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De Paris a Madrid I (1886) | Júlia Lopes

{Penúltima crônica de Júlia Lopes sobre sua viagem à Europa em 1886.  Foi publicada na edição de 6 de novembro de 1886 do periódico A Semana.}



DE PARIS A MADRID

 

Na antevéspera da nossa partida de Paris fomos dizer um adeus de despedida no Bois de Boulogne, esse saudoso Bois, delícia de estrangeiros o de nacionais.

 

O céu, banhado de azul, com uma transparência idealmente cândida, abobadava encantadoramente o lindíssimo passeio onde os pinheiros difundiam o seu aroma resinoso e sadio, e as ramas lustrosas do arvoredo só embebiam de luz doirada e acariciadora. Deixado o carro na curva do uma avenida sombria, entramos no Jardim de Aclimação e dirigimo-nos vagarosamente para o restaurant. Enquanto o diligente garçon punha-nos sobre a mesa os pastelinhos de creme e os copos de grenadine gelada, olhávamos nós para as ruas do jardim, onde as crianças passeavam, recostadas em carros puxados por umas zebras elegantes, ou encarapitados no dorso onduloso dos camelos, ou repoltreados orgulhosamente no enorme e vagaroso elefante. Nas mesas do botequim conversavam e comiam gulosamente homens, senhoras e meninos, rindo despreocupados. Aqui um grupo de ingleses discutindo acaloradamente a questão Gladstone; ali uns italianos cantando no seu idioma una elogios a Fiorenza; acolá uns espanhóis atirando para o ar a fumaça azulada dos seus charutos a rufando com os dedos na mesa aquela cançoneta de Robinson – Ó que bom pays!; mais adiante dois chins, nas suas túnicas de seda amarela e azul, com os rabichos a tocar-lhes os calcanhares, e os olhos em amêndoa, arregaçados ao canto, fitando embevecidamente umas francesas risonhas, que a repetidas dentadas devoravam uns doces de chocolate, rindo-se das ternuras suspirosas dos lânguidos filhos do Celeste Império...

 

Atravessamos de novo o jardim, passando pelas jaulas e pelo grande lago das focas, onde as crianças riam batendo entusiasmadas as palmas ao verem surgir à flor das águas as cabeças achatadas desses anfíbios de olhos escuros e inteligentes.

 

Entrando de novo no carro, seguimos por belas avenidas até à cascata. Na mansidão do lago refletia-se o céu imaculado de nuvens.

 

Entre os carros postos em descanso à sombra das acácias, e entre os que se cruzavam com famílias em todas as direções, passavam grupos curiosos. Umas irmãs de caridade seguindo as discípulas, uns estudantes alegres com uns chapéus brancos de abas descaídas; e até um grande rancho de pessoas acompanhando uns noivos. Ela, a noiva, de branco, sustendo na mão enluvada a grande cauda do vestido, com o vaporoso véu a envolver-lhe o busto todo enfeitado de flores de laranjeira...

 

Ça n'est pas chic!  é certo, mas é inquestionavelmente pitoresco para quem, simples espectador, presencia os mimosos detalhes dessa encantadora tela viva e brilhante, -- o Bosque na primavera, o Bosque onde a alta aristocracia dá os seus rendez-vous, e onde a burguesia passeia, até mesmo no dia de noivado! Do restaurant saía um outro casamento. Entravam para um grande carro, espécie de char à bancs, noivos e convidados. As gargalhadas retiniam metalicamente no ar; a noiva, corada e risonha, falava muito deitando a cabeça para trás; o noivo com um grande ramo ao peito, olhava triunfante de redor; e pais e padrinhos e amigos, vermelhos, alegres, amarrotados, sentavam-se, depois de grandes discussões, nos assentos de marroquim do carro; que partia, levando para longe o ruidoso bando, cujas vozes ouvimos ainda por muito tempo.

 

Quando voltamos pelos Campos Elíseos, para o hotel, indo atravessar ainda o elegante parque Monceau, ao vermos a mais bela parte de Paris doía-nos na alma uma saudade grata a tantos esplendores.

 

No último dia, depois de um almoço de despedida, entre amigos, dirigimo-nos ao boulevard St. Germain, à casa de uma das celebridades médicas atuais, o Dr. Charcot. Enquanto esperávamos o nosso querido doente, que se demorava a conversar com o distinto médico francês, observávamos os objetos artísticos, as tapeçarias, os álbuns, o parque visto através dos vidros da grande janela, onde desmaiava a luz: é nos nossos ouvidos soavam, vindos de diversos grupos, como na véspera, palavras inglesas, espanholas, italianas e francesas, num misto extravagante. Não há, decididamente, terra mais visitada por estrangeiros! Quando saímos, uma chuva fina caía sobre o boulevard St. Germain. Chorava o céu de Paris!

 

Na manhã seguinte levava-nos um carro à gare de Orleans, d'onde pouco depois partíamos com direção a Bordeaux.Em pé, junto à janela do wagon, dizíamos com o lenço o último adeus à encantadora cidade que ia desaparecendo ao nosso olhar saudoso.

 

Fazia frio e era noite quando chegamos a Bordeaux. Atravessamos em carro fechado a cidade. A chuva batia nas vidraças, impedindo que víssemos alguma coisa das ruas. O cansaço, a umidade do tempo, convidavam-nos ao repouso; foi, pois, com verdadeira satisfação que nos sentamos recostadamente nos fauteuils de veludo vermelho do nosso quarto agasalhado pela alcatifa e por grandes reposteiros carmesim.

 

No dia seguinte, domingo, acordamos ao som repinicado dos sinos. A manhã estava de uma claridade suave, embora azul. Esperava-nos à porta um landau descoberto; saímos. Em frente na igreja St. Dominique entravam os fieis para a missa; um bom ar de alegria inundava a rua. Percorremos vagarosamente as grandes avenidas ladeadas de arvoredo, onde o povo passeava alegremente ao brando sol dessa manhã de domingo. Seguimos depois pelo cais; no porto, um grande número de embarcações; aqui enormes cascos de vapores em reparo, além o vozear alegre da marinhagem, lavando os conveses dos navios, a cantar. Nos pontos mais afastados e silenciosos, pescavam à linha uns pachorrentos burgueses, com o rosto sombreado por grandes chapéus de palha, cachimbo na boca e roupa clara. Passando pela grande ponte de dezessete arcos, observamos daí a vista da cidade à beira do Garónne, oú Mr. le marquis a vu le jour, como diz a canção quo desde pequenas cantávamos e que íamos mentalmente repetindo ao ver o rio nela falado e que ali estava rolando as suas águas límpidas a nossos pés. Voltando às ruas centrais, admiramos os elegantes e modernos edifícios, o grande teatro, o jardim público onde passeamos demoradamente, os mercados, curiosos pela animação, tamanho e asseio (no das frutas compramos os mais belos e deliciosos morangos que em toda a vida temos comido); o Arco do Triunfo, a catedral e mais igrejas. Havia nesse dia um espetáculo interessante em Bordeaux - a feira de St. Fort.

 

(Continua.)

 

JÚLIA LOPES.

 

Fonte

A SEMANA [RJ, 1885-1895]. Ano 1886, Edição 097, p. 359-360. Disponível na Hemeroteca Digital Brasileira, Fundação Biblioteca Nacional.


 

Projeto Memorial da Literatura. Revista Voz da Literatura. Fevereiro de 2024. Notas, transcrição e revisão: Rafael Voigt Leandro.


 

Leia as demais crônicas de Júlia Lopes sobre sua viagem à Europa em 1886.


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