Um pouco das cidades de Leminski


por Dinarte Albuquerque Filho



Em 2019, Paulo Leminski será lembrado pela passagem dos 30 anos de sua morte. Não que os leitores de poesia o tenham esquecido, muito pelo contrário. A publicação de Toda poesia em 2013 ainda vibra nas estantes dos admiradores do poeta curitibano morto em 1989. Mas, mais do que da morte – nunca ausência – de Leminski, é preciso falar [d]a poesia deste “samurai-malandro” 1 , poesia que contribuiu “para a definição de novos rumos para a literatura brasileira”, conforme Lopes (1996); e contextualizar: quando a poesia de Leminski chegou às esquinas do Brasil, leitores ganhavam novos estímulos graças à saudável/saudosa iniciativa da Brasiliense.






Entre os estímulos, a reunião de poemas de Leminski em Caprichos & Relaxos, de 1983, na coleção Cantadas Literárias. No livro, uma amostra do poder da palavra leminskiana, um dos maiores sucessos editoriais de poesia no mercado brasileiro, com cerca de 20 mil exemplares vendidos, muitos deles passados de mão em mão entre um público que passou a se identificar com a produção dita “marginal” – mais por estar à margem do processo acadêmico do que por qualquer outra interpretação. Como esclareceu em Distraído Venceremos (1987): “Marginal é quem escreve à margem, / deixando branca a página / para que a paisagem passe / e deixe tudo claro à sua passagem.” 2


Se a passagem de Leminski foi curta, neste caminho difícil, nesta linha que nunca termina 3 , sua presença permanece além das premissas imprecisas das cidades que abrigaram a poesia e o poeta. Curitiba, pra começo de conversa, sobre a qual espantou-se: “quantas curitibas cabem numa só Curitiba?”, no poema “Imprecisa premissa”. É o poema que incorpora a cidade que incorpora o poema que incorpora.


Cidades pequenas,

como dói esse silêncio,

cantilenas, ladainhas,

tudo aquilo que nem penso,

esse excesso

que me faz ver todo o senso, imprecisa premissa,

definitiva preguiça

com que sobe, indeciso,

o mais ou menos do incenso.

Vila de Nossa Senhora

da Luz dos Pinhais,

tende piedade de nós

(1987, p. 59).


Em 2015, a Prefeitura de Curitiba publicou o guia turístico A Curitiba de Leminski 4. A sugestão do passeio (com direito à trilha sonora ao gosto do escritor) tem início na maternidade, passa pelos colégios, as casas onde Leminski morou com os pais e irmãos, a Biblioteca Pública e as livrarias, os cursinhos onde lecionou, o Instituto Neo-Pitagórico 5 , as residências que dividiu com Alice e as filhas, os restaurantes preferidos e os bares (também para almoços de domingo). Inclua os teatros onde se apresentou e a Pedreira que leva seu nome, encerrando o tour no Cemitério de Água Verde, onde basta “seguir pela rua principal” 6 para ler o poema da lápide: “Aqui jaz um grande poeta. Nada deixou escrito. Este silêncio, acredito, são suas obras completas.” A cidade incorpora o poeta que incorpora a cidade que incorpora a poesia.


Antes, cito Rodrigo Lopes (1996) para identificar Leminski como um sopro renovador da poesia brasileira; depois, transcrevo “Imprecisa premissa” para contextualizar um dos fazeres do poeta do Pilarzinho, que é tirar “poesia da pedra”, como também fez em “Litogravura” (1987, p. 52). Metaforizada, Curitiba nos permite entender um pouco mais da arte e do engenho em Leminski.


Ao ser a voz da aldeia (onde o “fazer privado” é inundado por correntes de vida, segundo Benjamin), ocupou-se do paideuma universal e educou-se “na pedra filosofal da poesia concreta”, conforme Haroldo de Campos (1983); mas foi além, tornando legível o que ainda hoje é lido com olhar desconfiado. Em sua lírica preguiça de malandro, incorporou a agudeza e a leveza do Oriente, mixando mistérios extremos com algumas manifestações suburbanas da capital paranaense – ladainhas e cantilenas no cotidiano sem surpresas, como quem pede piedade em sua espiral indecisa, sobre a qual se desenvolve o raciocínio e a identificação com a cidade.

Para encerrar essa breve leitura, entendemos seu olhar sobre capital do Brasil como a manifestação de um “estado de espírito” diante das ruínas de um sonho coletivo.


Em Brasília, admirei.

Não a niemeyer lei,

a vida das pessoas

penetrando nos esquemas

como a tinta sangue

no mata borrão,

crescendo o vermelho gente,

entre pedra e pedra,

pela terra a dentro.

Em Brasília, admirei.

O pequeno restaurante clandestino,

criminoso por estar

fora da quadra permitida.

Sim, Brasília.

Admirei o tempo,

que já cobre de anos

tuas impecáveis matemáticas.


Adeus, Cidade.

O erro, claro, não a lei.

Muito me admirastes,

muito te admirei

(1987, p. 39).


Além das ruas planejadas e de seus subterfúgios, Leminski enxerga a cidade por aspectos que destoam da linearidade arquitetônica e urbanística, mesmo que saiba o preço de “carregar uma cidade pelo lado de dentro” (1987, p. 96). Não isenta Niemeyer, mas se admira com o detalhe, com a plasticidade marginal, com o tempo que segue, com as pessoas que passam. São algumas das questões presentes em toda a poesia de Leminski, uma poesia feita com experiência e estudo, não apenas como expressão sentimental, e que facilita a reorganização da maneira de entender o mundo (de) concreto que nos cerca.


Em Pilarzinho e em Brasília. Na Antártida, em Andrômeda, no Himalaia. Xanadu ou Shangrilá. Em todas, “quem sabe a chave / de um poema / e olha lá” (1987, p. 96). Uma pista, dada por quem escrevia porque precisava, porque amanhecia, porque as estrelas no céu lembravam letras no papel 7.


NOTAS

1 Leminski: o “samurai-malandro” é o título do livro publicado pela EDUCS em 2009, dez anos depois de sua morte, resultado de minha dissertação de mestrado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

2 Em Distraídos Venceremos, p. 70. Todos os poemas citados no texto fazem parte deste livro, de 1987.

3 Referência ao poema sem título da página 18 e da contracapa.

4 Edição trilíngue (português, inglês, espanhol), Coleção Roteiros Turísticos, com arte da capa do artista Claudio Seto (1944-2008), também reproduzida na Pedreira Leminski. Seto é um dos ilustradores que faz parte do livro Afrodite – Quadrinhos eróticos de Paulo Leminski e Alice Ruiz (Veneta, 2015), com histórias publicadas entre 1978 e 1979 pela Grafipar, de Curitiba, com traços de Marília Krul (1949-1989), Júlio Shimamoto, Flávio Colin (1930-2002), Rodval Matias, Mozart Couto, Eros Maichrowicz (1949-2013) e Itamar Gonçalves.

5 Templo simbolista, um dos locais preferidos por Leminski em sua adolescência, construído à semelhança de um templo grego e fundado em 1909 pelo poeta Dario Vellozo (1869-1937).

6 Depois seguir à direita, na quadra 86; o jazigo é o 20º e também fica à direita.

7 Em “Razão de ser”, p. 80.


REFERÊNCIAS

ALBUQUERQUE FILHO, Dinarte. Leminski: “o samurai-malandro”. Caxias do

Sul: Editora da Universidade de Caxias do Sul (EDUCS), 2009.

BENJAMIN, Walter. Rua de mão única – Obras escolhidas II. 5. ed., 1995.

Trad.: Rubens Rodrigues Torres Filho e José Carlos Martins Barbosa. São Paulo:

Brasiliense, 1997. 1. reimpressão.

LEMINSKI. Distraídos Venceremos. São Paulo: Brasiliense, 1987.

LOPES, Rodrigo. O ex-estranho explora presença e ausência. O Estado de S.

Paulo. São Paulo, 21 jun 1996, Caderno 2. Disponível em http://users.sti.com.

br/efres.Leminski/ensaio10.htm. Acesso em 25 jun 2000.



DINARTE ALBUQUERQUE FILHO é jornalista e

mestre em Letras-Literatura (UFRGS).


{n. 6 | outubro | 2018}

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