Você precisa ler um bom romance policial
- {voz da literatura}
- há 3 dias
- 2 min de leitura
{} Rafael Voigt
Editor da Voz da Literatura
Doutor em Literatura (UnB)
Pretendendo fugir da rotina, decidi me embrenhar pelas peripécias de algum romance policial.
Para um neófito no ramo, a escolha se deu de forma absolutamente aleatória.
Acessando a plataforma “MEC Livros”, louvável iniciativa do Governo Federal, tomei de empréstimo O Expresso de Tóquio, do japonês Seicho Matsumoto [1] .
Não conhecia o autor. Não conhecia o título. Não conhecia o detetive da história. Não conhecia o enredo. Não sabia por onde a leitura me levaria. Apenas comecei a aventura. Ou melhor seria dizer a investigação?
Sim, a investigação de um duplo suicídio, supostamente por motivos passionais em uma praia de Kashii. Logo em seguida, ganha corpo o escândalo de corrupção em determinado Ministério japonês.
Muito provavelmente, na língua japonesa, mistério e ministérios não são palavras que resultem em rima e em certo eco. Mas isso é apenas uma façanha da língua portuguesa que cai como uma luva para um bom trocadilho interpretativo. Façanha de fato é perceber como em um Japão dos anos 50 espelha um Brasil contemporâneo, quando se pensa em escândalos de corrupção.
O certo mesmo, em matéria de façanha, é a própria literatura se revelando habilmente em um romance policial como O expresso de Tóquio.
A insistência de Torigai, um inspetor experiente, em um caso nada usual. A percepção matemática e a exatidão nos horários em que os trens se cruzam numa plataforma em Tóquio. Os quatro minutos em que se pode visualizar entre tantos trens a possível movimentação dos vultos do casal suicida antes do fatídico momento. As testemunhas que não fecham o quebra-cabeça. As pistas descartadas ou suspeitas em relação a um dos homens fortes do Ministério e de sua mulher adoentada (com inclinações literárias), acamada e reclusa, em cidade distante.
O leitor investiga junto. O leitor suspeita, constrói suas hipóteses, escolhe os verdadeiros autores do crime, lado a lado com o autor. Sem se dar conta, pode deixar escapar as façanhas da literatura em toda essa construção.
A literatura cria e recria. Esconde e se expõe. Arrisca e recua. Provoca risos, mesmo diante da investigação criminal. Como se por um momento dissesse para o leitor: - Veja bem, nada disso é verdade, mas poderia ser. Estou aqui não para revelar as razões do crime, mas para mostrar minha força para criar toda essa realidade fora da realidade.
Edgar Allan Poe, Arthur Conan Doyle, Maurice Leblanc, Ágatha Christie, entre tantos outros, como Seicho Matsumoto, ouviram essa mesma ideia soprada de algum vento e a compartilharam com seus leitores, nas entrelinhas de suas histórias.
Quando terminei a leitura de O expresso de Tóquio, fiquei rindo por dentro, satisfeito de perceber que a personagem mais inofensiva foi a minha aposta vencedora. Ri por dentro e a literatura riu de mim. Como bons amigos.
Nota
[1] MATSUMOTO, Seicho (1909-1992). O expresso de Tóquio. Trad. Jefferson José Teixeira. 1 ed. São Paulo: Todavia, 2025. [1958]




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