No cangote do Saci: lendas do Brasil


Maria Amélia Dalvi é escritora e professora da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Daniel Kondo é ilustrador e autor de livros infanto-juvenis, com longa trajetória. A {voz da literatura} convidou Maria Amélia Dalvi e Daniel Kondo para contar aos leitores da revista o processo de criação de No cangote do Saci: lendas do Brasil, lançado em 2018.

DANIEL KONDO E MARIA AMÉLIA DALVI:


Nosso livro No cangote do Saci: lendas do Brasil, publicado no segundo semestre de 2018 pela Kondo Studio, apresenta às crianças 10 lendas brasileiras, por meio da correlação entre texto poético, texto informativo em prosa, ilustração e projeto gráfico-editorial que convida à manipulação ativa e criativa. O trabalho é fruto de uma exaustiva pesquisa que realizamos, tanto sobre diferentes narrativas populares brasileiras, quanto sobre representações visuais ou imagéticas das personagens dessas narrativas.


Considerando a diversidade de fontes com que trabalhamos, de saída percebemos que tanto a descrição das personagens quanto a sequência de eventos narrativos é, em diversos casos, múltipla e até mesmo conflitante. Longe de criar uma dificuldade ou de mobilizar em nós uma postura normativa (de encontrar a versão “correta” e “oficial”), essa constatação nos deu gana de compor e apresentar as personagens à maneira de um mosaico. Foi um prazer, para nós, trabalhar nessa (re)descoberta e na reinvenção de tantos possíveis para histórias que – supúnhamos – estavam consolidadas.


Juntos, em diálogo com a editora Vanessa Gonçalves, definimos um corpo que nos parece representativo de distintas regiões e que alterna entre histórias muito conhecidas no país todo e outras mais regionalizadas. Foi muito difícil fazer a escolha e decidir quais lendas permaneceriam – deixamos de fora diversos textos, versões e imagens pelos quais nos apaixonamos no processo.


O livro traz um poema de abertura, que convida o leitor a adentrar o universo das rodas de história, entre o entardecer e o anoitecer. Desejamos recriar um pouco esse clima, pois entendemos que a experiência da oralidade e do encontro com os outros é fundamental na constituição como leitor. Pensamos que, de um lado, é importante para o leitor-criança não apenas conhecer as lendas, mas saber também que eram contadas oralmente, de geração em geração; de outro lado, é importante para o leitor-adulto, que medeia a relação da criança com o livro e com as lendas, reviver a sua memória infantil.



Após este poema de abertura, na primeira parte, o leitor conhece e familiariza-se com as 10 personagens centrais (Curupira, Boto Rosa, Capelobo, Cobra Norato e Maria Caninana, Boitatá, Iara, Cuca, Pássaro de Fogo, Barba Ruiva e Saci), por meio de um processo lúdico: numa engenhosidade do design gráfico, o leitor manipula e recombina sequências de 3 lâminas de papel que contêm as sílabas dos nomes das personagens e partes de seu corpo (cabeça, tronco e membros). Já na segunda parte, o leitor lê em páginas duplas o texto informativo e o poema, ilustrados, que são dedicados a cada uma das lendas protagonizadas pelas personagens da primeira parte.


Para nós, ficou claro, desde o início, que as lendas existem como um processo coletivo, sendo preservadas e recriadas à medida que são passadas de uma geração para outra; assim, constituem-se e são constituídas histórica, social e culturalmente: nesse sentido, foi uma honra participar desse processo tão longo, tão forte, tão bonito. Ao mesmo tempo, as lendas cumprem para cada indivíduo singular um papel importante, ao ajudar a elaborar temas e questões difíceis, que mobilizam dúvidas, incertezas, desejos, angústias humanas; no caso de lendas brasileiras, mobilizam questões atinentes à formação de nosso país e do nosso povo. Por isso defendemos que devam ser apresentadas às crianças, mesmo as bem pequenas – e, ao mesmo tempo, entendemos que são uma oportunidade para os adultos olharem de novo as histórias que lastreiam o Brasil.


A nossa opção por evidenciar a existência de múltiplas origens e versões das distintas lendas e de permitir que o leitor também participe desse jogo criativo ativamente tem relação com a nossa compreensão de que a literatura participa do processo de humanização, ao nos colocar em contato com a complexidade, a variabilidade e beleza do mundo, da vida, dos seres (reais ou imaginários). Além disso, entendemos que a literatura cumpre um papel fundamental ao nos apresentar possibilidades múltiplas de ser, de pensar, de sentir, ou seja, de produzir continuamente novos sentidos para tudo.




Na seleção das lendas e personagens que comporiam a publicação, adotamos critérios. O primeiro deles foi que privilegiaríamos personagens que têm relação com a natureza... Isso em função da preocupação com o momento atual, em que recursos naturais imprescindíveis à vida no planeta têm sido destruídos pela ganância e desinformação. O segundo critério, como já sinalizamos logo no início de nosso depoimento, foi que as personagens contemplassem diferentes origens e regiões do país, de modo que tanto as crianças se sentissem representadas pelas lendas já conhecidas, quanto enriquecessem seu repertório com novas lendas. O terceiro critério foi que assegurássemos personagens do gênero feminino, pois, segundo nosso trabalho de pesquisa, na maior parte das publicações análogas as personagens femininas são pouco ou nada presentes. O quarto critério foi a diversificação das questões psíquicas de fundo nas diferentes lendas. O quinto critério foi, enfim, nosso gosto pessoal: porque – é preciso confessar! – nos divertimos muito juntos, produzindo este livro.


Patrimônio coletivo de um povo que viveu processos complexos, difíceis e mesmo violentos, as lendas e personagens populares brasileiros trazem elementos ora cativantes e enternecedores, ora surpreendentes, ora divertidos, ora assustadores – como, ademais, ocorre nas narrativas tradicionais em quase todas as culturas do mundo. Em consonância com o acúmulo histórico dos estudos em crítica cultural, infância e formação do leitor, entendemos que contribui enormemente para a formação das crianças o contato mediado com elementos simbolicamente elaborados. Assim, esperamos que o fruto de um trabalho conjunto de muitos meses proporcione às crianças (e aos adultos!) ricos momentos de diversão, prazer, surpresa e reflexão.


{n. 9 | janeiro | 2019}





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