Uma carta ao poeta Henryk Siewierski


Prezado poeta Henryk Siewierski,


Da capo al fine (Ed. 7Letras, 2020) não é o primeiro volume de versos seus que leio. Antes dele, banhei-me no Lago salgado (2012) e apurei meus ouvidos para ouvir Outra língua (2007).

Certamente, você - penso que posso lhe tratar dessa forma daqui por diante - revela-se um poeta brasileiro, mas de origem natal polonesa. Outra língua (2007) não foi o que inaugurou seu contato com a “outra língua”, a língua brasileira.

Sua poesia brasileira se forjou por meio da própria vida em nosso país, mais constantemente em Brasília e na UnB, mas de igual modo em tantas outras cidades por onde passou, de Norte a Sul do Brasil. Sua identidade estrangeira caiu por terra e foi substituída em poucos anos por uma alma de brasilidade rara. Em Da capo al fine, essa brasilidade adquirida aparece até nas pequeninas revelações, como o canto das cigarras nas árvores.

Você revela-se daqui ou de lá, quando, como Gonçalves Dias, canta a sua terra em outra toada: “minha terra tem matadouros” (Carnifcina); “a minha terra tem dilema/ que eu não tenho aqui/suas estações são demarcadas/ agora o frio está por vir” (Um dilema). São exemplos da primeira parte “Grave Maestoso” de Da capo al fine. Mas que se complementam com versos da segunda parte “Allegro”: “minha terra tem três gêneros/substanciais que são/masculino feminino e neutro/que não encontro eu cá” (Canção do neutro). O seu torrão natal aparece mais um pouco: “minha terra tem caminhos de ferro/ de trem me esfrego contra o sol” (Trem à terra).

Siewierski, mesmo na função de tradutor, você deixou-se, desde o início, penetrar da “cor local”, para, como um cicerone, aproximar outros escritores poloneses dos leitores brasileiros. E são tantos... Neste ponto, um staccato. Preciso mencionar aqueles poetas poloneses que fazem parte de minha memória afetiva, da minha juventude universitária como leitor de poesia. Porque, antes de tradutor, ou paralelamente, ou como notas de um acorde, você é professor de literatura.

Começo pelo poema “O piano de Chopin”, de Cyprian Norwid (1821-1883). Até hoje a imagem do piano despencando do edifício está gravada em mim, revelando uma Polônia e seu doloroso processo histórico de formação. Amigo Siewierski, são notas dolorosas, pungentes, de um piano que parece ressoar em seu poema “Esparadrapo”: “ou a vida não quis mais/servir à guerra/de tão incurável/da vida que era”.

Mais um staccato. Ainda guardo como relíquia o livreto “Adam Mickiewicz: um poeta peregrino” e me surpreendo pelo fato de Machado de Assis conhecer esse poeta. São ligações, aproximações, polono-brasileiras que ainda me intrigam...

Por falar em livros, o objeto livro não foge de seu repertório poético em Da capo al fine: “cada livro tem suas histórias/ uma oficial e uma secreta/ além das outras inúmeras/ em que depois entra” (Livro). Poderia se dizer que sintetiza uma lei universal sobre os livros.

Voltando à relação de dois ofícios que tão bem você desempenha, desconfio piamente que a tradução e o magistério possuem algo em comum. Ainda mais ao acompanhar de perto parte de sua trajetória. Parece decorrer dessa a hipótese, uma outra indagação: - Seria a tradução literária outro nome para poesia?

“traduzo e/me transformo/amador na coisa amada/ e traída/com a outra/imaginada” (L’amour infidel)

Nessa sina de poeta-tradutor, você, Siewierski, é capaz de assumir o espírito de Dorival Caymmi em “Canção de Salvador”, mais uma revelação de sua brasilidade adquirida: “o Salvador em que me perdi/ naquela noite de Itapuã/ seguindo o veleiro que no céu/procurava o rio, o rio vermelho”.

Foi também fruto de seu esforço de tradução que me levou a conhecer uma poetisa hoje tão bem aclimatada no Brasil: Wisława Szymborska. Ela passou a ser um valioso patrimônio do sistema literário brasileiro. Penso que ainda chegará o dia em que Czesław Miłosz, Zbigniew Herbert e outros mais pertencerão a esse status de Szymborska. Tal qual ocorre na ciranda e no “Samba do tradutor”, do qual seu pandeiro bem afiado entoa: “assim haverá no céu/se houver o céu se houver/ alegria eu vos digo sim/por um só tradutor pecador/ garantido convertedor/mais do que por noventa e nove/ justos escritores que nunca/se converteram a traduzir/bem mais alegria/alegria sem fim”

Ao tocar no nome da poetisa dos versos de “Repenso o mundo” (Obmyślam świat), minha memória volta-se para o fato de que, ao ser agraciada pelo Prêmio Nobel de Literatura (1996), Szymborska concorria com João Cabral de Melo Neto. E que você torceu por este poeta brasileiro. Mais que essa lembrança pueril, prefiro recorda que você traduziu João Cabral para o polonês. Ou seja, a mesma tarefa de cicerone mencionada acima se fez também na via oposta.

Da boca desse João Cabral é que ouvi o que reputo ser uma das maiores verdades sobre o fazer poético: “O poema, para mim, é como pintar um quadro”. No caso do poeta de Da capo al fine, o poema é como compor música e executá-la como aparece no ritmo da pauta da vida: grave maestoso, allegro, non troppo, da capo al fine.

Poderia passar muitas páginas enfatizando toda a sua experiência de vida no campo da poesia, ainda mais quando abrimos sua História da literatura polonesa, um desses livros que deveria constar na biblioteca de todos aqueles que se devotam à literatura diariamente.

Por tudo isso, precisava escrever essa carta, não como resenha, nem como crítica, mas para tornar patente que, por trás de um poeta, há muita vida e esta importa para o que se construirá como verso. Em Da capo al fine, outras evidências dessa premissa estão patentes, o poeta na família e entre amigos, como nos versos de “Pessegada em Ubá” ; o poeta viajante e descobridor de culturas (“Aurinko”). Por isso, repito, como quem verseja: por trás de um poeta, a matéria vida é que vira poesia. O poema que dá título à obra é a síntese dessa percepção. Não é poema, é vida a se equilibrar e se derramar nos versos. Viva a Zygmunt Morwitz, por lhe ensinar a vida além da música! O arco daquele violino deslizando sobre as cordas retesadas permeia Da capo al fine.

Espero, para breve, que possamos nos encontrar pessoalmente para falar da vida - ocasionalmente de literatura -, tomando um cafezinho, acompanhado, é claro, de uma fatia de bolo de cenoura com cobertura de chocolate. Se bem que fiquei curioso para provar a “Pessegada de Ubá”...

Caloroso abraço,

R.


RAFAEL VOIGT, editor da revista Voz da Literatura.

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