A seguidora de uma booktuber de sucesso

Da memória de M, quando ainda aos 17 anos, não se apaga o dia em que, com um simples e delicado clique na tela do smartphone, garantiu sua inscrição no canal do YouTube de T.

A partir de então, jamais perdeu qualquer um dos vídeos diários preparados pela booktuber de maior sucesso no país.

M passou a interagir, com comentários elogiosos, para os quais T retribuía com agradecimento protocolar.

Os meses foram passando e M se deu conta de que, ao acompanhar as façanhas e a vida mágico-literária de T, lia pouco, muito pouco, quase nada, de todos os livros já apresentados por T.

Mesmo assim, perseguia indomavelmente seu instituto literário refletido em T.

T passou a ser o modelo de leitora que M ambicionava atingir um dia. Cada vez mais, seus hábitos e opiniões a respeito de leitura e de literatura, bem como das questões mais graves da vida política e social do mundo, passavam, inconscientemente, pelo filtro de T.

Segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado e domingo, via e, não raro, revia os vídeos de T, para observar não somente o que ela dizia dos livros, mas para analisar os gestos, o cenário do estúdio, o modo de dizer, a maneira de interagir, de se vestir, daquela que passou a ser sua melhor companhia e modelo para, quem sabe, um dia ter o seu próprio canal.

No feriado prolongado de Carnaval de 2018, T propôs uma maratona literária, precedida, obviamente, de um caprichado book haul. M se animou. Comprou todos os livros indicados por T, com sua mesada e mais um adiantamento que pediu à mãe, que se orgulhava da filha leitora. M, para agradar T, comprou os livros da maratona pelo link indicado pela booktuber, o que renderia a T alguns dividendos.

Na antevéspera do Carnaval, foi dada a largada da maratona, em vídeo-surpresa divulgado no Instagram. Para dar conta do apertado desafio de leituras sucessivas, mal conseguiu fazer as principais refeições. Trancou-se no quarto, com algumas guloseimas e uma garrafa de água, fez de tudo para espantar o sono...

Era um sábado e T marcou para as 21h a live da primeira etapa da maratona. M. se esforçou, mas não conseguiu chegar sequer à metade do primeiro volumoso livro, uma fantasia estrangeira da qual M já tinha assistido toda a série na Netflix e T já havia lido há muito tempo e fingia estar lendo no mesmo ritmo alucinante de seus seguidores, ora postando fotos descabela e de pijama no stories ou vídeos em que posava o livro ao lado de uma boa xícara de café.

Contrafeita com o próprio desempenho, M estava tensa e sem graça durante toda a live. Recobrou um pouco o ânimo, quando T. ao final disse: “- Você que não conseguiu chegar ao final da leitura, não desanime. A maratona segue até o final da semana de Carnaval. Ainda dá tempo para ler. Se você ainda não é inscrito em nosso canal, não perca as novidades e ative o sininho. Para ajudar na manutenção dos nossos trabalhos, adquira os livros pelos links disponibilizados na descrição de cada vídeo. Até amanhã, com a segunda etapa da maratona literária!”

Não poderei dormir. - pensou M - Quero estar mais ativa e mostrar a T que tenho fôlego para a maratona.

E assim M prosseguiu nas leituras. Primeiro do livro em atraso. Pretendia concluir até meia-noite, em ritmo intenso. Não queria ficar para trás... Lançaria mão de um recurso infalível. Calculou o número de páginas que precisaria saltar para dar conta da etapa 1 e cumprir o objetivo.

Antes de meia-noite, furtivamente uma dorzinha de cabeça começou a lhe invadir a testa. Percebeu que aquilo era uma mau-presságio. Era o retorno de uma enxaqueca nunca curada completamente. Havia minimizado seus efeitos à base de um tratamento homeopático.

Os olhos ficaram turvos, as náuseas começaram, a palidez tomou o rosto... Não teve outra alternativa, a não ser desligar a luz, ir com passos vacilantes e corpo arquejado até o quarto da mãe. Esta não viu como contornar a situação e levou a filha ao Hospital mais próximo. No caminho, M começou a apresentar o que para a mãe parecia ser um quadro de confusão mental. Dizia, entre delírios e balbucios, coisas desconexas:

-T, remarca a live... Remarca…. Como você conseguiu 100 mil inscritos em seu canal?...Vou terminar o livro dois até amanhã… Por que você nunca me responde de verdade, quando posto comentário?... Quero chegar ao final da maratona… T, você tem a vida perfeita para um leitor… Não me deixa para trás… Você não sofre de enxaqueca… Um dia serei como você.

RAFAEL VOIGT, editor da revista Voz da Literatura.

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