Clown

Atualizado: 22 de jan.

Um conto de M. A. esquecido na Gazeta de Notícias (RJ) de 26 de junho de 1890.



Tinha tanta queda para o circo! E era tão feio, diziam-lhe os companheiros rindo. – Por que não ia ser palhaço? Havia de fazer carreira... E ele, que era pobre, ficaria depois rico, talvez até milionário. Que tentasse, que se fizesse palhaço. Nada tinha a perder, tudo a ganhar... E animavam-no assim todos os dias, profetizando-lhe riquezas, um nome glorioso, felicidades intermináveis.


E Paulo ia se deixando vencer. A princípio aquela ideia de circo horrorizava-o. Tinha mesmo medo, só de pensar naquilo. Mas depois foi se acostumando; e por uma vaidadezinha própria, um amor de celebridade, já se julgava até com disposições, com muito jeito para ser palhaço.


E demais considerava ele – era pobre, era feio. Tinha uma vida descuidada de vagabundo, a dormir o dia inteiro ou a vagar pelas ruas, sem ocupações, indolente sempre, com um peso estranho de preguiça que lhe magoava a cabeça. Passava mal assim. Tinha, além disso, a mãe doente, desenganada, sem uma naca de pão. Precisava do trabalho para lhe dar o que comer. De resto, se a nova vida fosse má, ele não precisava mais da vida... Todos o aborreciam. Nem ela, a sua lourinha, pequena, de olhos azuis, que ele adorava tanto, por quem se mataria a qualquer hora se ela o quisesse, que lhe roubava todo o descanso festivo do coração – nem ela mais o queria ver. Achava-o horrível, insuportável, um monstro. E tinha razão, porque ele enfeiava muito e com uma brecha funda que possuía no rosto, dava uns ares de bicho. Ela tinha razão, infelizmente...


E em casa, alta noite, em silêncio, gesticulando diante do espelho, meneando os quadris magros num saracoteio ginástico, estendia as pernas para a frente, curvava-se todo, e ria depois gostosamente, gozando da sua fisionomia branca, da sua facilidade de caracterização.


E ensaiava já as pilhérias, muito ingênuo, muito feio, a rir, achando-lhes uma pontinha de graça, um sabor de novidade... Afinal, quando se julgou pronto, capaz de produzir sucesso, resolveu-se. Fez-se clown.


* * *


A estreia fora má. Noite chuvosa, escura. Pouca gente, no teatro.


Ele apresentara-se bem, com desembaraço; mas o público recebeu-o em silêncio, com uma barreira de indiferença para os seus gestos, para os seus ditos de espírito.


Isto desconsolara-o. Começou a ter medo de aparecer, e, contrariado, macambúzio, quase abandonou a carreira. Mas uma esperançazinha restava, e animando-se de novo, pouco a pouco, foi atribuindo o mau êxito da estreia ao tédio daquela noite úmida, ao mal-estar do público.


E ia continuando assim, despercebido, acanhado, mas esperançoso, guardando-se todo para uma festa de gala que os jornais noticiavam, predizendo um sucesso maravilhoso.


Foi num domingo. A empresa realizava o espetáculo, em homenagem a um feito patriótico, solenizando uma data notável. E espalhavam-se por todas as ruas grandes cartazes, em letras garrafais, ilustrados com a carantonha estúpida do palhaço.


À noite o teatro encheu-se completamente. Havia muita luz, muito esmero no arruamento da fachada, onde uma música de arrabalde desafinava gloriosamente a partitura de uma ópera.


Paulo saiu triste de casa.


Foi caminhando devagar, pela sombra, esgueirando-se nos becos, para que ninguém o visse, temeroso de todos, preocupados.


Deixara a mãe pior, desenganada; talvez não a encontrasse viva na volta. E não podia recusar-se no espetáculo, era obrigado; do contrário seria expulso da companhia, cairia na miséria.


E essa ideia animou-o, fê-lo ir.


Fora fazia uma noite clara de luar. Em cima o céu, todo azul, estrelado, desdobrava sobre a terra uma cintilação alegre.


Embaixo corria um rumor fatigante de risos e de festas. Perto do teatro um grande arco iluminado estendia no chão um rastro amarelado de luz. Grande massa de povo atropelando-se, esmagando-se, disputava junto do bilheteiro as senhas da entrada. Paulo irritou-se: a evaporação de prazer que saía de tudo, aquela gente que ria, a satisfação que lhe saltava do semblante, do olhar, dos próprios movimentos, incomodavam-no, entristeciam-no mais. Parou numa taverna e bebeu uma dose de vinho, com uma ânsia desesperadora de calma. Depois, tranquilo um pouco, foi para a caixa concentrado, cambaleando, a firmar as passadas para não cair.


Os comparsas estranharam-no, ele tão alegre sempre, estava sério. Que se ria. E abandonavam-se a comentários sujos, despropositais. Naturalmente bebedeira, concluíram. E riam chacoteando. Paulo não respondeu. Passou distraído. Quando chegou ao camarim, atirou-se ao sofá e soluçou por muito tempo, no desabafo de toda a sua tristeza, de toda a sua irritação.


Afinal ergueu-se. Deviam ser horas de levantar-se o pano. Precisava aprontar-se. E começou a vestir a camisola larga de clown...


Sobre uma mesa de pinho sujo, havia pincéis e tintas vivas espalhados. Paulo enxugou os olhos, lambuzou as faces de cal, deu à-toa um traço vermelho na boca, outro preto na testa, empoou os cabelos e enterrou na cabeça a carapuça.


Depois olhou-se ao espelho. Teve um espanto, nunca se vira tão medonho. E ficou a mirar-se, sentindo-se mais calmo, esquecido de tudo, como tendo acordado de um sonho bom. Mas uma sineta demorada veio despertá-lo.


Calçou depressa as chinelinhas de pano e saiu.


Começara o espetáculo. Alguns artistas exibiam-se no trapézio, entre bravos e palmas da plateia. Vozes esganiçadas de crianças berravam: o palhaço! o palhaço!


Paulo entrou na cena com uma cambalhota grotesca. E corajoso, desengraçado, cambaleando um pouco, foi desenrolando umas pilhérias vulgares muito estudadas, saltando nas barras, careteando, guinchando e desengonçando-se todo, a rolar no chão, com os saltos mortais que ele falhava. Mas a mesma indiferença gelada que o recebera na noite da estreia, desnorteou-o.


Perdeu toda a coragem; não pôde mais falar, o público atemorizava-o. Agachou-se então a um canto, junto a uma haste de ferro. O vinho que bebera fazia agora um efeito pronto. Veio-lhe uma tristeza mais forte. As recordações atrapalhavam-se-lhe na memória. E o barulho abafado da plateia, a reverberação da luz, os aplausos das torrinhas nos acrobatas, pareciam-lhe vir muito de longe, e iam adormecendo-o, trazendo-lhe sonhos horríveis de espectros. Via-os entrando em casa, roubando-lhe a mãe, enterrando-a. Depois via, no meio de uma noite escura, um cemitério sem fim, com os túmulos abertos, vomitando fantasmas; e um ramalhar de árvores, chegava-lhe até os ouvidos, triste e monótono, no meio de vozes estridentes de cadáveres. E distinguia então, amarrada, lutando com a multidão de espectros, sem resistência quase, desfalecida, a mãe que lhe acenava, chamando-o...


E ele, ébrio, num amodorramento pesado, lutava também, abraçando furiosamente a haste de ferro, desprendendo-se, gritando, sentindo-se fraco, sem poder sair dali. Depois, umas vozes esfuziantes, uma risada infernal, um ruído confuso, vinham chegando mais claro, com um vozerio de demônios em dança...


E ele debatia-se sempre, rolava na areia, com os olhos esbugalhados, num pesadelo medonho.


E a plateia rindo, numa hilaridade exagerada, entrecortada de berreiros, despertou-o.


Ergueu-se a custo.


Correu os olhos em volta. E ainda ouviu uma gargalhada longa, agora mais franca, mais livre, como uma ironia frenética à sua grande dor.


Então, desvairado, atônito, gesticulando, cerrando furiosamente os punhos para a plateia, ele soltou uma praga tremenda e caiu.


Foi essa a primeira vez que o público se riu do clown.


M.A.

[MACHADO DE ASSIS]


*Transcrito por Rafael Voigt, editor da Voz da Literatura e Doutor em Literatura pela UnB.


Leia o ensaio "Em busca de M.A.", em que o pesquisador Rafael Voigt relata como localizou "Clown", de Machado de Assis.



 

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