ANTONIO CANDIDO | O legado atualíssimo de Antonio Candido

Atualizado: 17 de Ago de 2018

por Rodrigo Ramassote


Aclamado como um dos principais expoentes dos estudos literários contemporâneos, Antonio Candido (1918-2017) tornou-se ao longo dos anos referência incontornável no âmbito da modalidade de trabalho intelectual que o consagrou. Em particular, no meio acadêmico paulista sua obra converteu-se em fonte de inspiração e debate para inúmeras pesquisas relacionadas com a literatura brasileira. Ao mesmo tempo, nos últimos quarenta anos vem se ampliando exponencialmente a fortuna crítica voltada para o exame de seu legado intelectual, objeto de apropriação e disputa no interior do campo das letras e, em menor medida, mas também de forma crescente, no campo das ciências sociais.


Não faltam, sem dúvida, razões que atestem tal incontestável reputação: leitor sensível, que, desde a mocidade forrava os cadernos escolares com resumos e comentários sobre livros, Candido iniciou sua trajetória como crítico literário na revista Clima (1942-1945), publicação dedicada às artes em geral criada por um grupo de talentosos estudantes das primeiras turmas da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) da Universidade de São Paulo (USP). Com a formação e prestigio amealhados em suas páginas, foi convidado a assumir, a partir de janeiro de 1943, a coluna “Notas de crítica”, que saia às quintas-feiras no jornal Folha da Manhã (hoje Folha de S.Paulo). Nos rodapés, Candido se destacou pela sólida bagagem cultural e literária, assim como pelas contundentes opiniões políticas, as quais, não raro, reverberavam em suas apreciações estéticas, ainda que não as tenha comprometido. Profissão de risco, o critico de rodapé colocava sua reputação à prova semanalmente, ao ajuizar o mérito e o valor de obras recém-lançadas e de autores muitas vezes estreantes. Assim sucedeu com Clarice Lispector, João Cabral de Melo Neto e Guimarães Rosa, prontamente reconhecidos por Candido como figuras de proa na cena literária dos anos de 1940.


Em junho de 1945, Candido apresentou a monografia “Introdução ao método crítico de Sílvio Romero” ao concurso da Cadeira de Literatura Brasileira da FFCL-USP. Embora não tenha conquistado a cátedra, em certame polêmico no qual foi preterido em favor do candidato que já exercia as funções da cadeira, obteve contudo a livre-docência em Literatura Brasileira, o que lhe permitiu, anos depois, lecionar a matéria na recém-criada Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras do Instituto Isolado de Ensino Superior do Governo do São Paulo (atualmente integrado à UNESP), em Assis (SP), em meados de 1958. Por essa época, lançou seu mais importante e conhecido livro, A formação da literatura brasileira: momentos decisivos (1959). Rompendo com a perspectiva tradicional de periodização historiográfica, Candido postulava que, no processo formativo da literatura brasileira, devia-se distinguir analiticamente, de um lado, as “manifestações literárias” (compostas por um conjunto de obras isoladas e desarticuladas entre si, predominantes na fase inicial da produção literária no Brasil, ocorrida entre os séculos XVI e XVIII), e, de outro, “literatura propriamente dita”, definida pela existência de um sistema literário, formado pela presença concomitante de autores-obras-público (situação que emerge no Brasil a partir de meados do século XVIII, e que se consolida em fins do século XIX). A partir desse ponto de vista, passa em revista a produção literária brasileira, destacando suas principais figuras e legado.





Para além da autoria de extensa, erudita e relevante obra, Candido foi uma das figuras-chaves do processo de modernização dos estudos literários no Brasil, ao tornar-se, de 1961 em diante, o principal responsável pelo curso – posteriormente área e depois departamento – de Teoria Literária e Literatura Comparada (TLLC) na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP). No exercício de suas atividades, ele implementou um projeto de ensino e pesquisa bem-sucedido, que articulou vários níveis de atuação: a organização do currículo da Graduação e Pós-Graduação; o recrutamento e contratação, entre alunos e orientandos, de futuros professores; o estímulo à aquisição de acervos intelectuais e pessoais de grandes intelectuais e escritores (incorporando tal espólio ao meio universitário, assim como supervisionando o seu acesso e consulta); a captação de recursos financeiros para pesquisa (através de bolsas de pesquisa da recém-criada Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, Fapesp); a implementação de amplos projetos de pesquisa coletiva, e, sobretudo, a formação e treinamento acadêmico de, pelo menos, três gerações de estudiosos da literatura, das quais emergiu um dos segmentos mais expressivos e atuantes nessa área de estudos. Desse ponto de vista, basta folhear as obras de Roberto Schwarz, Davi Arrigucci Jr., Walnice Nogueira Galvão, Lígia Chiappini de Moraes Leite, João Luiz Lafetá, Telê Ancona Lopez, entre tantos outros, para espreitar alguma menção à profunda influência intelectual de Candido. Como ele próprio advertiu em entrevista: “Se você considerar a crítica brasileira atual, verá que alguns dos seus melhores praticantes trabalharam e fizeram pós-graduação comigo”.


Não se pode deixar de mencionar, por fim, a coerência e a lucidez das posições políticas de Candido, sobretudo em tempos de progressivo obscurantismo e descaso com a vida pública. Desde a juventude, Candido cultivou um interesse pelas ideias de esquerda, a começar pelo convívio com Teresina Rocchi, militante socialista italiana que vivia em Poços de Caldas (MG). Com o ingresso na FFCL-USP tal inclinação foi reforçado pelo contato com os professores franceses, e, sobretudo, pelo exemplo do colega e amigo Paulo Emílio Salles Gomes. Em 1942, Candido integrou-se a um pequeno grupo de intelectuais que se reunia aos finais de semana para discutir temas políticos, redigir documentos e praticar atos contra a ditadura instaurada pelo Estado Novo (1937-1945). Adotando uma fórmula de ativismo marcada, de um lado, pela independência tanto em relação às posições stalinistas como trotskistas e, de outro, pela busca de um modelo de socialismo ajustado à realidade nacional, o grupo adquiriu certa expressividade, juntando-se a outros na rede clandestina de luta pela redemocratização (nucleada em torno da Faculdade de Direito de São Paulo). Dessas reuniões dominicais surge o Grupo Radical de Ação Popular (GRAP), que se ligou, em 1943, a um núcleo combativo de estudantes ou jovens formados em Direito para formar a Frente de Resistência. Com o desfecho da ditadura civil varguista, as divergências internas afloraram e o grupo se desfez: os liberais ingressaram na União Democrática Nacional (UDN); os socialistas fundam a União Democrática Socialista (UDS). Dada a dificuldade de arregimentar e coordenar as tarefas para a luta eleitoral que então se iniciava o grupo socialista, antes de se dissolver, coligou-se à Esquerda Democrática (ED) – que então se formara no Rio de Janeiro – e participou de seu estabelecimento em São Paulo. Em meados de 1947, a ED mudou o nome para Partido Socialista Brasileiro, no qual Candido militou até meados da década de 1950, quando se afastou. Com a fundação do Partido dos Trabalhadores, no começo dos anos de 1980, Candido retoma a militância, não deixando de apoiar e professar a fé no socialismo, como meta a ser alcançada no Brasil. E assim permaneceu até o fim de sua vida.


Como se vê, o legado intelectual, acadêmico e político de Antonio Candido, um ano após a sua morte, permanecem atualíssimos. Sinal mais do que eloquente de que sua contribuição para a cultura letrada brasileira, em especial para os estudos literários, ultrapassou os limites físicos de sua existência, e permanecerá inspirando novas incursões, debates e leituras.


{n. 3 | julho | 2018}



Rodrigo Ramassote é pós-doutor em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (USP). Atua no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Em 2013, na Unicamp, defendeu a tese de doutorado “A vida social das formas literárias: crítica literária e ciências sociais no pensamento de Antonio Candido.”

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