BRASIS | Literatura cearense: entradas

por Eduardo Luz


Vivo em Fortaleza há 37 anos. Desde 1992, sou professor da Universidade Federal do Ceará, vinculado ao Departamento de Literatura. Durante vários semestres, dividi com meus alunos o encantamento que tenho pela literatura cearense, sobre a qual gostaria de escrever algumas linhas.


Antes, no entanto – e perdoe o leitor o tique acadêmico -, impõe-se explicar que rótulos como, por exemplo, regionalista e nacional, tão rotineiramente associados a escritores e obras, devem aqui ser considerados como meramente descritivos. Não entendo como menores o escritor ou a obra que exploram o particular, assim como o escritor ou a obra não são maiores por, simplesmente, manifestarem uma dicção supostamente universal ou por entrarem em diálogo com vertentes culturalistas mais em voga. Feita essa ressalva conceitual, passo ao sucinto inventário pessoal de autores que afetiva e/ou intelectualmente me tenham estimulado, na expectativa de que eles venham ativar a curiosidade do leitor.


A exiguidade de espaço me impõe renunciar ao século de José de Alencar (1829 - 1877) e apenas tangenciar o de Rachel de Queiroz (1910 - 2003), dentro do qual gostaria de iniciar por um de seus amigos, Jáder de Carvalho (1901 – 1985), com sua obra poética e narrativa de imensa dignidade e responsabilidade social. Há um poeta obscuro, que sofre de constrangedor ineditismo nos estudos acadêmicos, que é exemplar na adequação que empreendeu entre humor, crítica social e lirismo modernistas: Franklin Nascimento (1901 - ?). Destaco o romancista João Clímaco Bezerra (1913 – 2006), cujo primeiro livro, Não há estrelas no céu (1948), teve sua edição sugerida vigorosamente por Graciliano Ramos. Companheiro de João Clímaco no prestigioso Grupo Clã, Moreira Campos (1914 – 1994) é um contista apuradíssimo, capaz de fazer expandir nossa comoção e nossa reflexão para muito além de seu texto. Escritores magistrais, de dicção poderosa, dialeticamente particulares e universais, são Patativa do Assaré (1909 – 2003) e Gerardo Mello Mourão (1917 – 2007). Morto precocemente, há um contista e romancista arrebatador, de linguagem única (e, ao mesmo tempo, de todos os cearenses): Juarez Barroso (1934 – 1976), inegociável como necessidade de leitura.


Por fim, concluindo as sugestões, falarei daqueles e daquelas que ainda posso encontrar por Fortaleza: o poeta maior Horácio Dídimo, com suas composições rápidas, desconcertantes em sua simplicidade, inesquecíveis, e a poetisa maior Maria Helena Pinheiro Cardoso, que não nos faz ler poesia; faz-nos rezá-la. Entre os que constroem narrativas, há o prodigioso Jorge Pieiro, cujos contemas não poderiam ser assinados por mais ninguém, e a irretocável Tércia Montenegro. Todos os aqui citados são entradas para a literatura cearense, um universo de qualidade estética superior, construído por escritores e escritoras muitas vezes retesados e mesmo inviabilizados sob rótulos como regionais, estaduais, nacionais ou globais, enquadramentos inaceitáveis para a teoria crítica do conceito de valor, mas enquadramentos estabelecidos com relativa frequência em relação, sobretudo, a polos anacronicamente considerados periféricos – e, lamentavelmente, muitas vezes ainda acolhidos e repercutidos nos próprios polos.


{n. 4 | agosto | 2018}




{EDUARDO LUZ é professor de literatura na Universidade Federal do Ceará.}

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