Joseph Lister e um capítulo da história da medicina

Atualizado: Abr 12

Livro “Medicina dos horrores” focaliza a história e as contribuições de Joseph Lister à medicina.





Tradução. Vera Ribeiro. RJ: Intrínseca, 2019. 320 p.

Há livros que mereceriam ser lançados com mais de uma versão de capa. Esse é o caso de Medicina dos horrores, de Lindsey Fitzharris. Um livro que trata da vida e das contribuições do médico inglês Joseph Lister (1827-1912) para a história da medicina.

A capa vermelha e preta, com tipografia no título semelhante a filme de terror, escolhida pela editora Intrínseca, em belíssimo trabalho de diagramação de Julio Moreira, remete aos “horrores” da medicina cirúrgica praticada no século 19, antes do advento, por exemplo, de medidas antissépticas propostas por Jospeh Lister no “teatro cirúrgico”.

Não há dúvida de que a capa pretende fazer com o que o livro chegue a público mais amplo do que aquele que pudesse se interessar tão somente pela vida de Lister, que pode ser um ilustre desconhecido para muitos leitores. O que é bastante justo. Em particular, preferia uma capa em valorização à vida de Lister.

O prólogo do livro faz jus ao título sobre os “horrores”, demonstrando como os hospitais ingleses no século 19, tal como o anfiteatro cirúrgico do University College Hospital de Londres (UCL), eram verdadeiras “casas de morte”. A taxa de mortalidade antes, durante e após uma cirurgia era altíssima. O que se devia, entre outras coisas, ao atraso na percepção da comunidade médica da importância do controle das condições sanitárias do ambiente, com os cuidados antissépticos e posteriormente os assépticos.

Além disso, pode-se observar o despreparo na formação de médicos, alguns deles sem qualquer estudo técnicos para a prática de operações, como nas comuns amputações de membros lesionados.

As cirurgias passaram a ser durante a primeira metade do século 19 verdadeiros espetáculos públicos de terror, em que se assistia aos tenebrosos sofrimentos sofridos pelos pacientes submetidos a cirurgias.

A autora Lindsey Fitzharris, doutora em história da ciência e da medicina pela Universidade de Oxford, demonstra muita perspicácia em contar histórias horríveis que introduzem a narrativa do livro. Diverte, apavora e revela apuro na pesquisa realizada, especialmente quando Joseph Lister passa a ser o centro da narrativa.

De estudante de medicina a uma das figuras mais proeminentes da medicina mundial, Joseph Lister trilhou caminhos pouco comuns para sua época. Exerceu cargos em Londres, Edimburgo, Glasgow. Teve entre outros mestres um dos grandes cirurgiões daquele período: James Syme, professor de cirurgia na Universidade de Edimburgo (depois tornou-se sogro de Lister).

Mas seu grande e verdadeiro mestre foi seu pai, o Sr. Joseph Jackson Lister, espécie de cientista amador. Por influência do pai, apaixonou-se pela pesquisa com o uso de microscópios. E foi justamente desse universo microscópico que Joseph Lister aproximou-se intelectualmente das pesquisas do francês Louis Pasteur (1822-1895), em momento em que pouco ou nada se sabia de micróbios e o efeitos que poderiam provocar nos pacientes durante e após uma cirurgia.


Joseph Lister (1827-1912)

É daí que Joseph Lister passa a desenvolver seu método antisséptico com o ácido carbólico, por volta de 1867. A antissepsia diminuiu consideravelmente a taxa de mortalidade em cirurgias, apesar de ter sido bastante contestada sua eficácia. Como evolução desse processo, a antissepsia cedeu lugar à assepsia. Esta última incentivada pelo alemão Robert Koch (1843-1910), patologista e bacteriologista, conhecido por suas pesquisas que resultaram na descoberta dos bacilos da tuberculose (“bacilo de Koch”).

A fama de Joseph Lister era tão grande que ele foi escalado para uma cirurgia de abscesso na rainha Vitória da Inglaterra em 1871. Com sucesso arrancou-lhe um pequeno tumor, tendo, e claro, todos os cuidados antissépticos. Isso alçou pouco tempo depois Joseph Lister ao posto de médico permanente da família real.

Indispensável dizer que a “onda” antisséptica de Lister resultou no aproveitamento por parte da indústria ainda durante sua vida, como o antisséptico bucal Listerine e outras aplicações da Johnson& Johnson.

Iniciativas como a de Joseph Lister, aliadas a outras como a do alemão Robert Koch, com a esterilização de equipamentos médicos e ambiente hospitalares, no final do século 19, modificaram os hospitais de “casas de morte” em “casas de vida”.



“A Clínica de Gross” (1875), de Thomas Eakins (1844-1916)

Antes mesmo do anúncio da pandemia do novo coronavírus (covid-19), esta pauta sobre Joseph Lister e o livro Medicina dos horrores estava programada para ocorrer na segunda quinzena de março. Até que veio a decisão de interrupção temporárias das atividades da revista.

Parece que temas abordados em Medicina dos horrores, como a antissepsia ou a assepsia, são ações das mais importantes também para esse momento de controle da covid-19, além do necessário isolamento, como recomendado pela OMS e outras instituições e autoridades sérias no campo da saúde pública, com o intuito de preservar nosso direito à vida.

Toda informação contrária, que encare essa crise como “histeria” ou “fantasia”, não passa de “fake news”. Basta olhar para o que a covid-19 provocou na China e vem provocando na Itália, Espanha, Estados Unidos. Neste mês, o Brasil entra em uma das fases mais críticas do combate ao coronavírus. Importante repetir nesse contexto que informação confiável é um dos principais remédios para este momento. Não compartilhe conteúdo de autoria ou fonte duvidosa. Cuide de você. Cuide de todos.

RAFAEL VOIGT

editor da revista {voz da literatura} e doutor em literatura pela UnB. { } Quer receber este e outros conteúdos em primeira mão? Basta preencher nosso formulário de assinante: https://forms.gle/Euh5SMThHJDKf8kW8

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