Deriva

Atualizado: Set 25

Prezada leitora, prezado leitor,

“Deriva” é palavra de múltiplos significados. Pode ser, evidentemente, reduzida em um estalo a uma acepção náutica ancorada em “desvio de rota”. E quando se fala em “deriva continental”? Há uma significação de geológico distanciamento. E se você lesse a palavra “Deriva” como título de um livro de poesia?


A resposta para essa última pergunta está no livro de Adriana Lisboa, lançado em cuidadosa edição pela Editora Relicário em 2019.


Leitora, leitor, esse período em que permanecemos “isolados” em casa, por conta da pandemia, favorece a leitura de poesia. Já dissemos isso em outra oportunidade e reafirmamos nessa. Experimentem ler mais poesia!

Com o livro de Adriana Lisboa nas mãos, os olhos logo procuram a unidade de todos os poemas sob o signo do título do livro. Ideias vagam pelo vau do rio dos pensamentos até serem surpreendidas pela inusitada possibilidade de um poeta escrever um livro sem título...

(Sim, não me furto a um alerta: um dia, quando a leitora ou o leitor que nos lê tiver seu tempo para a Deriva de Adriana Lisboa saberá que “vau” é palavra que ocorre aqui ou ali em versos da escritora, como em “é pelo rio/que se atravessa o vau”. Não deixo de revelar que “vau” me faz lembrar meus tempos de leitor compulsivo de literatura amazônica.)

Voltando à barafunda que mencionei sobre a viabilidade de livros sem título, seria bom que houvesse livros assim, principalmente os de poesia. Principalmente ou sobretudo? Escolha, leitora, leitor, o melhor advérbio. Seja livre.

Propus a leitura de Deriva a um amigo, Manoel (que, por apenas uma coincidência, tem prenome e sobrenome de poeta), para realizarmos uma leitura dialogada em encontros virtuais. Manoel concordou. Fizemos no último mês quatro encontros curtos pelo Google Meet. Juro que queria fazer uma live no Instagram, no Facebook, no YouTube, no TikTok. Manoel não concordou.

(Um parêntese ou dois: alguns leitores vêm cobrando muito a {voz da literatura} por não ter feito nenhuma live durante a quarentena. Ainda mais nesse momento tão propício para lives. Um historiador inglês já nomeou esta época como “live times”.)

Manoel sempre foi muito cioso das redes. Confessou que se desiludiu um tanto com a “pasmaceira” (sic) da vida em rede. Sem a permissão de Manoel, revelo outra razão dele: “Viver em rede assemelha-se à cena de peixes pescados, agonizantes e presos na malha por mãos invisíveis, que nos tiram da água, nosso habitat natural, sem o qual não viveríamos...”.

Deixemos de lado assuntos de piscicultura. Vamos ao que interessa. Manoel e eu lemos o livro de Adriana Lisboa em quatro produtivos encontros virtuais. Chegamos à conclusão provisória (tão provisória quanto a dos estudos da vacina contra a covid-19): todos os poemas do livro são manifestações simbólicas do que se entende por deriva. Há espaços, ilhas, oceanos, pessoas, John Cage, loucos, velhos, poemas escritos em inglês, templo zen-budista... em movimentos e rotas, como o da impermanência e finitude da vida no planeta Terra, em constante derivação. Confesso que são palavras de Manoel com as quais concordo em parte. Há derivações na poesia de Adriana Lisboa, e de qualquer outros bons poetas, acessíveis apenas no mundo particular e na vivência de cada leitor.

Dificilmente Manoel e eu concordamos com tudo. Mas grifamos com rara coincidência um dos poemas do livro. Leia um trecho :

Pedra no fundo do oceano

Todas as respostas

às grandes questões da vida são

simples

e já estão dadas de antemão

suponha que lhe proponham

um enigma: apanhar uma pedra no fundo do oceano

sem molhar as mãos

[...]

Essa pedra no fundo do oceano é como esse exercício de ler poesia. Nesse mar de palavras em deriva, difícil não se molhar em busca da pedra no fundo do oceano. Digamos que essa pedra seja o significado genuíno do poema. Impossível manter as mãos secas, impossível chegar ao fundo do oceano.

E por falar em “oceano”, a poeta de Deriva é semifinalista do Prêmio Oceanos 2020.

Deriva é livro que marca mais de 20 anos da literatura de Adriana Lisboa, pelo menos no que conhecemos de sua farta publicação em romances, contos e poesia.

Coincidência ou não, antes de concluir esse texto hoje, Manoel me ligou e disse que começou a ler o último romance de Adriana Lisboa: Todos os santos. Será que teremos live ou novos encontros virtuais? A deriva do tempo dirá...

RAFAEL VOIGT, editor da {voz da literatura}.

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