Milton Santos: uma leitura do Brasil

Atualizado: Mar 19

Quase vinte anos após a morte do geógrafo Milton Santos, há ainda muito o que se ler sobre o Brasil em suas obras. Quase vinte anos após a morte do geógrafo Milton Santos, há ainda muito o que se ler sobre o Brasil em suas obras.



Para muitos, Milton Santos é considerado o maior geógrafo brasileiro. A afirmação, embora envolta em aparente torneio intelectual, poderia ser refeita, para constar que, se ponderarmos a contribuição de Milton no campo da geografia humana, ele poderia ser colocado entre os maiores geógrafos do último século.


Milton Santos pertence a uma geração de pensadores brasileiros que despontou nos anos 1950 e que "redescobriu" o Brasil: Celso Furtado, Caio Prado Jr., Antonio Candido, Darcy Ribeiro, Paulo Freire.


Milton nasceu em 1926, no município de Brotas do Macaúbas, na Chapada Diamantina, na Bahia.


Filho de professores da escola primária, Milton, além da formação em geografia, bacharelou-se em Direito nos anos 1950. Foi no final dessa década, em 1958, que defendeu sua tese de doutorado em Estrasburgo: Le centre de la ville de Salvador. Étude de geographie urbaine (O centro da cidade de Salvador: estudo de geografia urbana), vertida para o português e publicada em livro no ano seguinte.


Entre 1954 e 1964, contribuiu para o jornal A Tarde com mais de cem artigos sobre a zona do cacau e a cidade de Salvador.

Em 1961, atuando no gabinete da Casa Civil de Jânio Quadros, participou de visita a Cuba.


Com o golpe militar de 1964, partiu para um exílio de 13 anos, período em que lecionou em diversas universidades estrangeiras, na França, EUA, no Peru, na Tanzânia, entre outros países. Com essa experiência internacional, como um cidadão do mundo, amplia sua teorização em geografia humana, pelo contato com diferentes realidades, pesquisadores e ideias.


Em seu retorno ao Brasil, em 1977, atuou na UFRJ. Depois, de 1984 até o ano da sua morte, em 2001, lecionou na USP.


Boa parte de sua obra continua em catálogo e vem sendo publicada pela Editora da Universidade de São Paulo em coleção que leva o seu nome.



Em 1994, foi agraciado com o prêmio Vautrin Lud, espécie de Nobel da Geografia. Merece ainda menção o fato de Milton ter sido condecorado Doutor Honoris Causa por universidade no Brasil e no exterior. Todos esses títulos reforçam o desejo de considerar Milton “o maior geógrafo brasileiro”. Serenamente, o próprio professor Milton Santos dispensaria essa alcunha.


Milton e a urbanização brasileira


Milton Santos muito escreveu e teorizou sobre o espaço geográfico, com propostas e perspectivas das mais originais, de modo que a leitura e a releitura de suas obras deveria constituir esforço não só de geógrafos de formação, mas de todos aqueles afeitos às humanidades. Milton não ensina somente geografia, ensina sobre a vida e sobre o funcionamento e a história do Brasil e do mundo.


Um exemplo disso é seu livro A urbanização brasileira (1993). Urbanização é um dos grandes temas para o qual dedicou vários trabalhos.


O livro em questão tem, de certo, a marca de seu tempo, como não poderia deixar de ser, mas tem principalmente as marcas de um expressivo intelectual. Sua grandeza mede-se não somente por resistir à passagem dos anos, mas pela relevância dos assuntos trabalhados por Milton Santos.


Pode-se dizer que A urbanização brasileira é um convite para "redescobrir" o Brasil. É possível saber desde um histórico conciso das características de nossas cidades, bem como perceber a explosão urbana a partir da década de 1940, com seus impactos na populações urbana, agrícola ou rural. Milton, geralmente, situa sua análise entre os anos pós-guerra e a década de 1980.


Milton estuda o fenômeno da metropolização, mas também da desmetropolização, com a ascensão de cidades médias brasileiras.


O eixo Rio-São Paulo, eixo da metropolização concentrada, pode ser compreendido comparativamente com o processo de urbanização de outras cidades do Norte (Belém e Manaus), Nordeste (Fortaleza), Centro-Oeste (Brasília, Goiânia, Cuiabá) e do Sul (Porto Alegre).


Milton não se restringe a trabalhar com dados estatísticos de sua época, avança no sentido de oferecer seu contributo para o pensamento do espaço geográfico brasileiro, observando a revolução tecno-científica-informacional e seus efeitos no destino das cidades:


Esse meio técnico-científico (melhor será chamá-lo de meio técnico-científico-informacional) é marcado pela presença da ciência e da técnica nos processos de remodelação do território essenciais às produções hegemônicas, que necessitam desse novo meio geográfico para sua realização. A informação, em todas as suas formas, é o motor fundamental do processo social e o território é, também, equipado para facilitar a sua circulação. (p. 38)


Mesmo antes da popularização e domesticação da internet, ou do estágio do que se chama de "internet das coisas", Milton antevê a força da alta informatização sobre a formação das cidades e sobre sua população.


Esse olhar do autor de A urbanização brasileira antecipa um tema do qual ele se ocuparia em seus últimos trabalhos: a globalização.


Milton Santos também dá boas lições sobre a lógica capitalista das cidades, em que se pode categorizar as cidades na dialética entre cidades econômicas (como centros financeiros) e cidades sociais (em que se cuida das condições de vida de seus habitantes). Pela presença do capital monopolistas, quase sempre a visão para “cidade social” fica aquém das expectativas do povo que as habita e impera a "cidade econômica".


No capítulo final de A urbanização brasileira, ao analisar as tendências da urbanização brasileira no final do século 20, nos diz Milton:


(...) Essa é uma pergunta crucial: como será o trabalho nos próximos anos? Da forma como ele for, dependerá a forma como a urbanização se dará, porque aí pode estar a semente de nova consciência política. Ora, a vontade política é o fator por excelência das transfusões sociais. Nesse particular, as tendências que a urbanização assume neste fim de século aparecem como dado fundamental para admitirmos que o processo irá adquirir dinâmica política própria, estrutural, apontando para uma evolução que poderá ser positiva se não for brutalmente interrompida. (p.139-140)


Chega-se ao final da leitura de A urbanização brasileira com a precisa sensação de que Milton não escreve apenas para geógrafos, e, sim, para todos que, em alguma medida, se preocupam com as transformações e os conflitos inerentes à vida em sociedade.


* RAFAEL VOIGT, editor da {voz da literatura}

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