre o editor Monteiro Lobato




A {voz da literatura} conversou com Cilza Carla Bignotto, professora de Teoria Literária e Literatura Brasileira da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), que acaba de lançar o livro Figuras de autor, figuras de editor: as práticas editorias de Monteiro Lobato, em que divulga extensa pesquisa a respeito da faceta de editor do autor de Urupês.

Figuras de autor, figuras de editor: as práticas editoriais de Monteiro Lobato, livro recém-lançado pela Editora Unesp, é uma versão revisada de sua tese de doutorado defendida em 2007 na Unicamp. Como chegou a esse objeto de pesquisa?

Quando eu fazia mestrado, por volta de 1997, comecei a ler várias biografias de Monteiro Lobato. Eu estava tentando entender a história das edições de seus livros para adultos e para crianças, porque meu projeto de pesquisa previa a comparação entre alguns contos dele que são protagonizados por crianças e narrativas do Sítio do Picapau Amarelo. Comecei a perceber que, em biografias, artigos, textos diversos sobre história do livro no Brasil, Monteiro Lobato era apresentado como editor revolucionário. Os documentos citados para fundamentar essa afirmação, porém, eram sempre poucos e sempre os mesmos: um contrato firmado com Lima Barreto, cartas de Lobato ao amigo Godofredo Rangel, entrevistas de Lobato, realizadas na década de 1940, em que ele mesmo se definia como editor revolucionário. A ideia de investigar mais a fundo, por meio de outros documentos, o papel de Lobato na história da indústria livreira nacional começou a se desenhar naquela época, com a percepção desse problema relativo às fontes usadas em textos sobre o tema.



Figuras de autor, figuras de editor - as práticas editoriais de Monteiro Lobato | Cilza Carla Bignotto | Editora Unesp | 2018


Na primeira parte do livro Figuras de autor, figuras de editor, você reconstrói a história da imprensa e da edição de livros no Brasil no século 19, desde a chegada da família imperial ao Brasil, em 1808, e inclui figuras de editores importantes como Paula Brito e Garnier. Por que esse recuo no tempo ajuda a compreender o perfil do editor Monteiro Lobato?

Na verdade, eu começo até antes, analisando práticas de autoria e de publicação nos séculos XVII e XVIII, quando a imprensa não era permitida do Brasil. Para investigar se Monteiro Lobato foi realmente revolucionário, eu precisava entender se as práticas editoriais dele eram, de fato, completamente novas. Não havia, ainda, um estudo diacrônico que permitisse saber, por exemplo, se a ideia de usar uma rede de letrados para divulgar livros, como fez Lobato, era revolucionária. Não era; pelo contrário, há registros muito antigos de homens de letras usando redes de intelectuais conhecidos em diferentes pontos do país para promover, apresentar, vender livros e revistas. Outro ponto importante era o pagamento de direitos autorais. Em vários textos sobre Lobato, afirma-se, de modo um pouco exagerado, que ele foi o primeiro a pagar direitos a autores. Não é verdade; no século XIX, antes de existirem leis regulando a propriedade intelectual no país, editores como Garnier pagavam direitos a autores de obras literárias, didáticas, jurídicas etc. Paula Brito lançou autores estreantes, como Machado de Assis; ou seja, a noção de que apenas Lobato fez isso é questionável, para dizer o mínimo. O estudo diacrônico de práticas de autoria e de edição me permitiu analisar com mais rigor e precisão quais práticas editoriais Monteiro Lobato inovou, e como o fez.


Como Monteiro Lobato se lançou à atividade editorial à frente da Revista do Brasil? De que modo esse periódico significou um lugar propício para seus primeiros passos na edição de livros?

A Revista do Brasil era, possivelmente, o periódico de mais prestígio na época. Seu selo era conhecido e respeitado nos círculos intelectuais, de modo que livros publicados com tal selo seriam bem recebidos de antemão. Já existia uma rede de distribuição da revista, a mesma do jornal O Estado de S. Paulo, que a criara. Essa rede foi utilizada para distribuir livros. Havia uma cartela de assinantes, que poderiam passar a adquirir livros. O projeto editorial da revista estava em sintonia com o projeto editorial que Lobato planejou para os livros que publicou, pelo menos no início da empreitada. A revista era uma boa vitrine para autores novos… Esses são alguns dos fatores que tornaram a Revista do Brasil um lugar propício para os primeiros passos de Lobato como editor.


Monteiro Lobato tinha forte preocupação com a distribuição comercial dos livros de suas editoras, para a viabilidade de seus negócios. Para tanto, contava com uma rede de distribuição formada não apenas por representantes de venda em várias cidades brasileiras, mas também por literatos que faziam parte dessa rede. Lobato teve êxito em suas estratégias de distribuição e venda de livros?

Sim. Seus livros chegaram, realmente, a regiões muito distantes de São Paulo, como o Acre. Vários editores haviam tentado, no passado, distribuir livros por todo o território nacional, mas esbarravam em problemas sérios de transporte. Paula Brito foi um deles. Quando Lobato começou a editar, já havia trens, navios, alguns carros que circulavam por regiões antes pouco ou nada acessíveis. Naturalmente, ele teve vários problemas com distribuição e com a venda dos livros. Um exemplo: ele imprimia os preços dos livros nas contracapas, para garantir que fossem vendidos por um valor barato e atraente. No entanto, segundo reclamações dele encontradas em algumas cartas, muitos vendedores informavam os clientes de que aqueles preços eram “apenas para São Paulo”, e aumentavam muito o preço original, para lucrar mais; o que afastava compradores.




Diante de um país com reduzido número de leitores na primeira metade do século 20, Lobato teve alguma preocupação com a política educacional e a formação de novos leitores?

Essa era uma das grandes preocupações dele. Pelo que foi possível investigar, ele trabalhou muito por aumentar o número de leitores brasileiros e melhorar sua formação, como se observa em comentários trocados, por exemplo, entre ele e Fernando de Azevedo, que trabalhou na Revista do Brasil antes de assumir cargos como a Diretoria Geral da Instrução Pública do Distrito Federal. Lobato publicou numerosos artigos na imprensa sobre educação. Tratou do tema em alguns contos e, principalmente, na sua obra infantil. Ele era um autor engajado; em sua produção literária, a denúncia de problemas sociais, como a má qualidade do ensino formal, é constante. Como editor, procurou dialogar com diretores, professores, e outros agentes do campo da educação. Publicou coleções de livros muito baratos, como a “Brasília”, para tornar textos mais acessíveis a leitores pobres. Um dos poucos testemunhos a respeito do modo como ele se relacionava com empregados indica que ele costumava conversar com seus funcionários a respeito de leitura, incentivando-os a ler, ouvindo suas opiniões sobre livros.O escritor Marcos Rey conta que seu pai trabalhou nas oficinas gráficas de Lobato, e que foi graças a esse trabalho que passou a gostar de ler, porque Lobato vivia conversando sobre livros com os operários e demais trabalhadores.

Uma das razões de sua falência foi o corte brusco da compra de livros de sua editora por parte do governo federal, em razão do posicionamento político de Lobato e do então presidente da Cia. Gráfica Monteiro Lobato, José de Macedo Soares, durante a Revolução de 1924. Coleções didáticas que haviam sido preparadas por professores célebres na área de educação foram suspensas. É triste constatar que, cem anos depois, muitas editoras brasileiras continuam dependendo de compras do governo para fecharem as contas. Quando programas de compra de livros deixam de existir, várias empresas entram em crise.


Em síntese, por que Monteiro Lobato pode ser considerado, para sua época, um editor revolucionário? Quais foram seus diferenciais na prática editorial?

A meu ver, ele não foi revolucionário, porque não criou práticas até então inexistentes, não mudou radicalmente a produção de livros no país. Ele foi um grande inovador, que modernizou práticas editoriais preexistentes, algumas bem antigas. Um exemplo: ele não foi o primeiro a pôr capas coloridas nos livros, como alguns autores advogam. Muitos livros já eram produzidos com capas ilustradas e coloridas quando ele começou a editar. No entanto, esses livros geralmente eram produzidos no chamado pólo comercial, por editores como Quaresma, do Rio de Janeiro, famosos pelos “livros de sensação”, mal vistos pela crítica. Havia, também, livros com capas coloridas saídos do outro extremo do campo literário, o das vanguardas; é o caso de Nós, de Guilherme de Almeida, que saiu em 1917 com capa e ilustrações de Correia Dias. Como ele, outros autores estreantes, com propostas inovadoras, financiavam as próprias edições, geralmente de tiragens pequenas e artesanais. Essas edições, se eram bem vistas por parte da crítica, não chegavam ao grande público. Então, havia certo preconceito com capas coloridas, porque podiam ser de livros que circulavam muito, e eram considerados de má qualidade literária, ou de livros que circulavam pouquíssimo, e tinham a qualidade literária contestada por alguns críticos mais conservadores. O que Lobato fez foi usar seu prestígio como autor aclamado pela maior parte da crítica para romper com preconceitos que ainda existiam a respeito de capas coloridas em determinados círculos letrados - o que não é pouco. Nesse sentido, ele foi muito inovador. Há muito mais, a respeito desse tópico, no “Figuras de autor, figuras de editor”.


{n. 6 | outubro| 2018}



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