Paris II (1886) | JĂșlia Lopes
- {voz da literatura}
- 21 de jan. de 2024
- 5 min de leitura
{Na edição de A Semana de 2 de outubro de 1886, Ă© publicado o terceiro artigo de JĂșlia Lopes com impressĂ”es de sua excursĂŁo europeia. A escritora dĂĄ continuidade a sua crĂŽnica sobre Paris, iniciada na edição anterior de A Semana.}

PARIS
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Ainda a respeito de flores, contaram-nos este caso, que prova atĂ© que ponto os franceses as admiram, o quanto exploram essa admiração, fazendo-as, - inocentes vĂtimas - muitas vezes cĂșmplices dos seus delitos...
comerciais.
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Uma ocasião, dizia-nos alegremente um espirituoso companheiro de hotel; um amigo meu encomendou, num dos mais afamados restaurant, por alto preço, um almoço, que devia oferecer a uma elegante baronesa estrangeira, curiosa de ver bem Paris, e a seu marido, o barão, grande conhecedor e esmiuçador de todas as sutilezas do bom gosto. Que nada falte, recomendava ele; os pratos mais esquisitamente saborosos, as frutas mais raras, os vinhos e licores mais delicados...
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Foi tudo previsto, e estipulada a avultada soma de todas as gulodices que deviam figurar no almoço. O meu amigo retirou-se satisfeito, apesar de quase arruinado...
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Ao voltar à esquina lembrou-se, porém, de que se esquecera de alguma coisa, e voltando atrås recomendou
que se nĂŁo esquecessem de colocar na sala algumas flores.
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- Oui, Oui, monsieur, responderam-lhe rĂĄpida e cortesmente: e ele saiu tranquilo.
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A dizer a verdade tinha razĂŁo: uma mesa a que falte um ramo, Ă© como uma ave a que falte uma asa, observava a pessoa que nos contava essa histĂłria.
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No dia seguinte, Ă 1 hora, a loira e esbelta baronesa desabotoava as luvas, prendia num botĂŁo do seu corpete de veludo escuro Ă ponta do guardanapo, sentando-se na florida e elegante sala reservada do restaurant.
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Correu alegremente todo o tempo do almoço. Os pĂȘssegos e as uvas iam desaparecendo dentre as rendas das fruteiras, os vinhos das garrafas de cristal. O barĂŁo, bon causeur, dizia histĂłrias espirituosas; a baronesa mostrava-se divertida e o meu amigo contentĂssimo.
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Findo o almoço, separaram-se; os-estrangeiros dirigiram-se para o Bosque de Bolonha, o meu amigo para o comptoir.
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Depois de ter formulado um agradecimento muito lisonjeiro pelo bom serviço, pÎs sobre a secretaria a quantia estipulada na véspera[1].
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- PerdĂŁo, notou o secretĂĄrio, o Sr. esqueceu as flores...
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- Ah! sim... e as flores?
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Custaram-lhe tanto... respondeu no tom mais natural le maĂźtre d'hotel.
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O meu amigo soube então que as flores que haviam perfumado e alegrado, que perfumavam e que alegravam, que perfumariam e alegrariam ainda durante toda a tarde a elegante sala cor de pérola do restaurant, eram duas vezes mais caras do que todos os pratos esquisitamente saborosos servidos no almoço, todas as frutas raras e todos os licores finos...
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Fechado este aparte voltemos a falar do fino e apurado gosto do povo francĂȘs.
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Era sempre um pĂșblico apreciador, expansivo, impressionĂĄvel o que vĂamos em frente aos belos modelos do Luxemburgo, aos inĂșmeros quadros
do Salon, as esplendidas e inolvidĂĄveis telas e estĂĄtuas do Louvre.
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O Louvre! oh! minhas amigas! se eu vos pudesse dar uma simples ideia do deslumbramento que ele me causou!
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Que brilhantismo de pinturas... que opulĂȘncia de mĂĄrmores!
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Ainda hĂĄ bem poucos dias alguĂ©m, cujo espĂrito Ă© muito superior ao nosso, considerava-nos, numa adorĂĄvel carta, felizes por termos aĂ contemplado a VĂȘnus de Milo.
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A encantadora VĂȘnus!
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HĂĄ tanta sedução para o espĂrito, hĂĄ tanto enlevo, tanto, que o tempo em Paris passa com uma rapidez vertiginosa.
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Assistindo no sucesso de Gayarre na Grande Ăpera, ou contemplando o majestoso tĂșmulo de NapoleĂŁo I nos InvĂĄlidos; passando uma hora no cafĂ© cantante dos Embaixadores, ou admirando concentradamente a magnificĂȘncia de Notre Dame de Paris; passeando no Trocadero, o delicioso Trocadero, ou indo por entre as sepulturas do PĂ©re Lachaise, lendo os nomes dos escritores e mĂșsicos que amamos desde que os lemos; assistindo ao Excelsior no Eden theatre, ou penetrando nas catacumbas do Pantheon, onde Victor Hugo repousa coberto de flores; indo rio acima atĂ© ao risonho parque de St. Cloud, ou assistindo a um drama moderno; fazendo oração na Magdalena, ou vendo um espetĂĄculo do HipĂłdromo; caminhando nos boulevards e nas avenidas cheias de vida, de rumor de vozes e de alegria, ou entrando na Capela expiatĂłria; passeando nos belos Campos ElĂseos, ou nos jardins, onde as crianças riem alto, correndo, as senhoras fazem tricot, o sol brinca na relva por entre a ramaria e os cisnes deslizam mansamente na ĂĄgua; contemplando todos os esplendores da arte e esses alegres trechos da vida parisiense, instrui-se, educa-se a gente e sente, o que jĂĄ dissemos no princĂpio deste artigo: que nĂŁo vĂȘ todas essas coisas pela primeira vez.
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Numa ocasiĂŁo, em Buttes Chaumont, fizemos notar a uma amiga um quadro, dizendo-lhe: --Ă singular; jĂĄ vimos isto!
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Ela riu-se, e, fingindo acreditar, disse: - HĂĄ muitas fotografias de todos os recantos de Paris...
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- Mas as personagens?
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Contentou-se com encolher ligeiramente os ombros, sorrindo com a sua fina ironia... francesa.
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Em frente aos nossos olhos, perto de uma rocha escarpada do pitoresco jardim, riam alegremente trĂȘs raparigas novas. Uma tinha um livro aberto nos joelhos, outra bordava; a do lado esquerdo, mais iluminada do sol, nĂŁo prestava atenção a trabalho de espĂ©cie alguma, falando mais que as duas companheiras. A poucos passos delas uns operĂĄrios de blusa de riscado azul, bonet deitado para trĂĄs, cachimbo pendente do canto da boca, olhavam altivamente para os passeantes; um deles lia alto um jornal, recostando-se indolentemente num banco. Entre as raparigas e eles ia uma velha pobre, dando a mĂŁo a uma menina de cabelos castanhos e olhos inteligentes. Por um rasgĂŁo do chapĂ©u de sol passava um raio de luz, que tingia de uma cor amarelada a touca branca da velha...
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Sim, nĂłs jĂĄ viramos aquele quadro; mas em que pĂĄginas? Isso Ă© que nos nĂŁo lembrou na ocasiĂŁo.
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Talvez que a minha leitora se ria igualmente, e levante os ombros num gesto de desdenhosa incredulidade... a esta impressĂŁo tĂŁo ingĂȘnua e lealmente revelada. Mas, se tem lido algum livro em que venham descriçÔes da vida das ruas em Paris, se se tem interessado pela pobre avĂł que leva carinhosamente a netinha ao passeio, onde hĂĄ mĂșsica, onde os operĂĄrios Ă vontade se divertem conversando, onde as MamĂŁs levam os seus bebĂȘs para fazĂȘ-los respirar o ar perfumado e correr na areia, e onde as senhoras de vestido de seda sentam-se ao lado das de avental de chita, - se leu com atenção esses livros, hĂĄ de forçosamente compreender-nos.
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Quantas vezes nĂŁo se dĂŁo na vida real fatos extraordinĂĄrios com os quais nos parece haver sonhado jĂĄ?
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Como indecifråveis, respeitemos esses mistérios e calemo-nos por hoje a respeito de Paris, a bela, a encantadora capital, de que se não sai sem tristeza, sem verdadeira pena⊠de a deixar!
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Lisboa - 2 de Agosto de 1886.
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JĂLIA LOPES.
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[1] Em A Semana, este trecho foi publicado com falha no final do perĂodo, a saber: âDepois de ter formulado um agradecimento muito lisonjeiro pelo bom serviço, pĂŽs sobre a secretaria a quan- estipulado no vĂ©spera.â [sic]. Optamos, s.m.j., por registrar essa passagem como â... quantia estipulada na vĂ©spera.â
Fonte
A SEMANA [RJ, 1885-1895]. Ano 1886, Edição 092, p. 318-319. DisponĂvel na Hemeroteca Digital Brasileira, Fundação Biblioteca Nacional.

Projeto Memorial da Literatura. Revista Voz da Literatura. Janeiro de 2024. Notas, transcrição e revisão: Rafael Voigt Leandro.
Leia a segunda crĂŽnica de JĂșlia Lopes sobre sua viagem Ă Europa em 1886.
