Lulu e o urso



edição n. 8 | dezembro | revista voz da literatura

Carolina Moreyra e Odilon Moraes lançaram, neste ano, pelo selo Pequena Zahar a obra Lulu e o urso. A história se desenrola a partir de uma pergunta insistente da filha, que interrompe a mãe que está em seu escritório trabalhando em frente ao computador: “Mamãe, o que é isso?". Pode parecer simples, mas a pergunta e as coisas às quais ela se refere confrontam o lugar do adulto imerso no mundo do trabalho e da criança mergulhada em seu mundo de fantasia.


Carolina e Odilon venceram os prêmios Jabuti e FNIJ em 2016 com o livro Lá e aqui, também publicado pela Pequena Zahar. A revista {voz da literatura} convidou Carolina Moreyra para contar aos leitores sua trajetória na literatura infanto-juvenil, bem como o processo de criação de Lulu e o urso.


CAROLINA MOREYRA:





Entrei na literatura infantil pelos acasos da vida. Sempre gostei de contar histórias, e por isso acabei estudando cinema. Logo depois conheci o ilustrador Odilon Moraes, com quem hoje sou casada. Conversávamos bastante sobre as semelhanças entre o cinema e o livro ilustrado, os dois construídos a partir de imagens e palavras, os dois como um trabalho em equipe feito a muitas mãos. Essas conversas acabaram me levando à escrita, e assim foram nascendo os livros.


Pelo menos até agora, acho que sou uma escritora de livros ilustrados. Quando a gente escreve sabendo que as imagens vão estar nos acompanhando, as palavras acabam saindo um pouco diferente. Os cenários e as relações espaciais não precisam ser ditas, assim como as características físicas dos personagens, já que seu contexto está dado pela imagem. Isso gera uma economia de palavras e, quando elas surgem, ganham força. Não são só as palavras que contam a história, nem apenas as imagens, mas o que passa a existir entre as duas.


Além das palavras e das imagens ainda temos o livro. Dentro dele as páginas em seqüência criam a idéia de tempo: uma página depois da outra, um tempo depois do outro. Só falta o leitor para colocar o livro em movimento e juntar as palavras e as imagens recriando a história dentro de sua cabeça.


Um livro assim nasce da parceria não só do escritor e do ilustrador, mas também do designer e do editor, da gráfica que imprime o livro, da livraria que vende para o leitor. Existe uma cadeia de relações onde cada um contribui para que o livro saia da melhor maneira, já que é ele, o livro, que conta a história.


Foi pensando assim que o Lulu e o Urso veio ao mundo, mais uma parceria minha com o Odilon. As idéias para os livros surgem para mim de um olhar atento sobre o cotidiano, as relações, as coisas do mundo. Com esse livro não foi diferente. Eu tinha acabado de mudar de casa e estava cheia de coisas pra fazer, ocupada com e-mails e trabalho no computador. Minha filha Luísa ainda era bem pequena e brincava por perto, tirando coisas das caixas que ainda faltavam arrumar. Tudo ela me perguntava - o que é isso? Pra que serve isso? E eu atrapalhada nem conseguia responder direito, focada que estava com as minhas coisas. Foi então que parei e pensei que ela também estava focada naquilo que fazia. Dentro da cabecinha dela um mundo estava acontecendo. Parei pra observar e ela nem me deu bola, continuou na sua brincadeira. As vezes nós adultos nos antecipamos e intervimos como se a criança precisasse da gente atenta a elas o tempo todo. E isso não é bem assim. Fiquei com aquilo na cabeça e uns dias depois escrevi o texto.





Queria que o livro mostrasse a relação das duas e que o leitor tirasse as suas próprias conclusões. Então só precisava mostrar o que acontecia com uma e com a outra, os dois universos coexistindo paralelamente. Não precisava dizer: enquanto a mãe trabalhava no computador, Lulu mexia nas caixas ao seu redor. Pegou uma coisa e apontou para a mãe: - mamãe o que é isso? Bastava colocar o dialogo e as imagens se encarregariam de mostrar todo o resto. As cenas da fantasia nem precisavam de palavras, as imagens davam conta de tudo. Não era um mundo verbal, o mundo verbal era o da mãe.


O mundo da fantasia era o mundo da Lulu. Ele deveria acontecer em seu próprio espaço. O Odilon organizou isso distribuindo as imagens nas páginas. Temos então na seqüência o objeto inanimado, a cena da mãe com a filha, o objeto com vida na imaginação da menina, e então o novo objeto inanimado aparece. Assim, objeto inanimado e objeto re-significado ficam lado a lado, criando um ritmo e um jogo constante que pode ser compreendido e antecipado pelo leitor. Esse ritmo só se quebra no final quando a mãe fala: será que posso trabalhar agora? E então Lulu já não precisa mais dela.


Achei muito interessante as respostas que tive de diferentes leitores depois do lançamento do livro. As mães se enxergam na história e algumas vezes a culpa aparece. Já as crianças nem dão bola pra mãe trabalhando. Se divertem com a transformação do real no imaginário.


{n. 8 | dezembro | 2018}





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