Em busca de pontes entre leitura e cultura

Uma reflexão sobre o livro infantil e juvenil na contemporaneidade



por Eliane Aparecida Galvão Ribeiro Ferreira



[...] sem questionar as condições culturais a que está submetida a criança [e o jovem], sem relacionar a promoção da leitura e tais situações, parece difícil criar condições que facilitem a descoberta de pontes entre leitura e cultura, ou seja, entre leitura e o universo de relações, valores, objetos, concepções que sobrevivem à nossa precariedade – o mundo.

Edmir Perrotti (1990, p.99)


A consolidação das redes sociais e da mídia deveu-se às inovações tecnológicas da sociedade pós-industrial que favoreceram à mundialização da cultura, da comunicação social e formaram a infraestrutura material. Para Renato Ortiz (2006), a articulação entre ciência e tecnologia implica em transformações profundas no setor produtivo, criando novas classes sociais e padrões de racionalidade. As novas tecnologias incidem diretamente sobre as noções de tempo e espaço, estimulando a integração e a sincronia. Desse modo, com a microeletrônica, a codificação e a transmissão das mensagens adquirem um caráter de transversalidade. Assim, um evento remoto torna-se próximo, contudo, o que nos rodeia pode estar afastado.


De acordo com Zygmunt Bauman, o tempo já não estrutura o espaço, ele perdeu sua característica de vetor, pois inexistem os conceitos de para frente ou para trás, “o que conta é exatamente a habilidade de se mover e não ficar parado (1998, p.113).” Prevalece a ideia de adequação do indivíduo, como capacidade de se mover rapidamente para onde a ação se encontra. Nesse contexto, toda memória cultural é posta em choque. Assim, qualquer tomada de decisão que demande reflexão e, por isso, implique certa demora, perde seu significado, pois não há tempo algum como seta para medi-la. Por consequência, as relações humanas se estabelecem sob a forma de um jogo curto que significa tomar cuidado com compromissos a longo prazo e fixar-se a um lugar, e/ou a uma vocação apenas. Produz-se a sensação de que de posse do meio – mídia – para se comunicar, todo sujeito é capaz de fazê-lo e dispõe de competência para isso. Não importa se há domínio de um campo específico, interessam as impressões pessoais. Assim, o que afeta um indivíduo, suas crenças e experiências – a sua verdade – deve ser posto em verbo, atuando como guia para os que ainda não tiveram a mesma “revelação” que ele.


Em relação aos livros infantis e juvenis, questiona-se e observa-se com lupa os que estão mais próximos, chancelados pela escola, por um programa pedagógico, por uma política pública de leitura e/ou por um professor ou mediador. O livro que adentra a casa pelas mãos do filho, sobrinho ou menor sob os cuidados de um adulto, pode representar uma ameaça. Conforme Peter Hunt, “para muitos leitores um livro tem tamanha autoridade que o simples fato de algo ser incluído nele confere-lhe marca de respeitabilidade. Há uma mística em torno do livro que aumenta na mesma medida que a competição entre outras mídias” (2010, p.203 – destaque gráfico do autor). A mesma percepção não ocorre em relação aos títulos dispostos em listas de “Os mais vendidos”, nem à produção cultural fílmica ou televisiva em canais abertos e fechados, com suas séries de elevada audiência. Esses produtos não representam ameaça alguma, antes configuram-se como desejáveis, pois sugerem uma forma de socialização, em que o indivíduo se sente incluído entre muitos sujeitos, partilhando de um mesmo universo de conhecimento proveniente da indústria cultural. Há nessa solidariedade do consumo uma integração do imaginário coletivo, às vezes, mundial, a qual confere certa ordem aos indivíduos e aos modos de vida, de acordo com uma nova pertinência social (ORTIZ, 2006).





Segundo Jair Ferreira dos Santos (1986), as sociedades pós-industriais, planejadas pela tecnociência (ciência aliada à tecnologia), programam a vida social dos indivíduos em todos os detalhes. Desse modo, embora a produção seja massiva, o consumo é personalizado, o sistema propõe e o sujeito dispõe. Há ofertas variadas de produtos, inclusive de livros, entre eles, pode-se escolher um, optar por um, entretanto, deixar de consumir, não se apresenta como opção. Nesse cenário contemporâneo de anonimato das grandes cidades e do capitalismo corporativo, as relações sociais pulverizam-se, deixando os indivíduos “soltos” na malha social (ORTIZ, 2001). Justamente, por isso, a sociedade inventa novas instâncias para a integração das pessoas. Entre elas, pode-se observar o emprego das redes sociais, como meio para diálogo e expressão de opiniões que se configuram, como forças reguladoras. Nesse contexto, a tradição, a pesquisa e a crítica tornam-se insuficientes para orientar a conduta, quem a norteia, então, são os canais de comunicação, oferecendo informações personalizadas de sujeitos que asseguram deter discernimento e, por causa dele, prometem segurança a quem lhes confere crédito. Assim, as opiniões veiculadas por essas redes assumem o caráter pedagógico de instâncias de socialização da cultura, capazes de determinarem, inclusive, no âmbito do livro, o que pode ser lido – é válido – e o que deve ser rechaçado – excluído, renegado.


Para Arnaldo Cortina, na eleição de uma obra pode ocorrer um processo de identificação “o leitor lê aquilo que julga ser sua própria verdade ou, arriscando mais ainda, aquilo que ele deseja ouvir (ler) para reafirmar sua verdade” (2006, p.30). Em síntese, as questões individuais passam a constituir o horizonte de expectativa do homem urbano da sociedade contemporânea. Por consequência, obras que põem em choque uma visão única de mundo ou de “verdade” devem ser evitadas e/ou suprimidas de qualquer forma de acesso. Pela observância dos meios de comunicação, muitos leitores constroem seus julgamentos, a partir de notícias e/ou informações retiradas das redes sociais. Aliás, algumas delas tornam-se virais, como as que se pautam pela condenação de obras pela temática, pelo emprego da linguagem, pelo conteúdo ideológico, pela estruturação da trama, pelo desfecho da narrativa, entre outras características.


Em consonância com Hunt (2010, p.267), “Qualquer valor atribuído ao texto deve ser entendido, então, como sendo especificamente um dentre três tipos: cultural, pessoal ou educacional; e nenhum deles deve ser privilegiado.” Se para o crítico (2010, p.267), resulta desse processo social de julgamento o fato “libertador” de que a literatura infantil, e pode-se incluir também a juvenil, tenham atingido status semelhante a de outra literatura, isto não impede a constatação de que a importância de um texto é igual a de qualquer outro, até que se aplique sobre ele um desses três sistemas de valor. Justamente, a principal justificativa para a exclusão dessas obras do universo de leitura de crianças e jovens refere-se ao desconforto causado aos seus pais e/ou responsáveis. Esse sentimento advém da constatação de que, embora a literatura possua, conforme Antonio Candido, força humanizadora, “é artificial querer que ela funcione como os manuais de virtude e boa conduta” (2002, p.83).


Vale destacar que a sensação de prazer – obtida pela leitura de um livro que atende aos horizontes de expectativa do leitor, produzindo-lhe a sensação de familiaridade e de conforto, ainda, por ser facilmente compreendido, a de consolo – não é visada pela obra literária. A obra dotada de valor estético busca exatamente o desalojar de seu leitor, pelo rompimento de seus conceitos prévios, a fim de levá-lo à ampliação de seus horizontes de expectativas. Nesse contexto, a leitura corre o risco de se esgotar em um uso utilitário, associado à esfera da produção, da necessidade. Desse modo, afasta-se dos interesses e desejos dos jovens, e dificilmente consegue ser vista como ato verdadeiramente cultural. Por consequência, o jovem adquire um repertório cultural reduzido, constituído basicamente de referências provenientes de seu mundo privado, em que prevalecem os interesses da vida sobre os do mundo (PERROTTI, 1990). Em tais condições, os produtos culturais são forjados como construção, destinados a modelar o real, e não a dialogar com ele, em um percurso contrário ao que se busca durante o desenvolvimento de um trabalho com a formação do leitor crítico.


Assim, segundo Perrotti (1990), nega-se ao jovem e à criança a experiência direta da multiplicidade. Em troca, o modelo cultural propõe-lhe atos linguísticos cujos referentes são outros atos linguísticos, sem condições de se confrontar com o real: “propõe-lhe a linguagem transformada em labirinto sem saída, em espelho que reflete sempre as mesmas imagens, num jogo narcisista cada vez mais emaranhado, complexo e inconcluso” (1990, p.98-9). Conforme Santos (1986), o exagero narcisista do individualismo é um acréscimo da sociedade pós-industrial, mobilizada pelo consumo e pela informação. Aliás, o tipo de consumo é um dos fatores que difere a sociedade industrial da pós-industrial, a primeira consome bens materiais; a segunda, serviços, sob a forma de informações e possibilidades de comunicação (por diferentes meios). Na sociedade pós-industrial, a capacidade de se expressar pelas redes sociais é apresentada como exercício de cidadania. Logo, nesses espaços, o indivíduo exerce a sua “liberdade”, firmando sua individualidade. Nas redes, ele se identifica com outros sujeitos, quanto ao padrão de comportamento e de valores, formando assim um “nós”.


Pelo exposto, pode-se notar que o repúdio de alguns livros na sociedade contemporânea não decorre somente de um precário funcionamento do sistema cultural – cujas pontes entre leitura e cultura estão, muitas vezes, obstaculizadas –, o qual atinge a infância e a juventude, mas também do âmbito social e político. Apesar de existirem algumas generalizações sobre livros infantis e juvenis, os conceitos de criança e de jovem são inúmeros, aliás, “de uma casa para outra, e de um dia para outro” (HUNT, 2010, p.291). Em síntese, como bem afirmou Bauman (2003), em um mundo globalizado – sobretudo pautado pelas redes sociais –, o destino do livro não depende apenas das tecnologias de impressão, nem pode ser explicado somente por elas ou por sua relação com o mercado editorial, ele está condenado a compartilhar da mesma sorte das sociedades a que pertence.


Referências

BAUMAN, Z. O mal-estar da pós-modernidade. Trad. Mauro Gama, Cláudia M. Gama. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.

CANDIDO, A. A literatura e a formação do homem. In: ______. Textos de intervenção: seleção, apresentação e notas de Vinicius Dantas. São Paulo: Duas Cidades; Ed. 34, 2002.

CORTINA, A. Leitor contemporâneo: os livros mais vendidos no Brasil de 1966 a 2004. Araraquara, 2006. 252p. Tese (Livre-Docência em Linguística) – Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara, Universidade Estadual Paulista.

HUNT, P. Crítica, teoria e literatura infantil. Trad. Cid Knipel. São Paulo: Cosac Naify, 2010.

ORTIZ, R. A moderna tradição brasileira: cultura brasileira e indústria cultural. 5.ed. 4.reimpr. São Paulo: Brasiliense, 2001.

PERROTI, E. Confinamento cultural, infância e leitura. São Paulo: Summus, 1990.

SANTOS, J. F. dos. O que é pós-moderno. São Paulo: Brasiliense, 1986.


Eliane Aparecida Galvão Ribeiro Ferreira é professora do Departamento de Linguística na Universidade Estadual Paulista (Unesp), Câmpus de Assis-SP.


{n. 7 | novembro | 2018}

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