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Presciliana Duarte de Almeida | Memorial da Literatura


{ } No número inaugural da revista A Mensageira: revista literária dedicada à mulher brasileira (SP, 1897-1900), Presciliana Duarte de Almeida (1867-1944), escritora e diretora do periódico, apresenta em seu editorial uma lista considerável de mulheres da nascente “república das letras”. { }


 

Duas palavras

Primeira página do número inaugural da revista A Mensageira

Estabelecer entre as brasileiras uma simpatia espiritual, pela comunhão das mesmas ideias, levando-lhes de quinze em quinze dias, ao remansoso lar, algum pensamento novo sonho de poeta ou fruto de observação acurada, eis o fim que, modestamente, nos propomos.

Será recebida com indiferença a Mensageira portadora feliz da prosa amena e discreta de Júlia

Lopes de Almeida e dos versos artísticos e sentidos das mais festejadas e conhecidas poetisas brasileiras? Não o cremos! e é por isto que nos arrojamos a uma empresa desta ordem.

Há tempos o Correio Paulistano, publicando um belo soneto de Georgina Teixeira, dizia, entre outros entusiásticos conceitos, as seguintes palavras, que nos lisonjearam sobremodo: «Decididamente a época é do renascimento das letras. De toda a parte surgem novos livros de prosadores e poetas e percebe-se que a atividade intelectual segue resolutamente nu'a marcha gloriosa em busca do ideal artístico.

Das senhoras que trabalhavam na república das letras tínhamos, até há pouco, apenas Narcisa Amália, que já se recolheu ao silêncio, Adelina Vieira e Júlia Lopes. Agora, além dessas, temos Francisca Júlia da Silva, Zalina Rolim, Júlia Cortines, Presciliana Duarte de Almeida, Josephina Alvares de Azevedo e Georgina Teixeira, que surge agora no horizonte num esplendor de luz auroral.» Acrescentemos a estas, Maria Clara da Cunha Santos, Áurea Pires, Elvira Gama, Maria Emília da Rocha, Anna Nogueira Baptista, Maria Jucá, Amélia de Oliveira, Maria de Azevedo, Anália Franco e qualquer outra cujo nome nos haja escapado, e veremos com entusiasmo que, na terra de Paraguassú e de Damiana da Cunha, o espírito feminino se desenvolve miraculosamente e a mulher procura iluminar a sua inteligência, concorrendo também com o penhor de suas vigílias para o engrandecimento das letras.

Não é, porém, somente na literatura que a sua aptidão se revela, e, para prova, basta citarmos o nome da Doutora Ermelinda de Sá, essa pujante mentalidade que se afirmou na Academia de Medicina do Rio de Janeiro, onde fez um curso brilhantíssimo, merecendo treze distinções nos exames das séries letivas, de clínicas e de tese e que hoje, como judiciosamente notou Arthur Azevedo no Álbum, conta em cada cliente uma fervorosa e convicta propagandista da sua perícia e dedicação profissionais!

Ora, esse desenvolvimento intelectual da mulher brasileira não se haverá cingido unicamente ao grupo das que surgem à tona, aparecendo na imprensa ou nos cursos de ensino superior. Havemos convir em que o seu desenvolvimento coletivo deve ter sido enorme para que tantas se tenham podido individualizar e excitar a admiração dos contemporâneos. Assim, empreendermos esta publicação, sentimo-nos animadas da mais viva esperança, depositada no espírito progressivo e na benemerência de nossas compatriotas.

Para mais variada e interessante tornarmos a nossa revista, temos, além da colaboração das mais ilustres escritoras nacionais, o concurso de distintíssimos cavalheiros, cultores fidalgos e devotados da arte da palavra. Esperamos, portanto, o apoio de nossas inteligentes patrícias e aqui ficamos com braçadas de flores para receber os trabalhos de todas aquelas que nos quiserem trazer o auxílio de seu talento.

Que a nossa revista seja como que um centro para o qual convirja a inteligência de todas as brasileiras! Que as mais aptas, as de mérito incontestável, nos prestem o concurso de suas luzes e enriqueçam as nossas páginas com as suas produções admiráveis e belas; que as que começam a manejar a pena, ensaiando o voo altivo, procurem aqui um ponto de

apoio, sem o qual nenhum talento se manifesta; e que, finalmente, todas as filhas desta grande terra nos dispensem o seu auxílio e um pouco de boa vontade e benevolência.

PRESCILIANA DUARTE DE ALMEIDA.

 

Fonte:

A MENSAGEIRA [SP, 1897-1900]. Ano 1897, Edição 01, p. 2. Disponível parcialmente na Hemeroteca Digital Brasileira, Fundação Biblioteca Nacional.


Na Biblioteca Brasiliana Guita e José Midlin, é possível consultar uma edição fac-símilar do periódico. Disponível em: https://digital.bbm.usp.br/view/?45000034060&bbm/7766#page/8/mode/2up


 

Projeto Memorial da Literatura. Revista Voz da Literatura. Dezembro de 2022. Notas, transcrição e revisão: Rafael Voigt Leandro.


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