Carta de inverno

por Júlia C. Rodrigues*


Querida Srta. Dickinson,


Aqui começa a fazer frio — uma brisa inesperada refresca minha cidade quente. Estou fechada em meu quarto, no mesmo ponto em que sempre imagino você — sozinha, imersa no inverno, pensando na neve, buscando no horizonte algum vestígio de sol, com papeis na mão e muitas palavras para preencher suas cartas. Mas você não sabe como é estar aqui, habitando um quarto com vista para dezenas de outros quartos, uns sobre os outros, onde cada um vive sua solidão particular. Os edifícios ao meu redor parecem gigantes de pedra com vida própria que passam a maior parte do tempo adormecidos, mas que sabem me espiar quando querem. Mas agora mesmo não há nada para ver — estou feiosa, agasalhada, ranzinza, imersa em minhas preocupações feito uma planta subterrânea.


Imagino você só, sempre só — mas você não é uma eremita. A Srta Marianne Moore escreveu que você não era uma reclusa e que seu trabalho tampouco era, em sua compreensão, eternamente selado. É verdade, não é Srta. Dickinson, que sua casa de cedro é uma casa com frestas e janelas — protegida, mas não vedada. Hermética Emily Dickinson — que evitou a resposta direta das montanhas, mas que nunca deixou de dizer — Hermética Emily Dickinson — um vulcão doméstico em tranquila erupção.


O Morte fez a bondade de levar Susan até você? Na Eternidade, vocês estão afinal unidas, vendo o sol se pôr infinitas vezes, como você sonhava nos momentos de saudade? Espero que sim — espero que você não precise esperar por ela e que, a cada vez que seu coração chame por Susan, ela instantaneamente apareça a seu lado. Espero que as coisas estejam em seus lugares — sua amiga por perto, seus poemas costurados, os pássaros em pleno vôo na estrada adiante — ao alcance do olho. Espero que você habite um lugar que permita o riso, Srta. Dickinson — suas bisbilhotices, brincadeiras, trocadilhos.


Não vejo seu rosto, Srta. Dickinson, mas posso ver seu perfil estendendo com asseio uma manta branca sobre a cama, ajeitando uma mecha que saiu do lugar quando você se mexeu, espiando Vinni do andar de cima e fechando a porta vagarosamente para que ela não lhe escute. Vejo sua nuca virada na direção da janela, pintando uma paisagem. Tenho instantâneos de uma mulher que observa, lê, escreve, sonha e sente. É esse frio tropical que me faz pensar na neve de Amherst — é o sabor de lábio cortado que me faz pensar em você — é desse mundo um inverno que expulso — é dos papeis uma corrente gelada — sua — que inunda — que deixo entrar a cada poema — que deixo entrar em minha língua — que traduzo — que tento dizer junto.


Meus cumprimentos a você e aos seus,


Júlia.

JÚLIA C. RODRIGUES é leitora, professora de língua portuguesa e língua inglesa, e tradutora de textos gerais e literários. Possui licenciatura em língua portuguesa pela Universidade Federal de Ouro Preto e mestrado em Teoria Literária pela Universidade Estadual de Campinas. É doutoranda no mesmo programa. Roteiriza, apresenta e media as conversas do podcast Poemo. Divulga traduções de poesia no blog Conversa entre ruínas desde 2016 e também já contribuiu para os portais Escamandro, Zunai, Mallarmargens e outros. Publicou texto sobre as cartas de Emily Dickinson acompanhado de tradução na Revista Continente em outubro de 2020. Prepara o volume Cartas a Susan, uma seleção comentada da correspondência de Emily Dickinson para Susan Gilbert, para a Editora Colenda.

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Cartas para Emily Dickinson_Voz da Literatura_jul2021
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