top of page

De Paris a Madrid II (1886) | Júlia Lopes

{Última crônica de Júlia Lopes sobre sua viagem à Europa em 1886.  Foi publicada na edição de 13 de novembro de 1886 do periódico A Semana.}



DE PARIS A MADRID (conclusão)

 

À beira das calçadas de certas ruas estavam em exposição, à venda, talheres, lenços, jarras, ferraduras, fatos de homem, chalés, colchas, tesouras, rendas, panelas, alguidares, loiças; cofres, ferrolhos, e muitas, muitas coisas agrupadas aqui e ali, ao lado de uma mulher de touca e avental, ou de um homem de blusa, que sorriam aos transeuntes, convidando-os a comprarem os seus artigos, coisas já usadas, já mesmo velhas na sua maior parte. Num largo mais adiante, vendiam carros, animais, arreios, grandes molhos de vime, etc.

 

Era na igreja de St. Seurin, que mais brilho tinha a festa. À porta do templo umas mulheres vendiam velas e objetos de cera enfeitados com fitinhas escarlates e verdes; lá dentro, o povo aglomerava-se confusamente. As mães e as amas, com os seus grandes laçarotes de seda na cabeça, levavam as criancinhas para as porem, um momento ao menos, sobre o túmulo de St. Fort, o que, é de fé para elas, que tão cheios de candura creem na lenda, dará às suas pequenas e mimosas criaturas, força no corpo e no espírito, para a vida inteira!

 

Era tal a confusão, tanta a gente, que não logramos aproximar-nos do túmulo do milagroso santo: voltamos, passando com dificuldade por entre as mães ansiosas de chegarem ao sítio onde dorme o lendário St. Fort, e as que vinham radiantes por de lá trazerem os seus amados filhinho.

 

 

No largo, em frente, grande e belo mercado de flores. Entre as barracas brancas, de lona, passava a chilreadora romaria das crianças, com direção à igreja.

 

Demoramo-nos aí. As senhoras bordelesas, vindas da missa, compravam vasos do pensées, de petúnias e de roseiras floridos, e entrando nas suas vitórias descobertas partiam rodeadas de flores. Os ramos, aninhados nuns cartuchos de papel branco, aromatizavam suavemente o ar.

 

Este quadro tinha um encanto indizível e poético que nos sensibilizou. Crianças e flores, à luz de uma manhã serena, a confundirem-se entre risadas e perfumes! Quem se não sentiria agradavelmente comovido?

 

Ninguém…

 

Não esperávamos gostar tanto de Bordeaux, confessamos. E essa boa impressão seria devida a tê-mo-la visitado num dia excepcional de regozijo popular, em que tudo se patenteia risonho e feliz?

 

Não sabemos. O que é certo o que lá passamos um domingo delicioso, que não nos há de esquecer nunca.

 

 Quando embarcámos para Bayonna, onde deveríamos chegar em poucas horas, entraram para o nosso wagon quatro bordeleses - dois velhos e dois rapazes. Os velhos, negociantes de vinho, falavam do seu comercio comunicativamente. Um dos rapazes lia silencioso a um canto, o outro fazia vibrar em cada estação, na sua trompa luzente de metal amarelo, uma sonora ária de caça, voltado para a floresta que margeávamos e onde haviam de ouvi-los os caçadores que perseguiam na mata as lebres e as perdizes. O sol dourava as copas do arvoredo, onde a passarada gorjeava doidamente.

 

Belo trecho da viagem esse. A fadiga não teria tempo de se apoderar de nós. Chegamos a Bayonna sem cansaço. Na estação próxima soava estridulamente uma marcha tocada com valentia por uma banda. O povo juntava-se ao redor de um arco de cavalinhos de pau; os gritos e as risadas repercutiam-se estrondosamente.

 

Em Bayoma tudo era silêncio.

 

Passeamos depois do jantar pelas ruas principais o recolhemo-nos de novo ao hotel, onde passámos a noite, a última noite dormido em França, o agradável e encantador país!

 

No outro dia de manhã tomávamos o comboio para Espanha.

 

Em pouco tempo achamo-nos na terra das malagueñas e seguidilhas, onde gira o pandeiro veloz e estalam requebradamente as castanholas.

 

Logo na primeira estação invadiu-nos o wagon um bando de padres faladores (para padres e soldados a Espanha!) que estiveram todo tempo a elogiar a suntuosidade de uma festa de igreja a que acabavam de assistir. Na segunda ou terceira paragem que fez o comboio, numa estação risonha, cercada de eucaliptos, um grupo de espanholas de mantilha, vestido preto e abanico, tagarelavam alto na gare, despedindo-se de uma tal D. Mercedes que embarcava para Madrid, repetindo-lhe muitas vezes - adiós, hija e abraçando a apertadamente. Ficamos entretidíssimas a vê-las e a ouvi-las, até que de novo o comboio partiu por entre as estradas floridíssimas e silenciosas.

 

Belo país a Espanha! belo e triste. Há como que um desmoronamento de grandeza e suntuosidade em tudo! Para quem viu os campos de Inglaterra e os de França, os de Espanha causam impressão; parecendo e sendo naturalmente mais férteis, são mais desaproveitados também. Os veios d'água transparente regam cardos, urzes, e terras bravias, lambendo as colinas e estendendo-se preguiçosamente pelas planícies fora.

 

A região do norte da Espanha, é de uma beleza selvagem, agreste e encantadora.

 

Paramos nessa tarde em Burgos.

 

As bandas militares tocavam nos quarteis e em frente à Municipalidade atordoadoramente. Nas janelas das casas principais, flutuavam as colchas do velho estilo, vermelhas e amarelas, de damasco de seda; a população espanejava-se alegremente pelas ruas. Perguntamos a razão disso tudo. "É que nasceu hoje em Madrid o nosso rei!" respondeu-nos orgulhosamente um espanhol que nos indicou o melhor hotel do lugar. Findos os rápidos reparos de toilette de viajantes, fomos visitar a grande Catedral de Burgos, concluída, creio, há 700 anos, onde estão as cinzas do Cid, natural dessa cidade, guardadas religiosamente num cofre seguro no alto de uma parede; e onde os enormes claustros abobadados infundem uma religiosidade soturna na alma dos que os visitam.

 

Uma das mais célebres catedrais do mundo, pela sua antiguidade, essa.

 

Voltamos de boa vontade, passando sob o grande arco de St. Maria, para o ar livre da avenida, onde as espanholas passeavam desembaraçadamente, rindo e conversando com os seus meneios graciosos de cabeça e andar feiticeiro e gentil.

 

Acabado o jantar, à noite, dirigimo-nos a pé para a estação.

 

Eram 8 horas; o trem partia às 9 1/2; tínhamos tempo de ir vagarosamente pela grande rua guarnecida de árvores, à beira do rio, onde a lua refletia a sua doce luz esbranquiçada.

 

Havia naquela placidez, naquele quadro silencioso e manso, uma poesia tamanha, um refúgio tão sagrado e tão puro para o nosso espírito há tanto ocupado com cenas de outra natureza! havia tanta serenidade naquele murmúrio blandicioso da água rolando entre seixos, iluminada e triste, que os nossos olhos se umedeceram, e as nossas almas, como as magnólias ao luar, abriram-se à saudade...

 

De madrugada passávamos pelo Escurial e às 7 horas da manhã desembarcamos em Madrid.

 

Lisboa, 17 de Agosto de 1886.

 

JÚLIA LOPES.

 

Fonte

A SEMANA [RJ, 1885-1895]. Ano 1886, Edição 098, p. 367. Disponível na Hemeroteca Digital Brasileira, Fundação Biblioteca Nacional.


 

Projeto Memorial da Literatura. Revista Voz da Literatura. Março de 2024. Notas, transcrição e revisão: Rafael Voigt Leandro.


 

Leia as demais crônicas de Júlia Lopes sobre sua viagem à Europa em 1886.


0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Comments


bottom of page