O mito de Fausto




Recém-lançada pelas editoras da Unicamp e Ateliê Editorial, A trágica história do Doutor Fausto, do dramaturgo inglês Christopher Marlowe (1564-1593), ajuda a compreender como o mito moderno de Fausto foi retratado em importantes obras de diferentes autores, como Goethe, Thomas Mann, Fernando Pessoa e Guimarães Rosa.

A edição conta ainda com uma tradução do alemão da História do Doutor João Fausto (1587).

A revista {voz da literatura} convidou Luís Bueno, professor da UFPR e organizador do livro, para comentar tópicos relacionado à obra e ao mito literário de Fausto.




A TRÁGICA HISTÓRIA DO DOUTOR FAUSTO | Christopher Marlowe | Org. Luís Bueno | Trad. Luís Bueno, Caetano W. Galindo e Mário Frungillo | Editoras Ateliê Editorial e Unicamp | 2018

O INTERESSE DE LUÍS BUENO PELO MITO LITERÁRIO DE FAUSTO

Foi como leitor de literatura, e mais especificamente de poesia, ainda antes de pensar em me profissionalizar na área, que esse interesse surgiu. Posteriormente, o contato acadêmico com a tradução e com a literatura inglesa, que me levou ao Marlowe, completou o circuito. Acho difícil que um leitor viciado (ou apaixonado) no ocidente escape ao mito fáustico. Mais cedo ou mais tarde, seja como for, lendo Thomas Mann ou Guimarães Rosa, o interesse acaba surgindo, quase naturalmente. Até porque nos faz pensar na forma como a gente se vê como indivíduo no nosso tempo.


QUANDO COMEÇOU O PROJETO DE TRADUÇÃO

O pontapé inicial aconteceu em 2002 e teve a forma de uma provocação feita pelo meu orientador de mestrado na Unicamp, Eric Mitchell Sabinson. Como há muito pouca coisa do teatro elisabetano traduzida no Brasil, ele me “intimou" a traduzir algum texto relevante do período para um projeto na altura ainda vago de publicação. Marlowe foi o primeiro nome que me surgiu à mente e logo me propus a traduzir o Fausto, por vários motivos: pela beleza do texto, pelo desafio que traduzi-lo representaria, pela força das dúvidas que provoca no leitor, por sua posição histórica estratégica. Enfim, havia muitos motivos para traduzir a peça e nenhum para não traduzi-la.


SE A TRADUÇÃO É INÉDITA EM LÍNGUA PORTUGUESA

É sempre um pouco temerário fazer afirmações nesse campo (muitas vezes descobrimos traduções que quase ninguém conhece feitas há muito tempo). De toda forma, até onde eu tenho notícia, A Trágica história do Doutor Fausto de Marlowe tem duas traduções portuguesas, mas jamais havia sido traduzida no Brasil. Por aqui se publicaram uma dessas traduções portuguesas e algumas versões adaptadas, não traduções propriamente ditas. Já o texto alemão, a História do Doutor João Fausto, ainda não tinha uma tradução para o português.


O PROCESSO DE TRABALHO COM OS TRADUTORES CAETANO GALINDO E MÁRIO FRUNGILLO, BEM COMO COM A AUTORA DO PÓSFACIO, PATRÍCIA DA SILVA CARDOSO

Foi um processo muito agradável e muito enriquecedor. Na verdade, o caráter coletivo e o espírito de camaradagem e colaboração moldou o projeto. O grupo foi se constituindo aos poucos, já a partir daquele pontapé inicial em 2002. Eu conhecia o Caetano Galindo desde 1996, que foi meu primeiro ano como professor na Universidade Federal do Paraná - e ele era aluno no finalzinho da graduação. Logo depois se tornaria meu colega de departamento. Portanto já sabia do interesse dele pela tradução. Além disso, ele havia publicado um pouco antes os “Primeiros poemas do Fausto", prova de seu interesse pelo tema. Por isso pensei em convidá-lo para fazermos o trabalho juntos, e ele aceitou de pronto. Assim, passamos boa parte do ano de 2002 nos reunindo semanalmente para fazer a tradução. Já minha relação com o Mário Frungillo e com a Patrícia da Silva Cardoso é mais antiga - nos conhecemos na graduação, em 1984. Rapidamente amadureceu a ideia de que o livro poderia ser mais do que a tradução do texto do Marlowe, o que em si já seria legal, mas poderia ser algo mais, um retrato, por assim dizer, do nascimento do mito fáustico. Por isso convidei o Mário para traduzir o texto alemão, e ele começou a trabalhar imediatamente. Para dar maior densidade crítica ao volume, era importante fornecer ao leitor uma reflexão mais ampla sobre o tema. Para isso convidei a Patrícia, que tinha trabalho sobre o tema e sobre o Fausto do Fernando Pessoa. Para finalizar, acrescentei uma introdução e uma nota sobre a tradução inglesa do livro alemão de 1587, que o Marlowe leu. Com isso acho que conseguimos, juntos, reunir um material que pode ser útil.

O QUE GANHAM OS LEITORES COM ESSA TRADUÇÃO DOS TEXTOS FÁUSTICOS

Nossa ideia foi a de colocar ao alcance do leitor brasileiro um conjunto de textos que fundou um dos grandes temas da literatura moderna do Ocidente. A abordagem dos vários desenvolvimentos posteriores desse tema, de Goethe aos autores do século XX pode ficar muito mais rica e matizada. Esse leitor, com acesso aos textos, poderá avaliar por si mesmo as transformações que se operaram no tema. Nossa esperança é a de que o livro consiga realizar essa tarefa, e é por isso mesmo que me parece que ele pode ser útil. Ler o Fausto do Goethe ou o de Pessoa, por exemplo, pode ser uma experiência intelectual ainda mais marcante se os localizamos no interior de uma tradição da qual eles participam e que eles redefinem.


{n. 9 | jan. | 2019}






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