A Arte da Quarentena

Novo livro do psicanalista Christian Dunker ajuda a compreender vários aspectos da vida durante a pandemia de covid-19


Christian Dunker é psicanalista e professor livre docente do Instituto de Psicologia da USP. Vencedor do Prêmio Jabuti 2012, na categoria de Psicologia e Psicanálise, com o livro Estrutura e constituição da psicanalítica: uma arqueologia das práticas de cura, psicoterapia e tratamento (Ed. Annablume), colabora como colunista em diversos jornais e revistas.

Em A Arte da Quarentena para Iniciantes (Ed. Boitempo), Christian Dunker reúne nove textos publicados originalmente na imprensa entre fevereiro e abril deste ano e acrescenta mais um inédito. São textos que refletem a preocupação do autor em oferecer recursos para que os leitores compreendam as nuances dessa crise provocada pela covid-19.

Temas como o negacionismo político, que pode ser interpretado pela chave do conceito de negação freudiano ou pelo de necropolítica de Mbembe, aparecem de imediato no primeiro capítulo.

Dunker reflexiona ainda, em outros dois artigos, como historicamente a “peste” é democrática, atinge a todas as classes sociais e nos impulsiona a enfrentar o medo e a angústia.

Esses sintomas podem piorar, especialmente quando políticos pretendem simplificar o problema representado pela pandemia, valendo-se de uma espécie de “complexo de Danning Kruger”, como alerta Dunker no capítulo 3.

No artigo “O diário do ano da peste” (capítulo 4), Christian Dunker observa como o governo de Bolsonaro e seus asseclas são exemplos nítidos de três categorias da “violação de expectativas”: negação, dissonância cognitiva e projeção. Destaque para o seguinte trecho:

“As estratégias de negação da realidade, para reduzir a angústia gerada pela contradição política, e distorção do pensamento, para ajustar nosso sistema de crenças morais, não funcionariam sem as projeções dissociativas, empregadas para nos fazer engolir a realidade da economia. Projeção tem aqui o sentido de negar o que está errado em nós mesmos, imputar isso aos inimigos, adiando indefinidamente a prova da realidade. Por isso, quanto mais o país demora para voltar a crescer, mais ele estava quebrado pelo PT.” (p. 26)

Para além da discussão política, permeada do olhar psicanalítico, Dunker orienta os leitores quanto ao atendimento psicológico on-line durante essa quarentena. É o que temos no capítulo 6.

Em alguns de seus textos, Dunker aproveita a literatura como fio condutor de algumas de suas abordagens. Tal como ocorre no texto “Hipocondria”, em que menciona a peça “Doente imaginário”, de Moliére (1673), e o emplastro do machadiano Brás Cubas. Ao final, Dunker fala da hipocondria individual que nos atravessa nesse período pandêmico:

“{...} Por isso, diante da pandemia de coronavírus cada um de nós deverá enfrentar sua própria hipocondria. Não subestime nem superestime o medo. Siga todas as recomendações de isolamento social e cuidados com higiene e limpeza, mas não se deixe dominar pela solidão. Respeite seu medo, mas não o deixe se transformar em angústia e desespero. {...}” (p. 49)

“Histeria”, outra palavra que figurou no discurso errático de Bolsonaro, é destrinchado pelo psicanalista em capítulo de mesmo nome. Mais uma vez, pode-se observar como a “histeria” bolsonarista representa mais uma estratégia negacionista, que põe a perigo a população.

Sabe-se que experiência coletiva nesse estado pandêmico motiva e motivará um acentuado adoecimento psíquico da sociedade, atingindo todas as faixas etárias. Mesmo assim, há uma experiência positiva a ser anotada, como enfatiza Dunker:

“Por outro lado, acho que há vários pontos positivos nesta experiência inédita. Primeiro, nós estávamos vivendo uma aceleração doentia da vida. E, agora, desaceleramos.

O segundo ponto é que nós estávamos em uma hipertrofia narcísica, que não é só apoiada pelo mundo digital, mas também pelo modo de produção neoliberal e pela forma como inventamos certos modos de ser.” (p. 69)

Embora estejamos saturados de informações da mídia sobre o coronavírus, o livro de Dunker vai além e serve como contraponto, contribuindo de algum modo para o “bem-estar” dos leitores, estado este que significa, em tempos de quarentena, se sentir bem informado sobre um problema de alta complexidade e poder observar a crise por novas perspectivas.

A arte da quarentena para iniciantes faz parte da Coleção Pandemia Capital, lançada pela editora Boitempo. Até o momento, a coleção conta ainda com os seguintes títulos: Crise e pandemia, de Alysson Leandro Mascaro; Pandemia, covid-19 e a reinvenção do comunismo, de Slavoj Zizek; A cruel pedagogia do vírus, de Boaventura de Sousa Santos; Reflexões sobre a peste, de Giorgio Agamben; (Re)nascer em tempos de pandemia: uma carta à Moana Mayalú, de Talíria Petrone; e Construindo movimentos: uma conversa em tempos de pandemia, de Angela Davis e Naomi Klein.

Merece menção o fato de que todos os recursos dos direitos autorais obtidos com as vendas desses livros serão destinados a um fundo emergencial em favor dos sem-tetos afetados pelo coronavírus, em ação organizada pelo Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto, bem como à organização internacional Médicos Sem Fronteiras.


RAFAEL VOIGT, editor da revista {voz da literatura}.

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