A telegrafia de Machado
- {voz da literatura}
- há 23 horas
- 3 min de leitura
{} Rafael Voigt
Editor da Voz da Literatura
Doutor em Literatura (UnB)
O Globo: órgão da Agência Americana Telegráfica, dedicado aos interesses do Comércio, da Lavoura e da Indústria. Este é o título e subtítulo do jornal em que Machado de Assis publicou seu primeiro folhetim: A mão e a luva (1874).

De propriedade do banqueiro Mário Gomes de Oliveira, o periódico funcionava como um braço da Agência Americana Telegráfica, inaugurada poucos meses antes de os cabos telegráficos submarinos ligarem o Brasil à Europa e a outras partes do mundo. Cabos que diminuíram não somente as distâncias, mas a velocidade com que as notícias internacionais chegavam ao país.
Aos 35 anos, Machado de Assis já era cronista e contista experimentado e reconhecido, além de poeta, crítico teatral e tradutor. Contribuiu com periódicos como Diário do Rio de Janeiro, Semana Ilustrada, Jornal das Famílias. Havia publicado seu primeiro romance Ressurreição (1872). Afora outros livros: Crisálidas (poesia, 1864), Falenas (poesia, 1869), Contos fluminenses (1869), Histórias da meia-noite (1873).
Não sabemos como nem em que momento, mas Machado certamente conhecia o banqueiro Mário Gomes e um dia estendeu a mão a ele para selar seu contrato para publicar o folhetim de A mão e a luva entre os meses de setembro e novembro de 1874 em O Globo. Talvez nada disso tenha acontecido, porque quem servia como editor do jornal era Quintino Bocaiúva, amigo de Machado.
Para nossos antepassados que leram A mão e a luva em avant-première, a série folhetinesca envolvendo a ambiciosa Guiomar, o lascivo Jorge, o romântico Estevão e o também ambicioso Luís Alves, estava tipograficamente imersa em uma vastidão de seções noticiosas e, claro, com ênfase em novidades vindas pela via telegráfica.
Só que a (tele)grafia machadiana servia como contraponto, como espaço de experiência estética e de ampliação do olhar social por meio da literatura, não obstante um romance aos moldes românticos.
O enquadramento desse folhetim diário, nas páginas de O Globo, justifica, em parte, o que Machado escreveria na advertência à primeira edição de A mão e a luva em livro: “Esta novela, sujeita às urgências da publicação diária, saiu das mãos do autor capítulo a capítulo, sendo natural que a narração e o estilo padecessem com esse método de composição, um pouco fora dos hábitos do autor.”
Passados quase 150 de sua publicação A mão e a luva, deveria ser relido não somente por novos leitores, mas relido por novos escritores, para apanhar a consciência da criação da vida, em diálogo, em motivo, em percepção dos caracteres, em linguagem límpida, em sucinta descrição de cenários e ambientes. Machado dá lição de criação literária, leitura e repertório cultural.
Na prática, esses elementos em conjunto proporcionam um romance bastante vivo, pulsante, atraente.
E olhando em retrospecto a carreira literária do bruxo do Cosme Velho, antes de qualquer salto precipitado na inventividade, aprendeu, primeiro, a dominar as dimensões do gênero que se pretendia cultivar. Machado, previamente à escrita de um romance simples e menor em sua obra, havia escrito muito na imprensa diária, como cronista, contista, crítico teatral, além de poesia. Poucos e raríssimo escritores palmilham esse caminho de Sísifo.
A Agência Americana Telegráfica, o banqueiro Mário Gomes, O Globo, os folhetins, os cabos telegráficos submarinos, todos foram soterrados pelo tempo. A telegrafia de Machado permanece em funcionamento e mandando sinais para o futuro.




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