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por Adriano B. Espíndola Santos*


O que precisava fazer para sair do marasmo? Chamei o Adalberto para um fim de semana na serra ou na praia. Alugaríamos um local só nosso, isolado, para manter o rigor da quarentena, claro. Adalberto é pragmático e meticuloso até demais; às vezes me dá nojo, e a paciência vai para o espaço. Veja: o homem foi me questionar o roteiro, milimetricamente; se alugássemos uma casa na praia, não poderia ser próxima do centro do lugarejo; teríamos de levar bastante comida, para não corrermos o risco de ir ao supermercado ou a um restaurante; e queria saber se a casa teria sido desinfectada antes. Na hora, brochei, literalmente. Mas logo percebi que não aguentava mais estar no mesmo apartamento com um homem aposentado, que não sai de casa desde março de 2020, e que depende de mim para tudo; não lava uma louça. Antes que a leitora possa condená-lo – e tem todo o direito –, digo que ele está incrustado no modelo patriarcal; a mãe, Adalgisa, fazia tudo para o “menino”, comidinha na boca, e chegou ao ponto de demandar que eu fizesse o mesmo: só para contrariar, não fazia um terço das “recomendações”. Ela aparecia, muitas vezes, para ver se o filhinho estava bem alimentado. Quando não suportei mais de tanta frescura, disse que ele já era grandinho, tinha mãos e pés; era saudável e poderia muito bem se virar. Ela me ignorou por longos dez anos, e eu achei maravilhoso. Esperou ficar doente, praticamente acamada, para se mostrar arrependida. Mas, enfim, isso não vem ao caso. Falei disso para relatar a minha sina de ser uma espécie de mãe para o meu marido. Fosse ele um canalha, já o teria largado. Com o Lucas, nosso filho, não foi assim, sempre o criei para ser independente. Acho que, por sorte, a sua geração o ajudou. Há algo, que não sei dizer, menos machista; uma preocupação com a coletividade, com a divisão – pelo menos vejo assim, em relação às pessoas que me cercam. Pois Adalberto resolveu ir para a praia do Presídio – até o nome caiu como uma luva. Não moveu uma palha; eu que reservei o local e encaminhei todos os seus pedidos. Se não fossem atendidos, Adalberto seria capaz de dar meia volta e simplesmente abandonar o plano – e liquidar o fôlego; sobrevivência. Saímos cedo. Adalberto acorda invariavelmente às 5h, uma rotina que adquiriu com trinta anos trabalhando em indústria, como engenheiro de produção. Ele sabe como ninguém organizar objetos, arrumar lugar para tudo. Nunca os troca de canto, e reclama, bravo, se eu fizer isso. Então, ele desceu para preparar o carro e deixar tudo em ordem enquanto eu tomava o café da manhã. No caminho, um mal presságio: um dos pneus estava seco. Paramos num posto de gasolina, e o Adalberto torcia a cara e falava com o frentista como se o homem estivesse contaminado por Covid. Tive imensa vergonha. Desci para auxiliá-lo no trato. O frentista trocou o pneu com má vontade, e demorou um horror. Adalberto, por conta do calor e do atraso, porque, óbvio, ele é metódico, estava prestes a desistir; eu via no seu rosto. Finalmente, retomamos o caminho e, com menos de cinco quilômetros, fomos parados pela fiscalização da rodovia estadual. O policial requisitou a habilitação de Adalberto e o documento do carro. Com tudo nas mãos, o policial falava ao telefone, algo que parecia com troca de carinhos melosos, conversa de namorados apaixonados; fiquei com inveja, não posso mentir. Adalberto permanecia com a cara fechada. O policial desligou o telefone e andou, devagar, para a cabine. Disse que iria averiguar “uma coisa”. Adalberto ficou nervoso, impaciente: “O que? Como assim? Não tem nada de errado! Está bem pretendendo alguma extorsão!”. Acalmei-o, falei que não seria nada; apenas uma confusão. O policial voltou com cara de poucos amigos e declarou que havia um pequeno problema na sinaleira traseira, do lado do motorista; estava “desparafusada”. Que absurdo! Eu que surtei. Falei que isso não era nada; que não podíamos estar há tanto tempo retidos por uma ninharia; que poderíamos, na próxima borracharia, ajeitar. O policial, percebendo que eu estava transtornada, e que poderia ser descoberto por algum mal feito, porque eu iria botar a boca no trombone se ele sugerisse propina, nos liberou: “Vão! Vão, seus malucos!”. Adalberto estava fervendo e tremendo de raiva. Queria parar para pegar um ar, tomar uma água em algum boteco de beira de estrada. Paramos. Ele verteu na boca, pensativo, uma boa porção de água com gás. Recobrou os sentidos. No ritmo de Adalberto, que não passa nunca do exigido por lei, chegaríamos certamente em uma hora. De fato, a hora bateu. Fomos recebidos pelo caseiro, que nos deu as instruções. Pediu que tomássemos cuidado para não deixar portas e janelas abertas quando sair, por conta de roubo e invasão de animais. Nesse quesito, tivemos sorte; fomos cobertos por uma aura de paz. A única invasão consentida foi de uma família de soim – ou sagui, para o povo de fora –, que comiam frutas em nossa janela. A casa era uma delícia. Passamos, talvez, o melhor final de semana de nossas vidas; comparável à lua de mel. Adalberto estava inspirado. Sim, precisávamos de ar para renovar a paixão.


* Adriano B. Espíndola Santos é natural de Fortaleza, Ceará. Em 2018 lançou seu primeiro livro, o romance “Flor no caos”, pela Desconcertos Editora; e em 2020 os livros de contos, “Contículos de dores refratárias” e “o ano em que tudo começou”, ambos pela Editora Penalux. Colabora mensalmente com a Revista Samizdat. Tem textos publicados em diversas revistas literárias nacionais e internacionais. É advogado civilista-humanista, desejoso de conseguir evoluir - sempre. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto.

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