BRASIS | Daniel Munduruku


Esta entrevista com DANIEL MUNDURUKU, diretor-Presidente do Instituto UKA - Casa dos Saberes Ancestrais, escritor indígena multipremiado, com mais de 50 livros publicados, foi concedida a Vitor Cei (UNIR) e Julie Dorrico (PUCRS) em outubro de 2017, como atividade do projeto de extensão “Notícia da atual literatura brasileira: entrevistas”, esforço de mapear a literatura brasileira do início do século XXI a partir da perspectiva dos próprios escritores. Publicada em primeira mão pela {voz da literatura}, a conversa aborda a trajetória de Munduruku, avalia o conceito de literatura indígena, discute os problemas enfrentados pelas populações indígenas brasileiras e compartilha com o leitor outras reflexões éticas e estéticas.

Você é um escritor premiado que publica desde os anos 1990, reconhecido pela militância no movimento em defesa dos povos indígenas, mas também pela promoção da literatura indígena no país. Como você define a sua trajetória literária? O que o levou a começar a escrever? Houve algum incentivo no início da sua carreira?

Sou um fazedor de coisas. Não tenho e nunca tive a intenção de ser um escritor que senta na escrivaninha para compor belas poesias apenas por mera distração ou na tentativa de dar uma respostas às angústias pessoais. Sou e sempre fui coletivo (como um ônibus). Algumas vezes fui passageiro, em outras o cobrador, mas gosto mesmo é de dirigir. Assumo riscos e vou para a estrada mostrar minha competência, adquirida pelo pertencimento a um povo, mas também pelo constante aprendizado acadêmico, pelo esforço profissional e pela criatividade que me cabe. Nunca fui incentivado a nada. Apenas segui o fluxo que a vida me apresentava e fui aprendendo a dominar os códigos, as letras, os sons e as palavras. Claro que reconheço a presença dos ancestrais em minha herança literária e é a eles que distribuo minha gratidão.


Considerando que existem diferentes perspectivas sobre o que é literatura, em diferentes tempos e espaços, como você define a literatura indígena? Que elementos a diferenciam da literatura ocidental? Que função você identifica nela?

Costumo dizer que faço literatura e não teoria literária. Sou um fazedor que pensa as coisas quando elas se apresentam. Dentro desta perspectiva tenho pensado a literatura indígena como um elemento aglutinador, um instrumento capaz de oferecer um outro olhar para a sociedade brasileira. Também por isso a penso para além da cultura escrita. A escrita é apenas mais um dos elementos formadores da cultura, como são os cantos, as rezas, as danças, as histórias tradicionais. Tudo isso está sob o grande guarda-chuva da oralidade que se distribui generosamente entre as outras manifestações culturais. Neste sentido, a literatura indígena tem uma “pegada” mais oral e talvez seja por isso que a maioria dos escritores indígenas recontam histórias tradicionais por entenderem que dessa forma estarão alimentando a memória ancestral. Somos alimentos dos deuses. Esta é a função da literatura indígena.


A publicação da sua última obra – Memórias de índio: uma quase autobiografia (2016) – nos leva a refletir sobre os estudos críticos em torno da autobiografia indígena como um gênero que mescla as pessoas eu/nós numa narrativa de cunho coletivo, entrecortada pelas histórias singulares da vida do narrador, sem a linearidade da vida pessoal, mas do que ela julga importante dizer a partir de uma fala coletiva. Nesse sentido, você poderia explicar por que define suas memórias como uma “quase autobiografia”?

Porque ela ainda está se escrevendo. Todo dia aprendo coisas novas e me acho relativamente produtivo. Creio que daqui a alguns anos terei que dar continuidade a este livro para atualizá-lo.


Cada escritor possui um modus operandi, por assim dizer. A estrutura das crônicas, em seu livro, possui um limite bem curto e logo passamos à próxima memória. Você poderia nos falar um pouco sobre as opções formais que norteiam seu projeto literário?

Nunca pensei em formatos literários. Sou levado pelo que quero dizer na hora em que estou escrevendo. Às vezes penso num projeto novo a partir de uma ideia que ocorreu ou numa ausência temática que percebo durante uma conversa, uma palestra ou um sonho. Não tenho estratégias e nem sou disciplinado a ponto de ficar uma parte do dia entregue à criação literária. Vou escrevendo... e pronto.


Daniel, você cita em Memórias de índio o momento inaugural em que você percebeu que seria escritor e também a primeira vez que se assumiu escritor (na recepção do hotel). Você poderia comentar um pouco sobre esses momentos tão caros a um artista?

Isso aconteceu de fato comigo. Sempre me apresentei como professor em todos os hotéis e isso não causava nenhum estranhamento. Um dia resolvi dizer que era escritor e isso foi um susto porque minha cara de índio não combina com o ser escritor. Acho que isso foi tão assustador que eu resolvi que assustar seria uma boa forma de curar a ignorância das pessoas. Por isso sou assustador...

Acho que minha obra é muito bem recebida normalmente. Claro, há pessoas que desconhecem totalmente o que já produzi, mas as que a conhecem são pessoas fiéis e alimentam minha sensação de estar num bom caminho. Há as que conhecem e a distorcem por pura ignorância, mas isso não me entristece e sim alimenta meu espírito.


Hoje, no Brasil, podemos perceber um crescente número de escritores indígenas. Mas também vemos escritores não indígenas buscando elementos tradicionais da cultura ancestral para criarem obras de ficção, sendo que muitos desses escritores têm recorrido a pesquisas antes de concluir suas obras. Qual é a sua opinião sobre esses novos escritores?

Acho que todas as pessoas que desejarem trabalhar a temática indígena de forma literária têm mesmo que se atualizar. As informações que normalmente se tem dizem respeito a uma visão antiga, antiquada e preconceituosa. O mínimo que se pode desejar de um escritor honesto é que ele procure em fontes confiáveis para poder construir seus personagens respeitando suas culturas, seus pertencimentos. Claro que um personagem indígena pode ter todos os problemas identitários e pode fazer parte de um enredo que discuta algumas destas questões. Enfim, não quero ser o censor de ninguém. Peço apenas que tenham cuidado.


Como você avalia os escritores indígenas contemporâneos? Ou, afastando a pergunta de nomes específicos, para pensar a literatura indígena atual como um todo: o que você vê?

Há uma boa safra se delineando. São os que estão experimentando a universidade e extraindo dela a essência com a qual construirão sua participação na sociedade. Tenho bons sentimentos que me dizem que logo teremos novos escritores indígenas permeando a sociedade brasileira com textos criativos, inovadores e comprometidos. Creio que esta será a marca da próxima geração de escritores e escritoras indígenas. É importante que assim seja para que haja um avanço nos debates e discussões nacionais.



{} Mundurukando 2: sobre vivências, piolhos e afetos - roda de conversa com educadores | Daniel Munduruku | UK’A editorial | 2017



Quais os principais desafios para a edição de novos escritores indígenas no Brasil de hoje?

O mercado editorial depende muito das compras governamentais. Infelizmente isso foi diminuindo nos últimos anos e o atual governo golpista está dilapidando toda a política pública de incentivo à leitura que marcou as administrações anteriores. Os livros de temática indígena precisam deste incentivo para poderem ser publicados. A lei 11.645/08 foi fundamental para o surgimento de novos escritores indígenas porque exigia professores leitores. Com a tal paralisação da educação teremos um retrocesso que desencadeará um retorno à ignorância e ao preconceito. Portanto, temos que lutar para derrubar esta corja e eleger alguém realmente comprometido com a educação e a formação de cidadãos conscientes.


Você escreve no blog Mundurukando e grava vídeos em seu canal no YouTube. O que mudou na (e para a) literatura indígena depois da internet e das novas tecnologias de informação e comunicação?

Disse anteriormente que meu conceito de literatura vai além dos textos escritos. As coisas são complementares e acredito muito no poder de atualização que nossa gente carrega em seu gene. As novas tecnologias vieram somar. Também por isso muitos escritores indígenas irão surgir como já está acontecendo. As tecnologias vieram para revelar o que somos enquanto povos. Temos que fazer uso delas de maneira consciente e positiva.


Há séculos as populações ancestrais do Brasil resistem a “projetos de morte” e lutam contra as tentativas de fragilizar a proteção ambiental das florestas. Atualmente, presenciamos o desmonte da Fundação Nacional do Índio (Funai) e o massacre das populações indígenas, especialmente no Noroeste do país. Soma-se a isso, a ascensão, em nível internacional, de uma onda reacionária que traz em si matizes racistas, fascistas, misóginos e homofóbicos. O que você imagina ou espera como desfecho do atual estágio da humanidade?

Nunca fui profeta do apocalipse. O que vejo é uma tentativa de manter o status quo onde uns mandam e outros obedecem. As mentes poderosas do planeta estão usando uns imbecis para criar a discórdia e fazerem as pessoas acreditarem que a economia e a religião salvarão o mundo. Pura ilusão. É tudo uma maquinação armada para frear o avanço dos direitos humanos, a divisão equânime das riquezas e a construção de uma sociedade global e igual. Tudo o que está sendo disseminado de ódio é apenas uma forma de desviar a atenção das pessoas dos reais interesses que estão em jogo. Desde quando discutir o nu artístico entrou na pauta brasileira? Desde quando o casamento gay foi um problema? Desde quando a religião foi matéria de discussão do STF? Desde que começaram a descobrir que o povo estava empoderado. O que condena o Lula não é o suposto desvio que cometeu, mas o fato de ter dado casa, água encanada, universidade, saúde e escolaridade para o povo pobre do país. A partir desse momento começaram a criar as cortinas de fumaça para desviar a atenção do povo de suas reais necessidades. Tudo está ligado a tudo. Só não vê quem não quer. { }


{n. 5 | setembro | 2018}



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