Do Rio a Londres (1886) | JĂșlia Lopes
- {voz da literatura}
- 5 de jan. de 2024
- 6 min de leitura

DO RIO A LONDRES
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Oh! minha terra amada, acolhe as palavras que te envio, sempre cheia de amor e de saudades.
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Ao deixar-te, eu, encostada à amurada do vapor, que me havia de trazer a plagas estrangeiras, olhava através das lågrimas para as tuas montanhas enormes, luxuosas de vegetação, erguidas entre o azul do céu e do mar, inundadas de luz dourada e quente, e pensava: - Aà fica a melhor parte da minha vida, toda a meninice e parte da minha mocidade...
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Via-me em Friburgo, no Chateau, erguido entre pomares, ninho saudoso onde nĂŁo deixei penas e donde tĂŁo pequenina saĂ, mas que me vinha Ă memĂłria nitidamente, numa lembrança suave e acariciadora. Foi ali que balbuciei as primeiras palavras no aconchego do colo materno; foi ali que dei os primeiros passos, guiado pelas mĂŁos previdentes e bondosas de minha irmĂŁ mais velha; foi ali que aprendi as letras, sentada nos joelhos de meu pai! Como nĂŁo havia de sentir saudades?
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Oh! Friburgo, como me vem Ă memĂłria, como me alegra a lembrança dos meus folguedos aĂ! O recanto do jardim, onde fazia os grandes banquetes de bonecas⊠A espera de Mme. Grip ou de Mme. Cardianux, que deviam trazer manteiga fresca logo de manhĂŁ cedo, e que eu esperava pronta, com a minha tigela de leite natoso e a fatia de pĂŁo abiscoitado, ainda quentinho do forno⊠E as idas ao pomar, onde, sem caridade, as minhas companheiras mais velhitas e com mais força portanto, batiam com bambus nas pitangueiras luzentes, esmaltadas de frutinhas escarlates, que se espalhavam no chĂŁo donde as juntĂĄvamos?... E os pinheiros do caminho do Chalet, enormes, elevando a sua rama verde-negra dentre as ĂĄrvores em redor?... E as acĂĄcias, mais adiante, amarelas e roxas, perto do riacho que descia soluçante entre gramados e pequenos bosques atĂ© lĂĄ embaixo, ao rioâŠ
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Que diferença haverå em tudo aquilo! Fiz bem em nunca mais lå voltar.
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A alteração notada num lugar amado, como que se nos afigura um sacrilĂ©gio. Embora deixasse eu em ruĂnas o meu primeiro ninho, havia de sentir uma decepção triste no encontrĂĄ-lo, quando o procurasse num palĂĄcio moderno e confortĂĄvel! O passado, esse nunca mais se encontra, eu sei; a vida Ă© como a ĂĄgua de um rio, que vai e nĂŁo volta mais; mas hĂĄ um prazer indefinido em pisar a gente, depois de muitos anos, as tĂĄbuas que pisou em criancinha, e em pascer os olhos nas paredes da sua antiga habitação, dizendo: - EstĂĄ tudo tal e qual!
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Depois dessa quadra bonançosa, dos primeiros cinco anos de minha vida, vinha-me ao pensamento a capital do impĂ©rio, terra onde nasci, onde todas as alegrias tive, onde tĂŁo feliz fui! Depois... a serra de S. Paulo, a cidade em que morei, onde acordava ouvindo os cantos dos meus saudosos canĂĄrios, a que respondiam lĂĄ fora as andorinhas, que iam pousar na janela de meu quarto, entre as hastes floridas das angĂ©licas e as brilhantes folhas dos crotons... E o panorama que dessa janela eu desfrutava! Campinas, meio encoberta de um lado pelas casuarinas do mercado, deitada entre duas colinas, numa linha curva, inundada da luz branda e doce da manhĂŁ, destacada entre os campos e o arvoredo pelo desmaiado azul do cĂ©u, trazendo-me ĂĄ lembrança um esmalte fino, completo, nĂtido, feito numa mimosa concha azul; depois as horas de estudo e as de trabalho, a sala de costura, a voz sonora de uma de minhas irmĂŁs recortando no ar uns trinados alegres; as mĂșsicas estudadas a quatro mĂŁos com outra, as visitas de uma amiga Ăntima; a chegada do carteiro com as cartas e os jornais da Corte; os risos expansivos de meus sobrinhos... Ă noite o serĂŁo, todos Ă roda da mesa, as senhoras tricotando ou bordando, os homens fazendo e desfazendo paciĂȘncias, e em frente a uma de nĂłs, sobre o pano cinzento da mesa, aberto um livro, que Ă© lido em voz alta e com imenso interesse ouvido: D. Quixote de la Mancha, por exemplo, o delicioso livro de Miguel Cervantes, tĂŁo originalmente belo!
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Depois... oh! a fantasia volta aos mesmos sĂtios donde partiu. VĂȘ as alegres manhĂŁs de Dezembro... o nosso jardim...vĂȘ... Mas o vapor abala-se e vai singrando as ĂĄguas da esplĂȘndida baĂa do Rio de Janeiro; a pouco e pouco desvanece-se no horizonte esta ou aquela montanha... o dia vai descaindo, uma aragem forte seca-nos os olhos cansados de chorar, e a voz prudente de uma santa e desvelada amiga aconselha-nos a que nos vamos sentar num canto agasalhado.
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No dia imediato balançava-se o vapor entre céu e ågua. Nem uma sombra no horizonte indicadora de terra!
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Entre os passageiros do Arawa, vinham sĂł duas famĂlias brasileiras e uma portuguesa; todos os mais eram ingleses, ou australianos. As senhoras sempre preparadas como para passeio, de chapĂ©us com flores e luvas de pelica, passeavam a passos largos pelo tombadilho.
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Eu julgava as inglesas pouco ou nada acessĂveis; tinha-as em conta de inatacĂĄveis e nĂŁo me atreveria nunca a dirigir-me diretamente a qualquer delas. Abri, pois, o meu livro, Tartarin sur les Alpes, que mĂŁos queridas me haviam dado no apartamento, e pus-me a ler. Estava ainda no primeiro capĂtulo, quando uma voz estranha me interrompeu a leitura.
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Era uma senhora inglesa que, curiosa, veio fazer-me algumas perguntas a respeito do Brasil. Respondi-lhe da melhor vontade e estabelecemos assim relaçÔes; Ă noite tinha conversado jĂĄ com muitas e muitos deles e acompanhado ao piano um cantor nas suas mĂșsicas.
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Os ingleses nĂŁo cantam geralmente senĂŁo no seu idioma.
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Os seus romances tem todos como que o mesmo ritmo, sĂŁo monĂłtonos, sĂŁo pĂĄlidos e tristonhos. Durante os dezoito dias que vivi a bordo ouvi cantos ingleses, irlandeses e sobretudo escoceses; italianos, franceses e alemĂŁes, nunca! Ă que os ingleses, em geral, detestam as lĂnguas estrangeiras, a julgar pelo pouco que as estudam. HĂĄ um certo egoĂsmo altivo no modo porque declaram que sĂł em inglĂȘs cantam, que sĂł inglĂȘs leem e que sĂł inglĂȘs falam. Esmeram-se, educam-se na sua lĂngua materna; nĂłs, mais superficiais talvez no estudo da nossa, procuramos aprender as alheias e conseguimos, Ă s vezes, cousa espantosa e realmente triste! saber mais a fundo uma lĂngua estrangeira, do que a que temos por dever sagrado conhecer bem!
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Apesar dos concertos e dos bailes, em que os cavalheiros se apresentavam en grande tenue, da leitura do jornal, às segundas-feiras; dos diversos jogos, da delicada atenção da oficialidade para com os passageiros; e da biblioteca do vapor, que não era må; apesar de todas as vantagens, enfim, enfastiava-me horrorosamente a longura daqueles dias e daquelas noites!
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TĂnhamos jĂĄ bastante tempo de viagem, quando chegamos a Tenerife.
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Ver terra alegra o navegante; Ă© um consolo, um refrigĂ©rio, um descanso. Ainda mal se divisavam alĂ©m as montanhas da pitoresca ilha, confundida no horizonte com as nuvens azuladas, e jĂĄ nĂłs, de binĂłculo em punho, numa ansiedade desculpĂĄvel, pĂșnhamo-nos a olhar para ela, com simpatia, com alegria, mesmo!
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O Pico de Tenerife estava encoberto pela neblina. Fazia frio, muito frio.
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Viam-se de um lado as montanhas cobertas de neve, do outro cobertas de vegetação, e em baixo, Ă beira-mar, a casaria irregular da ilha, edificada no estilo espanhol. A cercar o Arawa, logo que este aportou, afluĂam os botes dos mercadores de frutas, aves, chocolate e fumo, falando todos muito e muito alto, zangando-se entre si, oferecendo aos viajantes tudo o que traziam, em repetidas sĂșplicas.
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Aquele quadro animado e brilhante, a terra, a neve, o arvoredo, a gente de outro tipo e de outra lĂngua muito diversa da que ouvĂamos desde pela manhĂŁ atĂ© Ă noite a bordo, quebrou a monotonia dos dias passados entre cĂ©u e ĂĄgua, com vento contrĂĄrio, cortante e frio. A vida no mar Ă© agradĂĄvel para quatro ou cinco dias, mas deveras fatigante para muitos.
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Eu gosto dela, note-se. Sentia-me bem, seguindo Ă noite a marcha das estrelas, recostada na cadeira de vime, em cima, no tombadilho; gostava de ver a esteira branca feita pelo movimento do vapor; agradava-me a convivĂȘncia dos companheiros e sentia-me forte; mas, mesmo assim, desejava-me em terra, gozando outros espetĂĄculos variados e novos.
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PĂŽs-se de novo em marcha o grande Arawa, para Plymouth.
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Passamos bem perto de S. Vicente, a triste e ĂĄrida ilha, mas nĂŁo paramos aĂ.
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O resto da viagem correu maravilhosamente. A baĂa de Biscaia - a tĂŁo temida baĂa, foi para nĂłs gentilĂssima: mar sereno, transparente, liso, foi todo um madrigal lisonjeiro, fez-se lago para a passagem do Arawa.
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As gaivotas, - nunca vi tantas! - cercavam em bandos bulhentos o paquete, refletindo-se na ågua os seus voos. Os bem cultivados campos dos baixos montes de Plymouth prenderam-nos a atenção, bem como as fortalezas à beira-mar e sobre as colinas, sentinelas altivas destacando-se do suave colorido dos prados e do fundo pålido de uma manhã de inverno.
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SĂł no dia seguinte devĂamos chegar a Londres, e sĂł no dia seguinte chegamos. O TĂąmisa, cuja entrada me impressionou agradavelmente, nĂŁo nos deixou ir atĂ© a grande cidade, tĂŁo baixa tinha a marĂ©. Desembarcamos, pois, em Gravesend, triste bairro de operĂĄrios das docas; aĂ tomĂĄmos o comboio. Minutos depois passĂĄvamos por entre uma multidĂŁo de chaminĂ©s, e, ao entardecer, em uma tarde chuvosa e fria, chegamos Ă grande, Ă imensa capital do mundo comercial, Ă opulentĂssima Londres.
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Lisboa, 28 de Junho de 1886.
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JULIA LOPES.
Fonte
A SEMANA [RJ, 1885-1895]. Ano 1886, Edição 084, p. 253. DisponĂvel na Hemeroteca Digital Brasileira, Fundação Biblioteca Nacional.

Projeto Memorial da Literatura. Revista Voz da Literatura. Janeiro de 2024. Notas, transcrição e revisão: Rafael Voigt Leandro.
Leia a primeira matĂ©ria da sĂ©rie da Voz da Literatura sobre as crĂŽnicas de viagem de JĂșlia Lopes
