Zaps para Emily Dickinson

por Adalberto Müller*


– Oi, senhorita Dickinson – posso chamá-la de Emily? – olha – peguei o seu contato com uma amiga – que conhece muito você – eu me chamo Adalberto – Müller – aqui do Brasil – sei que você sabe onde fica o Brasil – escreveu quatro poemas sobre este país – principalmente aquele –"I asked no Other thing" – em que você diz – “Não pedi outra coisa” – a um Mercador Poderoso – e oferece o "Ser" – em troca do Brasil– e o Mercador sorri zombeteiro – e pergunta – no final – se você não preferia outra coisa – pois é – o Brasil – se você soubesse o que ele vale agora – eu não apostaria nele o meu "Ser" – nem te conto porque – aqui agora é o inferno – esta semana por exemplo – a polícia matou uma moça – em Lins e Vasconcelos – um bairro de periferia do Rio – a moça estava grávida – linda e de cabelos trançados – o tanto que eu chorei – o tanto que choramos – como você diz no seu poema – "Há uma dor – tão total / Que engole toda sustância – "There is a pain so utter" – foi assim que você escreveu – aliás nunca vi – ninguém – escrever tanto – sobre a dor –


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– Oi Emily – desculpe – cortou – eu mal me apresentei – eu traduzi os seus poemas – todos eles – sim – todos – levei sete anos fazendo isso – acredita? – sete é um número de sorte – eu sei que você não acredita na sorte – só na morte – todo mundo sabe disso – aliás – a moça se chamava Kathlen Romeu – linda – dizem que foi bala perdida – mas aqui a gente sabe – não tem bala perdida – todas elas vão parar nos corpos – das pessoas pretas – e pobres – e haja balas – tem gente ruim – que eu já vi – que diz que acha bonito – o helicóptero passar na favela – e disparar a metralhadora – essas pessoas – do Brasil – dão risadas quando falam – em matar as pessoas pretas – e pobres – desculpa mudar de assunto – é que estávamos falando de morte – e eu estava lembrando daquele seu poema – em que a Morte vem de carruagem – e te leva a passeio – eu inclusive vi a série– da Apple – você saiu bem na foto – vestida de veludo vermelho – e a morte era um homem bonito – o vermelho do veludo aliás – do teu vestido – vinha do pau-brasil – você sabia disso – posso até imaginar o Brasil – roçando a tua pele branquinha – ou os teus cabelos ruivos – desculpe – viajei – peguei pesado – mas olha – este áudio está ficando enorme – e eu nem disse ainda – por que estou te mandando esta mensagem –



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– Oi Emily – sou eu de novo –– o do Brasil – pois é – eu sou insistente – tem tanta coisa que eu queria te perguntar – mas vamos lá – vamos falar de poesia – hoje comprei alecrim – em tua homenagem – pensando – naquele poema – que começa assim – "Os Óleos Essenciais se extraem” – desculpa – em inglês é assim – "Essential Oils are wrung" – você basicamente diz – que as coisas importantes na vida – como a poesia – não são dadas por acaso – mas são produto da labuta– assim como é preciso prensar as rosas – para extrair-lhes a essência – mas a minha questão é – porque – a partir daí – você começa a falar da morte? – sim – porque aquela historinha – da gaveta íntima da moça – isto é – a sua – e do que está guardado lá dentro – como se fosse uma rosa – e que permanece eterno – mesmo quando a moça morre –mas que macabro – Emily – eu interpreto assim – aqueles versos finais – "when the Lady lie in Ceaseless Rosemary" – "se a moça jaz em Perene Alecrim" –– e além do mais – o alecrim era usado – para conservar os cadáveres – mas também aromatizá-los – para o velório – não é mesmo? – pois é – a minha questão é – por que – se você estava falando de poesia – de repente começa a falar de morte? – pois é – o que eu imagino – e você me corrija – que é porque – uma coisa leva a outra – a poesia leva à morte – isto é – não diretamente – mas também – a poesia conserva a "Moça"– isto é – a poeta – será que é isso? – a poesia é uma maneira de morrer – e uma maneira de sobreviver à morte? – não sei – tenho muitas dúvidas – se você me respondesse – vou esperar – você me responde? –



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– Oi Emily – posso te chamar de Emília? – no Brasil soa bem – aqui tudo soa bem – dá samba – mas fora o samba – acho que você não ia gostar daqui – lembra daquele seu poema – "Some such Butterfly be seen / In Brazilian Pampas"? – que – na minha tradução – é assim – "Uma tal Borboleta é vista / Nos Pampas do Brasil" – pois é – são lindas mesmo – as borboletas – até conversei com uma entomologista gaúcha – cruz credo – você dirá – mas ela me disse – que você devia saber – a quantidade de borboletas lindas – que há nos pampas do sul – mas a notícia triste – é que estão todas morrendo – por excesso de agrotóxicos – ainda mais agora – que o governo do Brasil – sempre na mão do Mercador – aquele do seu poema – ou seja – do Capitalismo – o Brasil – liberou todos os agrotóxicos – inclusive os piores – para o meio ambiente – aliás o ministro do meio-ambiente –– da pátria amada – é o único ministro do meio-ambiente do mundo – que é contra o meio-ambiente – e até o ministro da saúde – é contra a saúde – bizarro – né? – nem te conto – um horror – mas acho teu poema lindo – porque você fala que aquela borboleta do Brasil – é como a beleza que passa – e desaparece – como a beleza da Katlhen Romeu – assassinada – grávida de quatro meses – os culpados são os mesmos – todos os que falam de Deus – o Brasil acima de todos – e usam Deus para fazer dinheiro – e vender armas – era ela – Emily – a "Borboleta dos Pampas” – a Kathlen Romeu – e o bebê dentro dela – que "dor tão total" – ai –